20 de maio de 2016. Coimbra, pela noitinha. A final era a da Taça da Liga, aquela que o Benfica tomou como sua ano após ano, vencendo-as em catadupa, sete em nove. O minuto, o 78. A quem importam as efemérides (e sobretudo para quem é adepto do Benfica), esta é importante. Memorize-se pois: marca a despedida de Osvaldo Fabián Nicolás Gaitán. Ou só Gaitán. Ou só El Mago. Nico para os adeptos que o querem bem. O tal da camisola “10”, baixinho, franzino, que corre curvado mas veloz, com uma canhota que resolve o que outros tendem a complicar por vezes. Ele, que faz dos goleadores aquilo que eles são, com as suas assistências de mestre. Ele, que é o melhor sucessor que Aimar poderia ter tido no Benfica, diz adeus. Algum dia teria que dizê-lo — todos os anos está com um pé dentro e outro fora, mas acaba por nunca sair e carrega o clube às costas para os títulos.

Gaián despediu-se em lágrimas. Primeiro, conteve-as. No tal minuto 78. Saiu ovacionado de pé, substituído por Gonçalo Guedes. Fez-se forte. Mordeu o lábio. Mas chegado ao banco, sentou-se, colocou uma toalha sobre a cabeça, cobriu-a, Paulo Lopes reconfortou-o com uma palma nas costas, e Nico quebrou. Chorou.

Pouco antes (77′) fez o que melhor sabe: um golo. Mas não um golo mais. O golo da noite, como em tantas outras noites. A serenidade de Gaitán é… enervante. Para os defesas que o veem chegar, entenda-se.

(Um aparte: a defesa do Marítimo não mereceu o ataque que teve. Ataque por ataque, o do Marítimo não ficou a dever nada esta noite ao do Benfica. Ou melhor, ficou: na concretização. Ederson fez a diferença na baliza dos encarnados.)

Mas vamos ao golo de Gaitán, que é dele que se fala: Talisca — que entrou no jogo para isto, para fazer a bola circular — desmarcou Jonas nas costas dos centrais do Marítimo, o pistolas tocou para o lado de pronto, para Gaitán, mas o argentino não rematou logo. Esperou. Esperou pelos defesas do Marítimo. Desafiou-os. E quando Maurício por fim chegou, ofegante, Gaitán picou-lhe a bola por cima. Não é para qualquer um. E ele não é qualquer um.

Quanto ao jogo, mudou aos três, acabou aos seis. Mas o resultado é mais enganador do que aparenta. O Marítimo fez o suficiente para dificultar a festa ao Benfica. Ou dar-lhe luta até ao fim pelo menos. O problema foi lá atrás, na defesa. Cada ataque era um ai-Jesus. O primeiro golo surgiu aos 11′, pelo inevitável Jonas — ele que também já tinha “molhado a sopa” na final de 2014/2015, e também contra o Marítimo. E cá vai a razão do ai-Jesus: Gaitán desmarcou Grimaldo na esquerda do ataque (e que passe foi o do argentino!), o defesa cruzou para trás, para Mitrolgou, o grego rematou, mas o melhor que conseguiu foi acertar em cheios num magote de defesas do Marítimo dentro da área. E o ataque não deu em nada, certo? Errado. Os tais defesa, no tal magote, pararam (literalmente “pararam”), ninguém cortou dali a bola, o defesa que a cortou (Dirceu), cortou-a para trás, Jonas não se fez rogado, aproveitou todo aquele atabalhoamento e fez o 1-0, num golo quase só de encostar. Desses, venham muitos. E viriam.

A defesa verde-rubra voltaria a facilitar. Mas a verdade é que o golo (18′) é irregular. André Almeida fez um lançamento à direita do ataque, lançou a bola para Jonas — que saiu da área e foi recebê-la –, mas rapidamente o pistolas passou a outro e não ao mesmo. Passou-a de primeira para Pizzi nas costas da defesa do Marítimo. Tão, tão “nas costas”, que Pizzi estava em fora-de-jogo. Depois, foi vê-lo avançar pela linha de fundo, já no interior da área, cruzar para o primeiro poste, onde Mitroglou desviou, a meias contra um defesa, a meias para a baliza. Era o segundo golo da noie em Coimbra.

O golo “como deve ser” só se viu aos 38′. A bola não tabelou em ninguém antes de entrar. A defesa do Marítimo não deu fífias dignas de um jogo de “solteiros” contra “casados”. Foi tudo simples. E conta-se assim, com simplicidade também: Grimaldo (que belo jogo o do lateral espanhol) assistiu Gaitán no interior da área, ligeiramente descaído para a esquerda, o argentino cruzou para trás, para a entrada da área, onde Mitroglou surgiu a rematar de canhota, de primeira, para o 3-0. O intervalo chegaria pouco depois.

O Marítimo reduziu logo no recomeço do jogo, aos 47′. Aqui, foi a vez da defesa do Benfica facilitar. Patrick colocou a bola na frente, longa e desde a esquerda da defesa, Luisão disse que ia mas não foi, Fransérgio antecipou-se ao girafa, tocou-lhe a bola por cima de cabeça — o que não é fácil, não senhor –, assistiu João Diogo, e o lateral feito ponta-de-lança desviou para o 3-1 à saída de Ederson. O Marítimo merecia mais do que a goleada “a secos”. E conseguiu.

Sobre o 4-1 de Gaitán já lhe contei o que havia para contar. Mas ainda faltam três golos. Primeiro, voltou a reduzir o Marítimo. De penálti, Fransérgio (84′) rematou para a direita, Ederson (que andava aos pulinhos na baliza, qual Dudek na final da Champions entre o Liverpool e o Milan) também para lá foi, mas não defendeu. Quanto à jogada que deu lugar à grande penalidade, não há dúvida: Samaris derrubou Alex Soares mesmo na quina da área. Foi imprudente, o grego.

Mas a defesa do Marítimo, não contente com um 4-2 mais ou menos digno de um finalista, quis sair goleada. E saiu. Esta defesa tem mais buracos que um queijo suíço. Pizzi bateu um livre desde a esquerda para a área com o cronómetro a tocar nos 90′ regulamentares, Jardel saltou sozinho (ele nem saltar, saltou; esticou-se, vá) ao segundo poste e desviou para o quinto golo. Mas como o que é mau pode sempre piorar, falemos de Alireza Haghighi (ora pronuncie lá o nome do iraniano das balizas do Marítimo sem titubear) e do minuto 93, mesmo, mesmo no fim. Marcou Jiménez, de penálti, o 6-2. Um “panenka” rentinho, rentinho ao relvado, rematado para o centro com Haghighi a escolher o lado direito. Quanto ao penálti em si, resultou de um disparate de Haghighi. Maurício atrasou a bola para o iraniano, pedia-se um chutão para a frente (que o jogo estava a dar as últimas), mas Haghighi inventou, tentou rececionar a bola (como Gaitán faz, com a sola da bota; o problema que nem todos são gaitáns), rececionou-a mal, Jiménez surripiou-lha e o guarda-redes do Marítimo derrubou o mexicano de carrinho, em desespero de causa. Enfim: mais um disparate entre muitos.

Ahhh, o Benfica lá venceu mais um caneco. Mas não haverá adepto que queira ir festejar para o Marquês ao saber que o “10” se fue. Só os adeptos dos adversários. Ou nem esses — se gostarem do futebol pelo futebol.