Os líderes europeus devem aceitar que a Grécia só comece a pagar capital e juros aos fundos de socorro a partir de 2040. O The Wall Street Journal teve acesso à proposta que contém as exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI) para acabar com o impasse em Atenas e manter a instituição liderada por Christine Lagarde a bordo do terceiro resgate à Grécia. As exigências do FMI vão muito além daquilo que os credores europeus, com a Alemanha à cabeça, têm admitido.

Já se sabia que eram “enormes” as divergências entre o FMI e os representantes dos governos europeus. Mas, a menos de uma semana da reunião do Eurogrupo que será decisiva (dia 24), o The Wall Street Journal adianta os contornos da proposta do FMI para aliviar o fardo da dívida pública grega, que foi apresentada aos envolvidos no final da semana passada.

A medida principal que levaria ao alívio da dívida grega seria, mantendo os montantes nominais devidos, adiar quaisquer pagamentos de capital ou juros até 2040. Nos cálculos do FMI, se isso acontecesse, a Grécia poderia pagar a dívida em questão (aos fundos europeus) até 2080.

A dívida ao FMI (associada ao segundo resgate) ficaria incólume, já que o FMI não aceita alterar os termos dos empréstimos que concede.

Além deste período de graça, o FMI quer que a taxa de juro dos empréstimos à Grécia seja fixada numa média de 1,5% nos próximos 30 a 40 anos, aconteça o que acontecer às taxas de juro no mercado mundial.

Para os fundos europeus, mesmo não se mexendo no valor nominal dos empréstimos, a extensão dos prazos e do período de graça levaria a uma perda de valor real. O mesmo pode acontecer se os juros forem fixados em 1,5%.

Esta é a proposta do FMI que, segundo um WikiLeak explosivo divulgado em abril, chegou a admitir fazer a Grécia aproximar-se do incumprimento (há mais de dois mil milhões de euros a pagar ao BCE em julho) para forçar a Alemanha e outros credores europeus a cederem — e levar, também, a que Alexis Tsipras se comprometa com as reformas idealizadas pelo FMI.

As equipas técnicas estão a negociar em antecipação à reunião dos ministros das Finanças do Eurogrupo no próximo dia 24. Segundo o The Wall Street Journal, os responsáveis alemães estão confiantes de que o FMI acabará por suavizar as suas posições e admitir termos menos penalizadores para os fundos europeus. O FMI não participou no primeiro resgate à Grécia — esse foi feito através de empréstimos bilaterais na União Europeia — mas participou no segundo resgate, em 2012. Para participar no terceiro resgate (financeiramente), o FMI exige que os fundos europeus aceitem perdas reais na dívida da Grécia.