Não parecem assim tão poucas, mas são ínfimas até. A probabilidade de encontrar alguém com dois olhos verdes na cara, verdes a sério, é muito pequena — anda à volta dos 2%. Se não pensássemos nisto, poderíamos não dar conta que era tarefa difícil. Mas é. Tão difícil quanto é encontrar jogadores que já tenham chegado a uma final. Não a uma qualquer, mas à decisão de um Mundial, de um Europeu, de uma Liga dos Campeões ou de uma Liga Europa. A verdade dos factos, porém, é que a percentagem de pessoas que jogam à bola de verdade e que já tenham estado numa final também é muito pequena. Nem chega aos 2%, talvez. Mas, dentro dessa percentagem, são raríssimos os casos que tenham estado, e ganhado, várias decisões. É como baralhar, voltar a dar as cartas e a sorte insistir sempre na mesma.

Por muito que baralhe, mexa ou chocalhe, a sorte que Daniel Carriço recebe é sempre igual. Ele não se queixa, sabe que “melhor, só a Champions”, como nos disse há um ano, dias depois de, pelo segundo ano consecutivo, ir à final da Liga Europa e ganhá-la. Se na altura parecia sina, agora parece uma patologia que não o larga. O homem que tanto joga a médio como a trinco vai disputar a terceira final seguida da competição e, em termos de probabilidades, ganha à questão dos olhos verdes — que falem português, apenas ele e mais outros dois se podem gabar deste feito.

Do avião que aterrou na terça-feira em Basileia, onde se jogará a final, desembarcaram Beto e Diogo Figueiras, que também conquistaram as duas anteriores edições da competição com o Sevilha. É obra, sobretudo para quem tem luvas nas mãos. Beto já vencera uma Liga Europa em 2011, com o FC Porto. O guarda-redes vai, portanto, atrás da quarta medalha na prova. Só que, mesmo com uma vitória do Sevilha (joga a partir das 19h45 contra o Liverpool), beto poderá não ficar com uma pendurada ao pescoço: não tem qualquer minuto de jogo feito na competição, algo obrigatório para ser considerado vencedor.

Minutos é o que Daniel Carriço tem de sobra. Desde 17 de setembro de 2009, quando um hat-trick de Liedson fez o Sporting ganhar em Heerenveen, que já somou milhares deles. O português é o recordista de jogos (53) na competição e por isso é o Senhor Liga Europa. Mas não é apenas por isso que a competição já adquiriu, há muito, a nacionalidade portuguesa. E aqui começa uma espécie de epopeia dos Descobrimentos pelos números.

Existem os óbvios, como o três. Três anos seguidos com clubes portugueses na final (FC Porto e Braga em 2011, Benfica em 2013 e 2014). Ou o quatro. Quatro épocas consecutivas em que houve pegada nacional nas meias-finais (o Sporting lá chega em 2012). É só o mergulho ir mais fundo nas estatísticas para as águas ficarem mais portuguesas. Há o segundo e o terceiro jogador com mais presenças na prova, que são Óscar Cardozo (44) e Matías Fernández (43), que foram buscar a maior parte das partidas na competição ao Benfica e ao Sporting. Há o primeiro e o segundo na lista de marcadores, que são Radamel Falcao e outra vez Cardozo, que muitos golos fizeram no FC Porto e no Benfica.

Se acha este fartote já um pouco rebuscado, fique a saber que há números que não enganam mesmo na relação de Portugal com a Liga Europa. Foi mais fácil encontrá-los do que achar alguém com olhos verdes.

Três

O Sporting gosta de mãos cheias

Não é o único, mas o clube de Alvalade surge em primeiro lugar nas estatísticas da UEFA que contabilizam as vezes em que as equipas marcaram cinco ou mais golos num jogo. Os leões já o fizeram por três vezes.

Seis

Jogos longe de casa é com o FC Porto

Os portistas são o clube com a melhor série de sempre de vitórias em jogos fora de casa. Apenas o Atlético de Madrid lhes faz companhia.

Dez

É muito cartão vermelho

Os leões voltam a surgir no topo da lista quando se chega à parte das expulsões. Não há clube que, em sete épocas de Liga Europa, tenha visto mais jogadores a irem para a rua.

Vinte

Lisboa já teve duas fortalezas

O Sporting é o clube que mais partidas seguidas realizou sem ser derrotado no próprio campo. Logo a seguir aparece o Benfica, com 18 jogos. Tanto um como o outro estiveram mais de cinco anos sem perderem um jogo em casa, para a Liga Europa.

Vinte e seis

As equipas portuguesas que já participaram na Liga Europa

Não são 26 equipas diferentes, mas a verdade é que, tudo somado, ninguém levou mais vezes clubes à Liga Europa que Portugal — apenas a Itália tem o mesmo número. Nas sete temporadas que a competição já conta, nenhum país teve mais equipas, por ano, a participarem na prova. Sim senhor.

Trinta e dois

A relação entre o Benfica e os jogos a eliminar

Não há equipa com mais encontros feitos a partir dos 16 avos de final da competição. O perseguidor mais próximo dos encarnados é o clube que se arrisca a vencer a Liga Europa pela terceira vez consecutiva e, mesmo assim, apenas conta 28 partidas feitas nas fases a eliminar.

Trinta e sete

Foi uma catrefada de golos para o FC Porto

Os dragões ainda são a equipa que mais bolas rematou para dentro da baliza numa edição da Liga Europa. Aconteceu em 2010/11, época em que André Villas-Boas arranjou forma de por Falcao, Hulk, Varela, Moutinho e James a golearem quase todos os adversários que lhes apareciam à frente.

Quarenta e seis

É a conta que Jorge Jesus tem

O homem que manda no Sporting é o terceiro treinador com mais jogos feitos da Liga Europa. À frente apenas tem um senhor de nome esquisito, chamado Myron Markevych, que já fez 48 entre o Mettalist Kharkiv e o Dnipro, e outro conhecido por Unai Emery, que manda na competição com o Sevilha, mas que também fez muitas partidas com o Valência.