Num cinema balizado — num extremo, pelo pseudo-autorismo e pelo pseudo-vanguardismo, e no outro, por uma pretensa e frágil produção “popular” e “industrial” — Luís Filipe Rocha pertence ao pequeno grupo de realizadores que conseguiram construir uma filmografia “mainstream” de qualidade técnica e exigência artística, que seria, essa sim, verdadeiramente de “indústria”, se tal existisse em Portugal. Ela é feita de ficções realistas, apostadas em contar histórias portuguesas, ancoradas no real quotidiano e social ou na nossa história coletiva recente, povoadas por pessoas como as que cruzamos todos os dias plasmadas em personagens verosímeis, densas de intrigas tomanescas, e tendo bem visível uma impressão digital de identidade estilística, a “assinatura” cinematográfica de quem as filmou.

O autor de “Cerromaior”, “Sinais de Fogo” e “Adeus Pai” é ainda um dos raros cineastas portugueses que se tem empenhado em fazer filmes sobre acontecimentos da história política nacional de antes e depois do 25 de Abril, com “A Fuga” (1977), baseado na evasão de Álvaro Cunhal e mais nove presos políticos da cadeia de Peniche, em Janeiro de 1960; e “Camarate” (2001), sobre a morte do primeiro-ministro Sá Carneiro e do ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa no alegado acidente aéreo de Camarate, em dezembro de 1980.

[Veja imagens de “Camarate”]

“Cinzento e Negro”, o novo filme de Luís Filipe Rocha, vai buscar o título a uma frase de Raul Brandão sobre a ilha do Pico, no livro “As Ilhas Encantadas”. É lá que se dá o desenlace do enredo, embora a ação passe também pelo Faial e comece em Lisboa. Maria (Joana Bárcia) coxeia, não prima pela beleza e é mulher de poucas falas. Toma conta de um professor universitário espanhol reformado e radicado em Portugal, que sofre de uma doença degenerativa. Ajuda-a o namorado, David (Miguel Borges), que vive de biscates e é uma daquelas pessoas que não dão nas vistas onde quer que estejam. Um dia, o professor, da sua cama-prisão, pede a David que lhe alivie o sofrimento de uma vez por todas e convence-o com a promessa de um enorme saco de dinheiro que tem escondido. David ajuda-o e foge com o dinheiro para os Açores, onde se envolve com Marina (Monica Calle), empregada de um bar, que impõe um contrato de frequência intermitente aos homens com que se envolve. Entretanto, Maria contrata Lucas (Filipe Duarte), um ríspido inspetor da polícia, a viver uma tragédia familiar, para a ajudar a encontrar David, vingar-se e recuperar o dinheiro. O desenlace dar-se-á na paisagem bucólica mas agreste do vulcânico Pico, a “quinta personagem” do enredo.

[Veja o “trailer” de “Cinzento e Negro”]

Sem presunções de “tese” ou pretensões demonstrativas, Luís Filipe Rocha invoca o trágico grego (pelos mecanismos que põem em marcha as personagens e lhes condicionam os atos e ditam os destinos) e o “western” (pelo protagonismo ativo das paisagens naturais, em especial a do Pico), para filmar aquilo que poderíamos definir uma tragédia de gente anónima e banal, vivida por personagens lacónicas, solitárias, todas metidas para dentro, psicologicamente lhanas e movidas por impulsos básicos e intemporais (a ganância, a vingança, o desespero). Mas que de alguma forma ilustram aquilo a que o escritor cubano Leonardo Padura, numa entrevista recente, dizia ser “o mistério insondável da alma humana”, e lamentava estar “cada vez mais fora de moda” na ficção de hoje.

[Veja o “trailer” feito para o Montreal World Film Festival]

Parco no verbo e contido na emotividade, embora as paixões se sintam a borbulhar subterraneamente nas personagens, “Cinzento e Negro” é filmado com o gesto e o olhar de um geómetra austero, que prefere a emoção elíptica e pressentida à emoção óbvia e exibida, a impressão oblíqua à expressão óbvia. No que Luís Filipe Rocha é ajudado pela fotografia de André Szankowski, devidamente soturna e acanhada nos interiores e clara e rasgada nos exteriores, pela música (inquietante de tão atípica) de Mário Laginha, e pelas interpretações de Joana Bárcia, Miguel Borges, Monica Calle e Filipe Duarte, que espremem até à última gota o espesso e ácido sumo dramático das suas personagens. “Cinzento e Negro” é um filme que merece a melhor atenção dos espetadores portugueses. Uma atenção que poucos realizadores como Luís Filipe Rocha sabem, querem e conseguem solicitar.