Há uns anos, Francisco Silva Passos e a mulher Isabel andavam na Assembleia da República a ver uma exposição sobre o arquiteto Miguel Ventura Terra quando tiveram uma pequena surpresa. A visita ao Palácio de São Bento não tinha nada de surpreendente: Francisco é um apaixonado pela Lisboa desaparecida, por arquitetura em geral e por Ventura Terra em particular. A casa em que Francisco e Isabel moram há décadas foi desenhada por este arquiteto, que nasceu há precisamente 150 anos. Depois de tanto tempo passado entre aquelas paredes, o casal já não esperava ver algo inédito. Mas,numa das últimas salas da exposição, Francisco e Isabel são surpreendidos: “Às duas por três vemos uma fotografia dele na nossa varanda”. Ele, Ventura Terra, na varanda da casa que construiu no número 57 da Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, no início do século XX. Ele, Ventura Terra, na varanda da casa que Francisco habita desde os três anos e onde criou filhos e netos.

No extenso e alto corredor do apartamento onde mora a família Silva Passos ainda cheira a Belle Époque e às soirées que há tanto já passaram de moda. “Havia três vivendas na rua” quando Francisco veio para aqui viver, em 1947, ainda criança. Quem olha hoje pela janela da casa para uma Alexandre Herculano onde o tráfego não abranda e os edifícios altos e envidraçados são a regra, dificilmente consegue imaginar esse cenário. “Havia muito pouco trânsito. Automóveis eram para gente rica”, continua a recordar Francisco, que muito brincou naqueles passeios, quando a rua estava quase na fronteira da cidade. Nem de propósito. Enquanto relata estas memórias, ouve-se um estrondo lá em baixo. Dois carros acabaram de bater.

A ideia de isolamento também se sente dentro do edifício, de quatro andares, uma casa por piso. Ao entrar em cada apartamento, foge-se do bulício da cidade e é-se recebido por uma espaçosa sala de estar, onde o sol ilumina os estuques do teto. Ao lado, na biblioteca, uma imponente lareira em mármore do tamanho de um homem garante aconchego nas noites de inverno. Na sala de jantar, tetos de rica madeira trabalhada. Ao fundo do corredor, escondidos atrás de uma porta discreta, os inúmeros quartos de dormir. Tudo aqui respira passado…

“Vi jeitos de isto tudo desaparecer”

…mas foi com custo que chegou ao presente. “Tudo quanto aqui vê é dinheiro que eu invisto”, dispara Maria Fernanda Carvalho, moradora noutro dos apartamentos do prédio. Por todo o lado se veem manchas de humidade e madeiras degradadas. No hall de entrada do edifício, a tinta está toda a estalar devido a infiltrações. No teto das escadas, entre o terceiro e o quarto andar, um buraco está por ser tapado há vários anos. Num dos apartamentos, a moradora tem de dormir com um buraco no telhado mesmo por cima da cama. E cá fora já desapareceram muitos azulejos do friso criado pela Fábrica de Cerâmica das Devesas, em Gaia. “A gente tem de passar aqui a vida a fazer obras”, confirma Francisco Silva Passos, cujo andar está em bom estado devido aos muitos investimentos que ali fez.

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A Casa Ventura Terra, assim conhecida por ter sido desenhada pelo arquiteto para habitação própria em 1902, foi o segundo edifício em Lisboa a receber o Prémio Valmor. Trata-se de um galardão, outrora muito prestigiado, destinado a premiar a melhor construção feita na capital num determinado ano. Ventura Terra recebeu-o quatro vezes e ainda teve uma menção honrosa. Há uma placa na fachada da casa a lembrá-lo. Há também outra placa que não engana:

Esta casa foi legada às escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto pelo distinto arquitecto Miguel Ventura Terra, que nela faleceu em 30 de Abril de 1919, destinando o seu rendimento líquido para pensões a estudantes pobres das escolas que mostrem decidida vocação para as belas artes.”

