Quando D. Manuel Gonçalves Cerejeira, cardeal patriarca de Lisboa entre 1929 e 1972, viu o Cristo Redentor do Rio de Janeiro (Brasil) pela primeira vez quis ter na capital portuguesa uma estátua suficientemente imponente a olhar pelo país. Apenas dois anos após a visita às terras de Vera Cruz, o patriarca dirigiu-se ao Apostolado da Oração para transmitir esse anseio. Estávamos em 1936. No ano seguinte, todos os bispos tinham aprovado a construção do “monumento da Paz”, como lhe chamavam os altos cargos da Igreja Católica em Portugal por o país ter sido ‘poupado’ e ficado neutral na II Guerra Mundial.

Havia bons motivos para depositar as esperanças de uma maior tranquilidade em Portugal no Cristo Rei. Bastava olhar para o passado recente. As consequências da I Guerra Mundial, que tinha terminado havia menos de vinte anos, ainda se faziam sentir: os países ainda estavam a reerguer a sua estrutura económica, a lidar com crises de superprodução e a pagar dívidas aos países fornecedores de armas. Em 1929, os Estados Unidos tinham arrastado o mundo para uma recessão económica abismal que havia de durar toda a década seguinte. Havia desemprego, havia pobreza e, portanto, muita revolta.

Nasceram os movimentos radicais um pouco por toda a Europa, nomeadamente na Rússia, na Alemanha e mesmo aqui ao lado em Espanha. Por cá, a poeira do golpe de 28 de maio de 1926 ainda não tinha assentado e o descontentamento social atravessava vários estratos sociais em Portugal. Os ânimos só acalmaram quando Óscar Carmona venceu as eleições presidenciais de 1928 e quando Oliveira Salazar assumiu a pasta das Finanças. Cinco anos depois, Salazar tornou-se chefe de Governo e nasceu o Estado Novo, com vida longa até 1968. E tudo o que se sabe.

Foi nesta aparente calma em relação aos países europeus que a Igreja encontrou um dos argumentos para a construção do Cristo Rei: Portugal tinha de estar grato pelo clima de paz e “progresso espiritual” em que supostamente vivíamos (o resto não contava) e a estátua gigante de Jesus Cristo era um tributo ao filho de Deus. Além disso, no mesmo ano em que foi anunciada oficialmente a ideia construção da estátua, a irmã Lúcia, um dos três videntes de Fátima, desvendou um dos segredos que a Virgem lhe terá transmitido em 1917:

Nossa Senhora afirmou que era essencial o sacrifício pelos pecadores e entre várias profecias, acrescentou que a Rússia haveria de espalhar os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, algo que estava a ser cumprido, pois para além do governo comunista deste país de leste da Europa, também o México era governado pela mesma ideologia.

Entretanto iniciou-se a II Guerra Mundial. Apenas um ano depois do início do conflito, os bispos nacionais reuniram-se em Fátima para um retiro e tornaram pública uma promessa da Igreja:

Se Portugal fosse poupado da Guerra, erguer-se-ia sobre Lisboa um Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, sinal visível de como Deus, através do Amor, deseja conquistar para Si toda a humanidade.

O país assumiu uma posição de neutralidade e a Igreja começou a reunir fundos para investir na construção: devagar, porque o contexto de guerra o exigia, foi adquirido o terreno para a construção em 1941.

Cinco ano depois, o Episcopado reassumiu a promessa e a campanha de angariação de fundos começou a dar cada vez mais frutos. O Cristo Rei foi então desenhado pelo Mestre Francisco Franco. A 18 de dezembro de 1949 foi depositada a primeira pedra e três anos depois a Obras Públicas e Cimento Armado começou a construir os alicerces. Dez anos e 40 mil toneladas de betão depois, o Cristo Rei começou a abraçar Lisboa: foi a 17 de maio de 1959, dia de Pentecostes. A estátua foi inaugurada perante a imagem de Nossa Senhora de Fátima, perante os cardeais do Rio de Janeiro e de Maputo, e na presença de 300 mil civis. O Papa João XXIII participou através de uma rádio-mensagem. E o Cardeal Cerejeira sublinhou então: “Este será sempre um sinal de gratidão nacional pelo dom da Paz”.

Passados 57 anos, recordamos a construção e a inauguração do Santuário Nacional de Cristo Rei com as imagens da Câmara Municipal de Almada. Há 46 fotografias para ver. Entre na fotogaleria.