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“Quando li que a lei tinha sido aprovada fui para o balneário a chorar”. De alegria

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Ana descobriu aos 19 que tinha nascido sem útero e ainda com 19 tiraram-lhe os ovários. Aprendeu a viver com o problema, mas confessa que a vontade de ser mãe continua lá. O marido acomodou-se.

TOBIAS SCHWARZ/AFP/Getty Images

Ainda não era uma da tarde. Ana, acabadinha de chegar ao ginásio, olhou para a televisão sem som e percebeu que tinha chegado “a” hora. Fixou-se no fundo do ecrã à espera do rodapé. “Quando li ‘aprovado’ fui para o balneário a chorar”. Eram lágrimas de alegria. O Parlamento tinha acabado de dar luz verde à gestação de substituição, uma esperança para mulheres que, por motivos de doença ou acidente, não têm útero e por isso não conseguem suportar uma gravidez. Uma esperança para Ana.

Pouco antes dos 20 anos, e após ano e meio de exames e diagnósticos errados, Ana descobriu que tinha nascido sem útero. Na altura encarou o problema com dor, mas alguma paz, e só mais tarde viria a perceber o verdadeiro impacto da descoberta. “Aos 21, 22 anos caiu-me a ficha. Percebi que não era uma mulher como as outras”, conta, garantindo que logo aprendeu a viver com o problema.

Não podia era exigir o mesmo dos namorados. Um deles, passado ano e meio de relacionamento, terminou tudo com o argumento que ela nunca lhe poderia dar um filho. “Foi um baque” e foi também o suficiente para a deixar “com medo” e “sozinha por muito tempo”. “Lembro-me que na altura pensava que não era ninguém para impedir um homem de realizar o sonho de ser pai”, recorda ao Observador.

O medo era tanto que quando conheceu o atual marido não lhe contou nada. Nem quis acreditar quando ele a confrontou.

Ele disse-me que sabia que eu não podia ter filhos mas que a vida nos traria outras coisas que nos iriam completar. Disse para não me preocupar. Fiquei sem palavras, acho que andei uma semana a chorar. Foi um alívio”, conta entre risos.

A vida não lhes trouxe filhos, mas trouxe outras coisas. Estão casados há 10 anos. Por Ana haveria uma criança lá em casa. “Já pensei muitas vezes em adotar uma criança, mas ele recusa-se a passar pelo processo porque o nosso país é muito burocrático e moroso e porque se recusa a ser avaliado por uma série de pessoas para perceberem se ele vai ser um bom pai.”

Até à hora em que falou com o Observador, no final da tarde desta sexta-feira, ainda não tinham trocado impressões sobre a aprovação da gestação de substituição, mas esse tema já tinha sido abordado antes.

Aos 37 anos, Ana pensa muito mais no assunto do que o marido. “Ainda sinto vontade de ser mãe. O meu marido também pensa, mas acomodou-se e dá sempre a desculpa de que isto é muito complicado ao nível da ética”, explica Ana. “Se ao menos houvesse alguém que nos dissesse ‘eu faço isto por vocês’, talvez aí ele pensasse mais na hipótese.”

Esta hipótese, no caso de Ana, é ainda mais complexa. É que além de não ter útero, também lhe foram tirados os ovários aos 19 anos por terem muitos quistos com possibilidade de degenerar em cancro.

A solução aqui passaria por utilizar ovócitos de uma dadora, juntamente com o sémen do seu marido e pedir a uma gestante para suportar a gravidez. É complicado, mas não é impossível. E por isso, mas também por tantas outras mulheres que conhece, ficou feliz com a aprovação do projeto de lei do Bloco de Esquerda.

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