Isto não impediu que, durante muitos anos, os moradores vivessem confusos. Apesar de sempre terem pago a renda à entidade que é hoje a Faculdade de Belas Artes, o edifício passou por várias mãos dentro do Estado. Talvez por isso, foi votado a um relativo esquecimento até há pouco tempo. Na segunda-feira passada começaram obras que já não aconteciam desde 1995. Há cerca de dois meses, o reitor da Universidade de Lisboa visitou o prédio, que agora é da responsabilidade daquela instituição. António Manuel da Cruz Serra terá ficado impressionado com o estado do edifício e decidiu avançar com os trabalhos. Segundo uma fonte da reitoria, estas obras visam substituir a cobertura e fazer manutenção básica, tanto no exterior, como no interior das habitações.

“As persianas estão um desastre, as janelas não podem ser alteradas, as madeiras estão degradadas…” Francisco Silva Passos deixa a frase por acabar e encolhe os ombros. Lembra-se bem do dia, algures nos anos 80 ou 90, em que começou a construção da sede da companhia de seguros Império, mesmo ao lado da Casa Ventura Terra. Literalmente ao lado: os vitrais que antigamente deixavam entrar a luz do sol para as escadas estão hoje tapados por betão. Quando começaram as escavações para os nove pisos subterrâneos do edifício da Império, as fundações da Ventura Terra ficaram “penduradas”. E a casa inclinou. “As paredes aqui começaram todas a estalar. Os azulejos da minha cozinha saltavam poc, poc, poc. Eu vi jeitos de isto tudo desaparecer”, diz Francisco.

Maria Fernanda Carvalho tem uma história semelhante. “Fui em serviço quinze dias para Paris e quando cheguei tive um susto. Tinha um estendal à minha porta.” Eram os bombeiros e a polícia: a Casa Ventura Terra tinha rachado. Maria Fernanda ficou com “uma cratera no meio da cozinha” e durante mais de um ano esteve impedida de entrar em três divisões da casa.

Um elevador a água e outros segredos

Para lá do que escondiam as portas de cada apartamento, a Casa Ventura Terra tinha outros pormenores que testemunham a época em que foi construída e que se mantiveram até muito tarde, quando Lisboa já se estava a virar para as Avenidas Novas e a dar resposta de habitação a uma classe média pouco interessada em relíquias. Por exemplo, até aos anos 70, o elevador do edifício era movido por um sistema a água. Era ao porteiro, então regra em todas as casas de bem — e que tinha uma divisão própria para dormir logo ao lado do hall de entrada — que competia mexer com o elevador. Puxava uma corda, a água entrava para um depósito que servia de contrapeso e a cabine subia. Para descer, deixava-se a água escorrer por um cano.

Outra coisa que existia originalmente, e que o tempo tornou obsoleto, eram compartimentos para arrumação de carvão e lenha, que alimentavam o sistema de aquecimento de cada casa. Os moradores mais antigos do prédio ainda falam com um certo brilho nos olhos dos carvoeiros, da leiteira que passava religiosamente todas as manhãs, do padeiro que trazia o pão ainda quente para o pequeno-almoço, do merceeiro que subia as escadas com um cesto de verga às costas, das dezenas de carroças que paravam do outro lado da rua para deixar as frutas e hortaliças no Mercado do Rato.

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Retrato de Miguel Ventura Terra, de Veloso Salgado, existente na Sala dos Passos Perdidos, em São Bento. (Fonte: Wikimedia Commons)

“Modernidade que rompe com o reinante”

