Aos 31 anos, André Coroa é administrador de um grupo empresarial com um crescimento notável. Tudo começou com a empresa-mãe, a D’Accord, vocacionada para o recrutamento e seleção de recursos humanos – principalmente no campo do trabalho temporário. Fundada em 2010, o negócio não podia correr melhor: este ano prevê faturar 6 milhões de euros.

“Anualmente, trabalhamos com mais de 1000 pessoas, muitas delas com contratos recorrentes”, explica André. É a partir de Portugal que a empresa recruta e seleciona os melhores trabalhadores para os mais de 70 clientes no mercado francês.

Entre a sede portuguesa e a sucursal em França (uma aposta de 2015), o grupo tem consolidado a carteira de clientes e uma bolsa de trabalhadores especializados (95% para a construção civil e 5% para o setor hoteleiro). “Damos resposta à sazonalidade. Os clientes precisam de mão-de-obra qualificada e nós conseguimos providenciá-la, com todo o apoio que os trabalhadores precisam”, refere o empresário. E este é um ponto importante, “quando estão a mais de 2.000 km de distância” e cabe ao empregador garantir a assistência necessária.

Começar no estrangeiro e, só depois, apostar em Portugal

Há seis anos, André Coroa agarrou uma oportunidade única. “Estava a trabalhar numa empresa e um cliente estrangeiro procurava mão-de-obra especializada para França. Como não obteve resposta, eu ofereci-me para ajudar”, recorda. Foi o início de uma parceria de sucesso. Esse potencial cliente ficou satisfeito com os resultados da recém-criada empresa de trabalho temporário. Os trabalhadores, também.

Com o “passa a palavra”, mais clientes começaram a surgir e o projeto foi crescendo. A partir da Trofa, cidade onde ainda reside, André tinha lançado as bases da D’Accord – e a escolha do nome não foi em vão. A ligação ao mercado francês continua a representar 80% do volume de negócio da empresa.

A evolução foi rápida, mas consistente. “Fizemos um percurso contrário à maioria das PME, com a internacionalização a priori. A lógica foi e continua a ser consolidar os clientes que ganhámos e só depois procurar novos mercados, de forma a irmos diluindo os custos”, conta André Coroa.

Em 2012, por uma questão de centralidade, abriram a nova sede na Maia. Um ano depois, entravam no mercado português, mas sempre com os olhos postos em França. “Somos uma empresa de proximidade, com um serviço à distância de qualidade. Assim, à medida das necessidades, fui criando negócios complementares”, explica o empresário.

Associadas à D’Accord, surgiram uma empresa de marketing e comunicação (responsável pela gestão de imagem e pelo rebranding deste ano) e uma rent a car (em 2014). Segundo André, esta última permitiu evitar “comprar fora”. “Como fazemos o transporte trabalho-casa-trabalho e o repatriamento dos colaboradores, foi uma forma de garantirmos as deslocações. Muitos parceiros não davam resposta e aqui não se pode correr riscos”, diz.

Combater a desconfiança e superar expectativas

“A criação da empresa foi difícil a toda a linha, principalmente com a crise que atravessámos”, desabafa o empresário. Tinha 25 anos quando formou a empresa e enfrentou alguns preconceitos: “Ah, tão jovem e a contratar. Muitos receios e pouca credibilidade no mercado ainda, claro. Cheguei a ter um gestor de conta que dizia ‘financiamento? Só a partir dos 30 [anos]!”.

O trabalho à distância acabou por trazer algumas vantagens. Só conheceu alguns dos clientes franceses após a conclusão de um bom trabalho, valendo a boa reputação que ia construindo e não a sua juventude. O meio de recrutamento dos trabalhadores, embora pequeno, também ajudou: “As pessoas davam boas referências, porque corria tudo bem e voltavam a Portugal com a ideia de continuar a ir para França connosco”.

Mas o principal desafio foi mesmo com os números e as poucas expectativas de outros. Nunca esperou ter um negócio desta dimensão, mas o primeiro contabilista tinha perspetivas bem baixas. Segundo André: “No primeiro ano, apontámos para a faturação mais baixa [75 mil] e chegámos aos 500 mil euros. No primeiro semestre do ano seguinte, já tínhamos alcançado os 800 mil euros. O contabilista dizia que não devíamos crescer mais, que era melhor gerir… Bem, já não trabalho com esse contabilista.”

Neste momento, a empresa já fatura vários milhões de euros anualmente, mas o crescimento não é a prioridade imediata dos primeiros tempos. “Não me interessa ganhar novos contratos e não os cumprir. Se somos conhecidos pelos bons serviços e pelo respeito com os trabalhadores, não vamos abandonar isso só para ganhar mais e, depois, perder o que nos distingue dos outros”, resume o administrador. “Queremos consolidar o projeto em França e tratar da organização interna da empresa. O principal é ter um bom fluxo de comunicação entre os escritórios”, diz.

É esta visão de André Coroa que tem garantido o sucesso de um negócio em que a concorrência é, “muitas vezes, ingrata”. Este cuidado com trabalhadores, clientes e todas as etapas é a marca de alguém foi criando o próprio caminho. “Sempre tive a ambição de ser empresário, mas ia lançar uma empresa em quê? Não sabia, mas quando surgiu a oportunidade agarrei-a e tenho lutado por ela”, explica André. O mais “caricato” acaba por ser o processo formativo do empresário: “Não tenho formação superior e só me falta uma disciplina para terminar o ensino secundário. Fui adiando, mas este ano vou terminá-la. Anos depois de ter aberto um negócio em França e de falar com clientes de lá todos os dias, ainda me falta acabar Francês.”