A influência da Revolução Cultural chegou a Portugal durante a crise académica de 1969, via movimento do Maio de 1968 francês, disse à Lusa o historiador Fernando Rosas. “E isso é que explica que os movimentos que já se reivindicam mais ou menos explicitamente do maoismo, enquanto produto da Revolução Cultural, surjam em 1970. O MRPP aparece em 1970, assim como outros, que se começam a reorganizar”, afirma.

Militante do Partido Comunista Português (PCP), que abandonou em 1968, Fernando Rosas, 70 anos, foi um dos fundadores, em setembro de 1970, do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP, atual PCTP/MRPP). Detido por duas vezes pela polícia política do antigo regime, em 1965 e em 1971, foi durante vários anos dirigente do que foi uma das mais genuínas formações maoistas em Portugal.

“A Revolução Cultural é a grande inspiração. Naturalmente que o corte com a União Soviética e a crítica à designada ‘via revisionista’ já vinha de antes, mas o maoismo radicalizou essa crítica e transformou-a numa orientação política distinta”, disse Fernando Rosas à Lusa.

Em tempos de guerra colonial em África e de guerra do Vietname, enquanto prosseguia um intenso debate sobre a estratégia de combate ao regime salazarista, a “luta pacífica ou luta armada”, a Revolução Cultural exerceu um enorme fascínio entre a juventude estudantil, sobretudo universitária, que apenas se apercebeu mais tarde da sua essência e efeitos na China.

Pedro Baptista, 68 anos, na altura estudante de Filosofia na universidade do Porto lembra também em declarações à Lusa que “a Revolução Cultural surgiu como ouro sobre azul, era a sopa no mel, porque Mao procedia à alteração, a nível da superestrutura, da cultura e da mentalidade, contra o antigo, contra o velho, e contra os burocratas do partido”.

Em 1969 Pedro Baptista esteve na fundação do grupo O Grito do Povo, mais tarde Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa (OCMLP), que editou um jornal com o mesmo nome e se incluiu entre a miríade de grupos maoistas que despontaram do final dessa década.

“Era sempre este tema, uma revolução a nível da superstrutura. Existia por um lado este aspeto da revolução mental, que é a Revolução Cultural, misturado com um certo exotismo orientalista”, lembra Pedro Baptista, hoje membro da Assembleia Municipal do Porto e que desde há quatro anos também optou por viver na China.

“Por isso (a Revolução Cultural) era tão sedutora, pelo seu caráter também libertário, de massas. Os dirigentes estarem ao serviço do povo, a fiscalização das massas sobre os dirigentes, a descentralização do papel do partido e dos dirigentes do partido, tudo isso era muito atrativo para aquela jovem geração também marcada pelo Maio de 68”, acrescenta Fernando Rosas.

No entanto, a realidade e as consequências deste movimento, legitimadas em 1969 no IX Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC) só mais tarde começam a ser reveladas, e de forma parcial.

“A revolução cultural foi uma guerra civil entre várias fações do partido (comunista chinês) que se combatem e da qual sai provisoriamente vencedora uma fação que é derrotada pouco depois, o que se chamou o Bando dos Quatro”, julgado logo após a morte de Mao em 1976, ressalva Fernando Rosas, que insiste em sublinhar as dificuldades na investigação que ainda hoje se registam.

“O que chegava da Revolução cultural chinesa era o que vinha na imprensa oficial chinesa colocada nas livrarias de Paris e que depois se trazia ilegalmente para Portugal. O que tínhamos era a versão gloriosa da Revolução cultural”, diz.

A historiografia europeia ainda se ressente destas limitações, com trabalhos “escassos e limitados” em torno da Revolução Cultural, seja porque a maioria dos historiadores europeus não domina o chinês, ou por permanecer muito limitado o acesso aos arquivos oficiais de Pequim.

“Mesmo os textos de referência são textos ocidentais, manifestamente simpatizantes e entusiastas da Revolução Cultural, ou detratores” deste movimento, mas sem uma “investigação empírica e fundamentada”, frisa ainda Fernando Rosas.

“Insisto em dizê-lo porque o que hoje se sabe da Revolução Cultural são coisas de uma forma geral muito difusas, pouco fundamentadas, muitas delas provavelmente mitificadas num sentido ou noutro, e é preciso perceber isso”, afirmou.

Mas os “novos ventos” que então sopraram da China de Mao continuam a motivar abordagens contraditórias, mesmo que hoje se reconheça o seu carácter repressivo e totalitário.

A “revolução ao nível da superestrutura”, a “questão das massas e a sua mobilização contra a burocracia”, mobilizaram então Pedro Baptista e dezenas de milhares de jovens, sobretudo na Europa.

Hoje, o ex-líder da OCMLP refere-se a um “excesso de racionalismo” e uma “ideia brilhante” que depois não teve reflexos na prática.

“A Revolução Cultural está marcada por exageros, excessos da razão, hiper-racionalismos. O que chamo de ‘razão abísmica’, o abismo da razão, que foi um excesso de pensamento sobre os costumes”, afirma Pedro Baptista.