O nome de Miguel Ventura Terra pode não ser conhecido para a generalidade das pessoas, mas a obra deste arquiteto multifacetado está presente um pouco por todo o país. Além desta casa, na Rua Alexandre Herculano há mais um edifício emblemático com a sua assinatura, também vencedor do Prémio Valmor (1911). Mas uma lista não exaustiva da sua obra inclui ainda, em Lisboa, os projetos dos liceus Camões, Pedro Nunes e Maria Amália, a Casa dos Viscondes de Valmor (na Avenida da República, Prémio Valmor em 1906), o Palacete Mendonça (na Rua Marquês de Fronteira, Prémio Valmor em 1909 e comprada recentemente pela Fundação Aga Khan), a sede do atual Santander Totta (na Rua do Ouro), a Maternidade Alfredo da Costa (Avenida 5 de Outubro), o já desaparecido Hotel Aviz (onde hoje é o Sheraton) e a sinagoga. Além disso, foi responsável pela renovação do Palácio de São Bento, pelo Santuário de Santa Luzia (Viana do Castelo), pelo edifício do Banco de Portugal no Porto e pelo Museu de Esposende, entre outras obras no mesmo concelho.

Nascido no Minho em 1866 — há 150 anos –, Ventura Terra começou a formação académica no Porto e foi um dos vários arquitetos portugueses da época que estudou em Paris. Na altura, a capital francesa estava na vanguarda da arquitetura europeia e mostrava ao mundo novas formas de usar os materiais e os estilos. Os grandes edifícios em vidro e ferro surgiram nesta altura, mas a utilização de elementos góticos, renascentistas, bizantinos, árabes e barrocos também eram sinal de modernidade.

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À data da construção, a casa da Alexandre Herculano foi considerada inovadora no panorama dos edifícios de habitação então existentes em Lisboa e no país. O júri do Prémio Valmor sublinhou isso mesmo, ao elogiar a “corretíssima composição de linhas e original efeito decorativo” e “uma certa modernidade ao estilo arte nova que rompe com o estilo reinante”.

Porém, estes elogios, e o facto de a casa ser Imóvel de Interesse Público desde 2006, de pouco têm valido. “Os inquilinos é que se preocuparam em salvar o prédio. As cartas infindas que eu escrevi para o diretor da faculdade… A resposta era sempre a mesma: ‘não há dinheiro'”, lembra Maria Fernanda Carvalho, que não compreende como é que uma joia arquitetónica como esta só agora é que está finalmente a ter as obras de que precisava tão urgentemente. “Como é possível deixarem chegar isto a este estado?”

Historietas do passado, anseios do futuro

Atualmente, a Casa Ventura Terra está completamente ocupada. Três apartamentos são usados para habitação e parte do último andar é a sede da Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores, aqui instalada há mais de vinte anos. Há ainda um andar, onde não mora ninguém, que é usado como depósito da Faculdade de Belas Artes. Várias histórias rodeiam este apartamento. Uma delas é contada pelos inquilinos. Há muito tempo, quando a faculdade ainda tinha a valência de arquitetura, este apartamento foi usado como escola de AutoCAD, o software com que os arquitetos trabalham. Francisco, Isabel e Fernanda não têm saudades nenhumas desses tempos porque “havia sempre gente a subir e a descer” e descanso, dizem, era coisa praticamente inexistente. Noutra altura, embora por ali ninguém confirme nem queira falar sobre isso, consta que a mesma casa foi usada ilegalmente por uma pessoa que acabara de se divorciar e não tinha onde dormir.

Indiferente a estas historietas, Francisco Silva Passos entusiasma-se a falar da própria história pessoal e volta uma vez mais ao baú das memórias para justificar tão grande amor pela casa que, durante tanto tempo, toda a gente parecia ter esquecido. “Isto era completamente diferente. Tinha árvores, tinha elétricos…” E este relato não é de um passado assim tão distante. As filhas de Silva Passos nasceram no fim dos anos 60 e muito tempo ali viveram com uma qualidade de vida impossível de encontrar hoje em Lisboa. “Cada uma tinha a sua bicicletita e andavam por aí. A mais velha, com nove anos, já apanhava o 27 e ia para a escola.” Suspiros, encolheres de ombros, anseios pelo futuro. “Quando eu me for daqui, quem é que quer isto?”