Ainda a tarde vai a meio e Zola já se prepara para cozer uma mão cheia de cabeças de camarão. Vão servir para fazer o molho picante da receita que mais sucesso tem feito na Afro Tas’Ka, uma pequena petiscaria da Bica, em Lisboa, que ganhou prefixo (Afro) e conceito novos (petiscos africanos) desde março. A simpática cozinheira, natural de São Tomé, não lhes empresta apenas a sabedoria, também lhes dá o nome: são os camarões da Zola (9€). “Trabalhava neste espaço antes, mas fazia apenas comida portuguesa. Como ia cozinhar nas noites de kizomba do Clube Ferroviário, o Mikas convidou-me para começar a fazer petiscos africanos aqui”, vai explicando, sempre de olho na panela que ameaça levantar fervura.

O Mikas de que Zola fala é um velho conhecido de muitos, responsável por alguns espaços que ficaram na história recente da boa-vai-ela lisboeta como o Terraço, o Bicaense, o Clube Ferroviário, o Bar da Velha Senhora ou, mais recentemente, A Tabacaria, no Cais do Sodré (a que o Observador dedicou este artigo). O anfitrião da casa tem, contudo, outra identidade. É César, que já tinha ajudado o amigo Mikas no lançamento de outro dos seus projetos antigos, o Bar das Imagens, há cerca de vinte anos, e que voltou agora para dar as boas-vindas a todos quantos queiram conhecer a cozinha africana que sai das mãos de Zola.

camarõeszola1

Os famoso camarões da Zola, com o devido molho picante com o segredo da cozinheira.
(foto: © Divulgação)

E há muito para conhecer, de vários pontos do continente. Dos badjias (4,50€) e caris moçambicanos, de caranguejo (10€), frango (8€) ou legumes (7,50€), á kizaca (7€) angolana, sem esquecer o que vem da terra de Zola, como o molho de búzios com banana pão (7,50€). Entre outros pratos. “E daqui a uns tempos vamos ter alguns diferentes”, avisa a cozinheira, que até já tem umas ideias do que irá passar a fazer. Mas sem revelar grande coisa, que o segredo não está só no molho dos camarões.

Às sextas-feiras serve-se sempre uma receita mais substancial, que tanto pode ser muamba, com óleo de palma ou amendoim, como cachupa rica, com três tipos de feijão e muitos enchidos, ou até vir de paragens menos exploradas e conhecidas por estas bandas — o prato senegalês mafé foi a estrela de uma das últimas sextas.

Terá Zola mão para tudo isto? “Sim, esta é a comida do meu conhecimento. Comecei muito nova a cozinhar, tinha uns 14 anos”, conta. A são-tomense recorda que quando chegou a Portugal, em 1999, podia ser tarefa impossível arranjar determinados produtos para fazer pratos africanos a sério, um problema que já não se põe nos dias de hoje. “A banana-pão, por exemplo, nessa altura custava uns 3€ o quilo, hoje compra-se a 1€ e tal. E conseguem arranjar-se os feijões para a cachupa, o feijão congo ou o feijão pedra, que antes era bem mais difícil.”

AFRO TASKA TP2

Os padrões das paredes não enganam, e as almofadas das cadeiras muito menos. Aqui não se come apenas, também se respira África. (foto: © Tiago Pais / Observador)

A prova de que Zola domina completamente a cozinha — “sou eu que faço tudo, do princípio ao fim”, faz questão de dizer — é o facto de até as sobremesas ficarem a seu cargo. Vão rodando: ora se adoça a boca com bolo de mandioca, ora é a mousse de jaca a fazer o jeitinho. Disse jaca? Disse pois, Zola elucida: “É uma adaptação da receita da mousse de manga ou de maracujá, o truque é deixar sentir o grão da jaca.” Daqui a uns tempos talvez seja possível provar receitas de outras pessoas: está nos planos dos responsáveis começar a abrir a cozinha aos domingos para convidados. A ideia é que tragam os amigos e se crie um ambiente de festa, com comida, bebida e música.

E por falar em bebida: no que a esta diz respeito fica-se nas mãos de César. As suas caipirinhas de grogue, a aguardente de cana de açúar produzida em Cabo Verde, são muito recomendáveis, tanto na versão tradicional como na de maracujá. “Uso o grogue mais escuro, que é mais perfumado, para as fazer”, revela. E também há cerveja angolana, a Cuca, a par de outras bebidas menos afro e mais euro. Três dos pratos (caril de frango, moqueca de tamboril e molho de búzios do mar) servem-se em versão petisco, ideal para acompanhar um copo ao fim do dia. Ainda assim, César vai dizendo que, para já, a Afro Tas’Ka vai funcionando essencialmente como restaurante. Mas com sucesso, principalmente entre os turistas. “Veem o menu lá fora, entram, e ficam surpreendidos com os sabores. Todos gostam”, diz de sorriso cravado na cara. Lá ao fundo, entre tachos, Zola também sorri: o molho está no ponto.

Nome: Afro Tas’Ka
Data de Abertura: Março de 2016
Morada: Rua Marechal Saldanha, 13 (Bica), Lisboa
Telefone: 21 808 6930
Horário: De terça a sábado, das 16h à 00h (sexta e sábado até às 02h)
Preço Médio: 20€
Reservas: Por enquanto aceitam mas César diz que está em estudo deixarem de o fazer por causa do espaço ser tão pequeno
Site: facebook.com/taskatapasbar