Mais do que normal, é inevitável ficar nervoso, sentir a pele a fechar os poros e a fazer-se passar por uma galinha. Quim já era adulto e tinha 23 anos, sim, mas apenas aí começou a ser dono da baliza. Nisto era novato. Teve que ser paciente e esperar para ser o guardião preferido das redes do Sporting de Braga e, logo à primeira época em que o conseguiu, chega a uma final. Os minhotos da altura não são os bracarenses de hoje, estar numa decisão da Taça de Portugal era a proeza que hoje é apenas um feito. O Braga, que este domingo (17h30) alcança a segunda final consecutiva, era a equipa do Minho que, em 1998, estava na final volvidos 18 anos da anterior presença.

O Quim jovem, nervoso e ansioso também lá estava e falamos com ele porque, tanto na altura como agora, o Jamor é partilhado entre FC Porto e Sporting de Braga. É a terceira vez que este duelo vai acontecer (1977, 1998 e 2016), embora apenas seja a segunda final no estádio nacional — o primeiro jogo realizou-se no Estádio das Antas. Os bracarenses nunca venceram os dragões e já não ganham um caneco desde a altura em que o treinador que está do lado dos portistas ainda dava ordens no Minho (Taça da Liga, em 2013). O guarda-redes que hoje está com 40 anos, e ainda joga no Desportivo das Aves, acha que o FC Porto é quem tem mais a perder e vê no Braga que apoia vários pés com hipóteses de decidir a final sozinhos.

Se te falar da final de 1998, pensas em quê?

Ufff [suspira]. Essas finais ficam sempre na memória. Lembro-me perfeitamente que foi a minha primeira final a nível sénior, foi importantíssima. Infelizmente perdemos, mas fica sempre aquele nervosismo inicial. Com o desenrolar do jogo, naturalmente que as coisas foram ficando normais.

Foi logo na tua primeira época a titular no Braga. Estavas nervoso por causa disso?

É natural que sim. Claro que a situação não me passou despercebida. Era jovem [tinha 23 anos] e num clube como o Braga, nessa altura, não era fácil chegar a uma final. Acredito que não fosse só eu. Mesmo os jogadores experientes estariam nervosos. Até aí, o Braga tinha chegado a poucas finais e já tinham sido há muitos anos. Há sempre nervosismo no aquecimento e durante os primeiros minutos do jogo, mas depois tudo passa.

O ambiente do Jamor intimida?

O Jamor é especial, não se trata de intimidar. As pessoas estão por ali a fazer a festa desde as primeiras horas da manhã, passam ali o dia, é tudo especial. Depois, no jogo, nós esquecemo-nos do que se passa à volta e nas bancadas. Mantemo-nos concentrados. Mas claro que, de manhã, quando ainda estávamos nos quartos, a concentrarmo-nos no jogo, foi muito especial vermos aquelas pessoas todas no parque do Jamor, pela televisão. Não é para todos estar ali.

Na altura tinham um sérvio e um croata na equipa…

O grande Karoglan.

Exato. Vocês tiveram que lhes explicar a mística da final da taça?

O Karoglan tinha conhecimento, já tinha alguns anos de Portugal e sabia praticamente como eram as finais. Agora o… qual era o nome dele? Bajcetic não é? Esse era natural que não conhecesse. Procurámos explicar-lhe a situação. Ele também já era um jogador experiente, sabia o que era jogar a final de uma taça no seu país. Para o Braga é que era mais especial. Quer queiramos quer não, ficamos um pouco ansiosos na altura.

Braga: Treino do SC Braga

Foto: Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens

Já tinham uns monstros no balneário: o Mozer, o Artur Jorge, o José Nuno Azevedo. Eles tentaram serenar a equipa antes da final?

Não, porque é como disse. Mesmo com a experiência deles em termos de Braga e de primeira liga, também era uma primeira final para eles. Talvez não se sentissem tão à vontade. Agora não, felizmente o Braga, nos últimos anos, esteve em algumas finais e hoje até é o quarto grande em Portugal. Mas, na altura, não era assim. Mesmo os mais experientes não tinham o à vontade de jogar uma final como se fosse um jogo normal. Era quase a mesma coisa para um jovem ou para um jogador experiente.

No sábado também vai ser um Braga-FC Porto. Qual é o jogo em que o Braga tem mais hipóteses de ganhar?

Na altura foi difícil, por tudo o que já referi. Para o Braga, chegar à final já era muito. Hoje em dia é diferente. O ano passado já perdeu a final como perdeu [sofreu o golo do empate nos descontos, antes de perder nos penáltis, contra o Sporting]. Não é fácil chegar duas vezes consecutivas à final da Taça de Portugal e acredito que, este ano, o Braga ainda queira mais ganhá-la. Não é que este ano seja mais fácil, porque não há jogos fáceis, mas acredito que o FC Porto esteja hoje mais frágil do que estava na altura.

A forma como perderam a final da época passada ajuda à motivação dos jogadores do Braga?

É um pau de dois bicos. Podem pensar em demasia no final do jogo da época passada, estavam praticamente a levantar a taça e sofreram um golos nos últimos instantes. Podem agarrar-se a esse pensamento negativo. Mas acredito que não. Acho que o Braga, este ano, está muito próximo do FC Porto em qualidade individual. Tem jogadores muito bons, que podem decidir um jogo. Na altura não tinham tantos. Penso que será uma partida decidida numa jogada individual.

Ainda falas com alguém da equipa do Braga?

Tenho o Alan, que ainda é o capitão. De vez em quando ainda consigo falar com ele. Também falo com o Baiano, mas não há assim muitos mais. Do meu tempo já não está lá quase ninguém.

Nem o José Peseiro, treinador que apanhaste na última época em Braga (2012/13). Agora está do outro lado, no FC Porto.

Exatamente.

Ele é forte a preparar finais?

Sim, na altura conseguimos vencer a Taça da Liga, também contra o FC Porto. Talvez seja mais fácil para o Paulo Fonseca preparar o jogo. Vem de uma época muito boa e poderá ter mais confiança do que o José Peseiro, que entrou no clube numa fase complicada. As coisas não têm funcionado muito bem, a equipa esteve muito inconstante. Quem tem mais a perder é o FC Porto, em termos de nome e tudo mais. Ainda por cima esta final se calhar vale uma época, o FC Porto não pode estar tanto tempo sem ganhar nada.

Tinhas amigos ou familiares na bancada em 1998?

Sim, tinha alguns. Os meus pais e a minha esposa acompanhavam-me para todo o lado. Claro que também estavam presentes no estádio.

E como adepto, já lá foste?

Por acaso não. É incrível, mas nunca lá estive. Já lá joguei pelo Braga e pela seleção nacional, mas nunca assisti de fora a uma final da taça. Talvez possa ver esta, ainda não sei, mas gostava de estar presente. Quanto mais não seja para apoiar o Braga, que é um clube que me diz muito.

Estás a planear ir lá no domingo?

Estou a tentar. Não está fácil arranjar convites ou bilhetes, mas vamos ver.