Os destinos de Jaime Parodi Bardón, de 35 anos, e de Manuel Azevedo Coutinho, de 30, cruzaram-se em Portugal. Mais concretamente num curso de empreendedorismo do Lisbon MBA, em 2015. Antes disso, o empreendedor espanhol, formado em engenharia informática, já tinha trabalhado em várias empresas e cofundado outras duas. Mas viajou para Portugal na mesma. Queria “adquirir novas ferramentas”.

Durante o mestrado em administração de empresas (criado em parceria pela Universidade Católica Portuguesa e pela Universidade Nova), Jaime Bardón estagiou na Gleam, uma empresa de comércio eletrónico. Foi aí que deparou com um problema que lhe viria a trocar as voltas: a quantidade de projetos que era preciso avaliar consumia demasiado tempo e recursos à empresa.

“Na empresa em que o Jaime trabalhava recebiam muitos projetos, que tinham de ser avaliados. Era difícil alocar recursos para a avaliação das ideias que apareciam”, explica Manuel Coutinho, que, à data, não sabia que acabaria a criar uma empresa com Jaime Bardón. “Surgiu-lhe então a ideia de fazer uma plataforma que selecionasse mais automaticamente” projetos e ideias na área do empreendedorismo, acrescenta.

A semente já lá estava, o resto estava para vir. Jaime Bardón convidou Manuel Coutinho, colega no MBA, para fazer parte do projeto e a Viable começou a ganhar forma. “Não queria estar envolvido neste mundo apenas como criador de conteúdos ou como criativo. Queria criar algo por mim mesmo”, explica o português, que, quando regressou de Londres — onde estudara Design de Comunicação — já tinha trabalhado na área e fundado a Tone Toys, que diz ser “a primeira e única empresa portuguesa de pedais de efeitos para guitarras”.

A Jaime Bardón e a Manuel Coutinho, juntou-se José Alonso. Esta segunda-feira lançam o primeiro protótipo: o Viable Report, “uma ferramenta virtual que permite aos empreendedores verificarem a viabilidade das ideias e, numa fase secundária, encontrarem ligações a outros stakeholders, que ajudarão a levar essas ideias para o mercado”, como explicam os responsáveis na rede digital F6S.

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Os três fundadores da Viable: Jaime Parodi Bardón (à esquerda), Manuel Azevedo Coutinho (ao centro) e José Alonso (à direita)

Incubada na Fábrica de Startups, a Viable nasce para poupar tempo às incubadoras, aceleradoras e competidoras que procuram projetos interessantes.

O Viable Report é um ponto de ligação entre empreendedores e programas de incubação, aceleração e competição. Destina-se a qualquer empreendedor que queira entrar num destes programas. Por outro lado, também damos oportunidade às incubadoras e aceleradoras de fazerem scouting [prospeção] de ideias”, resume Manuel Coutinho.

Como funciona? A ferramenta avalia projetos e ideias de empreendedores de forma automatizada, a partir de tecnologia de analytics. Os critérios de análise podem ser definidos pelas incubadoras ou aceleradoras (numa segunda fase, a ideia é alargar a ferramenta a investidores e stakeholders). Selecionados os critérios, a ferramenta avalia a informação dada por cada empreendedor, produzindo um relatório com um parecer sobre a viabilidade dos projetos.

O parecer será um de três: aprovação, rejeição ou recomendação de revisão. No último caso, a plataforma ajuda os empreendedores com “aconselhamento adequado” – para que a ideia se aproxime mais do que os avaliadores procuram. Além disso, os responsáveis querem estar ligados a várias entidades do ecossistema português, para circular informação que possa revelar-se útil. “Uma ideia que não resulte na Startup Lisboa pode ainda assim ser interessante para a Beta-i”, explica Manuel Coutinho, a título de exemplo.

Por um ecossistema empreendedor “mais eficiente”

A Viable partiu da vontade de beneficiar dois grandes polos do ecossistema, segundo os responsáveis: o polo dos empreendedores, que ganham um acesso mais facilitado a quem pode apoiar os seus projetos; e o das entidades que têm de avaliá-los, que poderão poupar tempo e recursos num processo de análise que passa a estar automatizado.

A ideia é que ninguém perca oportunidades: nem os empreendedores de verem o seu projeto apoiado, nem os avaliadores de verem um projeto interessante escapar-se-lhes, por falta de tempo para o avaliar. “Queremos que o ecossistema esteja mais ligado, que consiga partilhar mais informação entre si, para que nenhuma ideia perca a oportunidade de se materializar”, diz Manuel Coutinho.

Achamos que esta é uma forma mais eficiente de avaliar novos projetos e novas ideias do que a que existe hoje. Achamos que o processo pode e deve ser automatizado, permitindo as pessoas se foquem antes nas componentes mais estratégicas [do seu negócio]. O objetivo é aumentar a eficiência do ecossistema no seu conjunto”, acrescenta ainda.

Quanto ao futuro, os responsáveis — que terminaram agora o Beta-Start, um programa de pré-aceleração para empreendedores da Beta-i [uma aceleradora nacional] — afirmam estar concentrados na fase de ultimação do produto, para mais tarde se dedicarem a “procurar investimento, para o poder escalar”.

Por ora, estão a fazer contactos com eventuais parceiros, como a Beta-i e a incubadora Startup Lisboa, por exemplo. E Jaime Parodi Bardón — que diz que está neste projeto a full-time, ainda que mantenha outras empresas em Espanha — diz mesmo que tem havido “um bom feedback por parte de algumas incubadoras” com que têm contactado. A ambição, essa, “é de chegar ao mercado internacional”.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.