No documentário incluído na edição remasterizada do álbum que antecedeu a actual digressão, Bruce explica os motivos pelos quais escreveu The River. Diz Bruce que, tendo na altura cumprido trinta anos, sentira a necessidade de deixar de observar o mundo como um espetador para pertencer àquilo que chama de “ties that bind” (ou “os laços que nos unem”), sendo o álbum que agora promove uma maneira de tentar perceber, colocando as mãos na massa, como é que as relações começam e se desmoronam (“how people come together and fall apart”). Ao sucesso estrondoso de Born to Run (1975), Springsteen responderia com o isolamento que percorre Darkness in The Edge of Town (1978), surgindo assim The River, lançado dois anos depois, como uma “tentativa de entrar com os dois pés, de mergulhar com ambos os pés” no mundo das relações pessoais, ao contrário do que fizera até então, em que essas tentativas eram sempre seguidas de desistências demasiado rápidas.

[trailer do documentário “The Ties That Bind”]

Em The River, contam-se histórias de pessoas que tentam e falham, que aspiram a coisas a que não chegam e que se procuram libertar de pesos que as oprimem. É isso que encontramos em “Independence Day” ou em “Jackson Cage”, onde as personagens principais procuram largar a terra onde cresceram, tal como é isso que encontramos em “Sherry Darling”, onde essa presença castradora é uma sogra incómoda, e é isso que acontece ainda em “The Ties That Bind” e em “Hungry Heart”, onde as personagens carregam um peso aos ombros que não conseguem identificar mas que nunca as abandona.

O exemplo máximo daquilo que Springsteen parece querer dizer encontra-se, no entanto, na música que conta a história da irmã e do genro de Bruce e que acabaria por dar o título ao álbum. É em The River que mais clara se torna esta ideia de um fardo que não se vai embora e destrói totalmente os projectos de felicidade das vidas dos homens e mulheres do álbum.

the river

The River começa com Bruce sozinho, primeiro na harmónica e depois na guitarra e voz, a falar na primeira pessoa, dizendo-se originário de um vale onde as crianças são educadas para aprenderem o ofício dos seus pais, mostrando-se desde logo encurralado pela terra onde cresceu (“I come from down in the valley/ Where mister when you’re young/ They bring you up to do like your daddy done”). Conhece então Mary no liceu e decide-se a fugir com ela desta terra opressora para um sítio idílico “where the fields were green”. Ao concretizarem a fuga, estes jovens, que como muitas das personagens de Springsteen (e Bobby Jean vem-nos logo à cabeça) são “born to run”, vão mergulhar no rio da sua terra prometida, numa cerimónia que em tudo se parece com uma espécie de iniciação à juventude, sugerida desde logo pela alteração rítmica causada pela entrada em cena do piano e da bateria.

A música prossegue e Mary engravida, levando a um casamento apressado, sem flores nem vestidos de noiva, em que a noite de núpcias é passada precisamente no mesmo rio.

O tempo passa e as coisas pioram. O protagonista encontra um emprego precário numa empresa de construção e perde as ilusões que o levaram a fugir da terra natal, parecendo já distante da sua mulher. O casal refugia-se então em truques para sobreviver à morte dos motivos que os levaram a sair de casa, procura maneiras de não ver que aquilo que projectaram para si ruíra (‘Now I just act like I don’t remember/ Mary acts like she don’t care”).

[“The Ties That Bind”, ao vivo no Saturday Night Live no final do ano passado]

Na estrofe seguinte (que nos traz inevitavelmente à memória o “Esplendor na Relva”, de Kazan, em que Natalie Wood e Warren Beatty vivem um romance adolescente, consumado dentro de um carro junto a uma barragem, tão intenso que os leva à loucura), é-nos dito pelo protagonista que a ideia de fingir não se lembrar do passado não resultara e, abandonando o tom melancólico que adoptara, confessa-nos que se recorda muito bem de quando dormira com ela no carro do irmão, perto de uma barragem (“But I remember us riding in my brother’s car/ Her body tan and wet down at the reservoir/ At night on them banks I’d lie awake/ And pull her close just to feel each breath she’d take”). No entanto, a memória da felicidade sentida aquando dos primeiros mergulhos no rio conduz apenas a que a realidade actual piore, atormentando-o (“Those memories come back to haunt me/ They haunt me like a curse”).

A música termina depois com um regresso sádico do casal a um rio que já secara, que serve não só para fazer renascer memórias dolorosas de uma fuga fracassada e de um tempo já morto e enterrado mas também para nos recordar os sábios versos enganadoramente alegres desse aviso em forma de conto que é “Glory Days”, em que Bruce, depois de narrar vidas devastadas pelas ilusões criadas na juventude, se recrimina por também ele ir provavelmente viver a vida a lembrar e a engrandecer o seu passado, dizendo: “I hope when I get old I don’t sit around thinking about it/ But I probably will”. Quando o virmos, só temos que lhe agradecer por isso.

[Bruce Springsteen atua no Rock in Rio Lisboa no dia 19 de maio]

João Pedro Vala é aluno de doutoramento do Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa.