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Campo das Cebolas. Ir buscar o carro ao parque por uma escadaria pombalina

Nas obras do Campo das Cebolas, os arqueólogos já descobriram diversos vestígios pré e pós-terramoto. Um deles é uma escadaria que ia para o rio. No futuro, pode ir para o seu carro.

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Quando o projeto foi feito, não se sabia que esta escada ia aparecer

JOÃO PEDRO PINCHA/OBSERVADOR

Quando o projeto foi feito, não se sabia que esta escada ia aparecer

JOÃO PEDRO PINCHA/OBSERVADOR

Imagine que é um dia qualquer do século XV e que está na zona de Lisboa que é hoje conhecida como Campo das Cebolas. Das duas, uma: ou estava a molhar os pés no Tejo ou estava dentro de um barco. Só nos dois séculos seguintes é que a cidade se expandiu para o lado do rio e foi tomando a forma que lhe conhecemos atualmente. Os historiadores e arqueólogos já sabiam isto, mas agora os vestígios do avanço de Lisboa para sul estão visíveis a qualquer pessoa que passe no estaleiro de obras do Campo das Cebolas.

Já foi possível identificar, por exemplo, um paredão construído depois do terramoto de 1755, uma escadaria de acesso ao rio, restos de um forte do século XVII, vestígios de barracas de mercado, restos de um poço e ainda um cais de finais do século XIX.

Entalado entre a Avenida Infante Dom Henrique e o bairro de Alfama, o Campo das Cebolas foi, até há pouco tempo, um patinho feio das praças lisboetas. O estacionamento desordenado, as palmeiras e as linhas de elétrico desativadas que por ali se viam já desapareceram e vão dar lugar a um novo espaço de convívio citadino, com árvores, bancos e quiosques. Por baixo, um parque de estacionamento subterrâneo de apenas um piso. As obras começaram no início deste ano e devem prolongar-se até maio de 2017.

8 fotos

Para já, as escavações ainda não foram muito profundas, explica Filipe Homem, arquiteto do atelier Carrilho da Graça — que assina o projeto de requalificação do espaço público — enquanto guia o Observador por uma visita ao estaleiro. Mais ou menos ao centro da praça está o tal paredão pombalino, construído depois do terramoto com “pedras de cantaria que estão em ótimo estado”. Grande parte dessa estrutura vai servir de parede ao futuro parque de estacionamento. O que não puder ficar no sítio “vai ser reaproveitado” para outros locais, pelo que as pedras “estão a ser desmontadas cuidadosamente”, acrescenta o responsável.

A ideia de reaproveitamento aplica-se também a uma escadaria, em muito bom estado de conservação, que em tempos acabava dentro da água do Tejo e fazia parte do antigo Cais da Ribeira Velha. “Tentaremos manter estas escadas como acesso” ao parque de estacionamento, diz Filipe Homem. “Na fase de projeto não foi possível determinar a existência” daquela estrutura oitocentista, mas, assim que se descobriu que as escadas ainda lá estavam, a opção passou por criar um diálogo entre a arquitetura do século XXI com a do Marquês de Pombal.

cebolas

Uma das imagens divulgadas do projeto de Carrilho da Graça para o local (D.R.)

Até agora, “os vestígios mais antigos” que a equipa de 50 arqueólogos da empresa ERA Arqueologia encontrou são do século XV, “quando começou o processo de aterro” deste local, afirma Inês Simão, coordenadora das escavações. Por isso, e apesar de ainda não terem encontrado nada de concreto, “é possível que existisse um paredão anterior” àquele que se ergueu depois de 1755.

Até porque, quase encostado ao cais, os arqueólogos encontraram alguns restos do Forte da Ribeira, um edifício que existiu mesmo ao lado do que é hoje o Ministério das Finanças e cuja função não está ainda totalmente esclarecida. “Pode estar associado a um conjunto de fortes que se construíram na altura da Guerra da Restauração”, esclarece Inês Simão. Ou seja, estes vestígios estão aqui pelo menos desde 1640-1668.

Além disso, já foram encontradas inúmeras estacas de edifícios pombalinos em frente à Casa dos Bicos, onde também foi possível identificar parte de um poço, provavelmente do século XVII, que aparece no painel de azulejos “Grande panorama de Lisboa”, fabricado em 1700 e uma das melhores formas de conhecer a capital antes do terramoto.

Uma inovação na arqueologia

De acordo com a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), a quem compete fiscalizar os trabalhos arqueológicos, estas escavações no Campo das Cebolas têm um elemento inovador. Pela primeira vez, respondeu a instituição por escrito ao Observador, “houve um cuidado especial no caderno de encargos para as obrigações da equipa de arqueologia que realiza o trabalho promover ações e preparar conteúdos científicos ajustados à divulgação generalista junto dos cidadãos”.

Daí que, desde o início, a Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL), que é a dona da obra, tenha promovido visitas guiadas ao local. A procura já excedeu a oferta e neste momento há lista de espera para ir ver estes vestígios arqueológicos. As pessoas que aparecem são sobretudo entusiastas da História. “Vêm sempre muito interessadas, têm curiosidade, querem saber”, explica Inês Simão.

Além da divulgação dos trabalhos (feita também em pequenos vídeos no Facebook), a DGPC garante ainda que, “na planificação da 2ª fase de implementação do projeto, está salvaguardado que pode ser encontrado património arqueológico náutico e subaquático” que permita “a identificação de elementos e contextos que são fundamentais para a compreensão da história da cidade de Lisboa, sobretudo as suas vivências com o rio Tejo”.

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