“A Canção do Mar”

Há vida no cinema de animação fora da Pixar/Disney, da DreamWorks e do Studio Ghibli, como se comprova em “A Canção do Mar”, do irlandês Tomm Moore, uma produção do Cartoon Studio sediado na República da Irlanda, em associação com outras companhias europeias. Moore havia já assinado em 2009 o soberbo “The Secret of Kells”, e agora vai ainda mais longe com esta história de um rapazinho, Ben, filho de um faroleiro, que descobre que a irmã mais nova, Saoirse, que é muda, e que ele culpa pela morte da mãe, é uma “selkie”, uma criatura da mitologia celta que pode tomar a forma de uma foca. Moore vai beber fundo no folclore e no fantástico da tradição da “faerie”, tal como havia feito em “The Secret of Kells”, e a animação, que harmoniza a estética da arte tradicional celta com um traço moderno, é de uma beleza refinada e deslumbrante, e nada num lirismo mágico e melancólico, mas sem esquecer o humor, acompanhada à altura pela música de Bruno Coulais e do grupo de música “folk” irlandês Kila. “A Canção do Mar” esteve candidato ao Óscar de Melhor Animação de Longa-Metragem, e é um exemplo belíssimo de cinema europeu identitário. A não perder.

“A Lagosta”

É também da Irlanda que nos chega “A Lagosta”, embora o filme seja de um grego, Yorgos Lanthimos, a primeira realização em língua inglesa do autor de “Canino”. “A Lagosta” ganhou o Prémio do Júri no Festival de Cannes do ano passado, onde também se fez notar pelo facto de alguns dos atores (caso de Colin Farrell) terem confessado que não haviam percebido inteiramente o argumento e ainda andavam aos papéis sobre o tema do filme. Um muito respeitável grupo de intérpretes (John C. Reilly, Rachel Weisz, Léa Seydoux, Ben Whishaw) junta-se a Farrell nesta distopia satírica e absurda. Quem não tem parceiro é posto durante 45 dias num hotel para o arranjar e se casar. Se não conseguir, é transformado pelo Estado num animal da sua escolha (daí o título, o animal preferido pela personagem de Farrell). Lanthimos nega solidez de coerência ao filme não sugerindo ao menos a razão desta diretiva ou a forma como as pessoas são transformadas em bichos (até o “nonsense” mais arrevesado e surreal tem que ter credibilidade interna, como bem o sabia Luis Buñuel), pelo que ao fim da primeira hora, após Farrell fugir do hotel e encontrar os dissidentes do sistema, tão estritos como este na sua oposição a ele, “A Lagosta” começa a andar em círculos e a chover no molhado, e a estranheza e a perplexidade transformam-se em aborrecimento.

“X-Men: Apocalipse”

Bryan Singer continua ao leme desta saga sobre mutantes com super-poderes, baseada na série da Marvel criada por Stan Lee e Jack Kirby. Aqui, as versões mais jovens do professor Charles Xavier e dos mutantes que ele acolheu na sua escola para “jovens sobredotados”, têm que enfrentar En Sabar Nur, vulgo Apocalipse, o primeiro e mais poderoso mutante do universo, um semi-deus que reinou no Egipto há milénios atrás e foi neutralizado, mas regressa agora à vida, decidindo destruir o mundo e refazê-lo à imagem dos seus desejos. Oscar Isaac personifica o mutante ancestral, enquanto que James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Rose Byrne e Nicholas Hoult, entre outros, retomam as personagens que já haviam interpretado em “X-Men: O Início” (2011) e “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” (2014), com o qual “X-Men: Apocalipse” forma uma trilogia, dentro dos seis filmes desta série já feitos.

“Cinzento e Negro”

Quase dez anos após “A Outra Margem”, Luís Filipe Rocha regressa à realização com “Cinzento e Negro”, um título saído de uma frase de um livro de Raul Brandão. Em Lisboa, Maria (Joana Bárcia) toma conta de um professor universitário que sofre de uma doença degenerativa, contando com a ajuda de David (Miguel Borges), o seu namorado. Um dia, David ajuda o doente a morrer, a pedido deste, e foge para os Açores com o saco de dinheiro que ele tinha em casa. No Faial, envolve-se com Marina (Monica Calle), que trabalha num bar. Maria contrata Lucas (Filipe Duarte), um inspetor da polícia sobre o qual se abateu uma tragédia familiar, e parte com este para os Açores, decidida a encontrar David, a vingar-se dele e a recuperar o dinheiro. “Cinzento e Negro” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.