Sempre que nos referimos ao passado, imaginamos as mulheres numa posição inferior aos homens, numa condição menos privilegiada ou, socialmente falando, de menor relevância. Se pensarmos nos filmes de Hollywood dos anos 50, por exemplo, a mulher estava sempre em casa. Se andarmos mais para trás, as mulheres não tinham direito ao voto. O que acaba por levantar a questão: terão sido as mulheres sempre inferiores aos homens? A resposta é um rotundo não.

Os amantes de produções como “Reign” ou “The Tudors” já o sabiam. Nessas séries históricas podemos ver como as mulheres das cortes foram poderosas e influenciaram as decisões políticas que fizeram parte da história mundial. Ao lado de um mundo que muda todos os dias e onde todos os dias se trava, algures, uma luta pela independência, a segurança, a liberdade, a educação, o poder e igualdade de género, podemos perguntar: se as mulheres — algumas mulheres — tinham tanto poder, porque é que o perderam algures pelo caminho? A propósito do lançamento do novo livro de Joana Bouza Serrano, A Duquesa de Mântua (ed. Esfera dos Livros), falámos com a escritora e historiadora portuguesa sobre estes e outros temas, tendo como pano de fundo uma ideia: o que podemos aprender com as mulheres da História.

As redes sociais como palco de mudanças

O jornal britânico The Independent publicou a semana passada uma notícia sobre mulheres iranianas que estão a cortar o cabelo, a vestir-se como homens e a sair à rua sem os véus como forma de protesto contra as leis de género opressivas. As redes sociais têm sido palco ativo na passagem e exposição deste manifesto. “É uma guerra cultural séria entre dois estilos de vida. Para as mulheres, o seu cabelo é a sua identidade e cortá-lo para evitar as políticas moralistas é de partir o coração mas mostra bravura”, escreve o Independent. Este é um exemplo de uma mudança que, há 10 anos, nunca teria tido força para começar e que leva mesmo a revista Time a escrever que “para além de terem criado espaço para pessoas de todos os cantos do mundo se expressarem e verem as suas vozes ampliadas, as redes sociais chegaram às massas e forçaram a atenção sobre muitas questões consideradas importantes e que, há 10 anos, teriam sido impossíveis de ser debatidas”.

Representantes da rede social Twitter confirmaram que os debates sobre a palavra “feminismo” aumentaram mais de 300 % nos últimos anos nessa plataforma. “As questões sobre as mulheres estão em todo o lado, implacavelmente espalhadas pelas mulheres em quem têm impacto. As hashtags feministas tornaram-se armas poderosas”, acrescenta a Time. Armas que, apesar de tudo, ainda não conseguiram ganhar todas as lutas.

Tem havido muitas mudanças mas infelizmente ainda existem demasiadas regiões em que as mulheres continuam a sofrer às mãos de leis opressivas. Pode ter a ver com a História, com o facto de a mulher ter tido sempre o seu poder mantido na sombra, pode ser o facto de ainda não termos conseguido avançar suficientemente para nos libertarmos de preconceitos de género. Não costumo usar as redes sociais na minha vida pessoal mas estou sensibilizada para o seu poder crescente e para a massificação dos temas”, diz a historiadora Joana Bouza Serrano.

Mulheres: um poder escondido na sombra

Fotografias nunca antes vistas de mulheres voluntárias durante a II Guerra Mundial foram descobertas na semana passada e mostram o papel importante que tiveram ao manter o Reino Unido a funcionar enquanto os homens estavam na guerra. Como se explica então que, ao longo da história, as mulheres tenham ficado sempre na sombra? Joana Bouza Serrano, que tem estudado afincadamente as mulheres, explica que eram preparadas para o poder mas, muitas vezes, esse papel acabava por ser exercido através da sua influência sobre os maridos, os irmãos ou os filhos.

Nos assuntos políticos prevalecia sempre o ponto de vista masculino”, explica a historiadora. No caso da realeza, as mulheres eram educadas para poderem ter um papel político um dia, mesmo sabendo que o iriam exercer na sombra, por via do casamento ou enquanto representantes diplomáticas do seu país de origem no país onde vinham a casar. Na verdade, muitas rainhas tiveram muito poder — mais do que os próprios maridos — mas sempre exercido por vias paralelas. Os próprios relatos históricos dos acontecimentos competiam aos homens e, hoje em dia, está-se a descobrir nas cartas dos embaixadores como as mulheres tiveram um papel importante.”

In the foreground, a group of four women, each wearing a working head scarf, are having lunch, smiling and discussing, while other male workers are doing the same in the background of a factory's canteen on the Canadian Home Front during World War II, Canada, 1944. Photo taken during the National Film Board of Canada's production of 'When Do We Eat?'. (Photo by NFB/Getty Images)

Trabalhadoras na pausa de almoço, durante a II Guerra Mundial, no meio dos trabalhadores homens’. (Photo by NFB/Getty Images)

A pressão para ser super-mulher

Em 2013, o The Telegraph escrevia que as mulheres executam, em média, 26 tarefas matinais antes de chegarem aos seus empregos. A pressão da “super-mulher” está em todo lado, fomentada pela sociedade, pelos homens, pela história, pelas próprias mulheres.

O que vejo na História é que as mulheres sempre foram capazes de conciliar vários papéis”, diz Joana Bouza Serrano. “Temos o trabalho, mas também temos o lado familiar que, por vezes, tem de se sobrepor. O estigma da super-mulher acaba por desaparecer com a maturidade e quando começamos a definir prioridades em cada momento. Quando as mulheres têm filhos, gostam de cuidar dos filhos — não é uma obrigação, é um gosto. E o que assistimos é que, depois, é mais difícil retomar uma carreira, reconquistar uma posição. Infelizmente, quando apostam na família as mulheres acabam por ser prejudicadas do ponto de vista profissional, por melhores que sejam as suas capacidades. E esta é uma das etapas que tem de mudar para se concretizar efetivamente a igualdade de género.”

Para o sublinhar, a também autora dá o exemplo da Duquesa de Saboia que, a dada altura, tinha 10 filhos ao seu cuidado. Enquanto estudava para o seu último livro, Joana de Bouza Serrano leu as cartas da Duquesa ao marido, Carlos Emanuel I, onde falava da sua rotina: de manhã, dedicava-se a atividades políticas, recebia embaixadores, militares ou tratava de enviar coisas para a frente de guerra. Almoçava com os filhos rapazes e, à tarde, ficava com as filhas raparigas nos aposentos enquanto escrevia, bordava ou estudava com elas.

Já naquela altura as mulheres eram obrigadas a ser multitasking e o segredo talvez tenha sido a organização [e muita ajuda doméstica, claro]. O nosso grande inimigo é mesmo o tempo — tempo para fazer tudo, conseguir acudir a várias frentes e descansar. Mesmo na minha própria vida pessoal estou a aprender a focar-me em cada coisa a seu tempo. Quando estou com a minha família, é para estar com eles. Tento não abrir e-mails ou deixar arrastar questões de trabalho. E quando estou a trabalhar, tento concentrar-me e não me distrair com outras coisas. Quem consegue ser organizada é quem consegue gerir bem vários papéis.”

Feminismo e paridade em Portugal

Nunca o feminismo esteve tão em causa como nos dias de hoje, em que se assiste a uma crítica crescente de que as mulheres, ao batalharem pelo fim das desigualdades, as estão a fomentar ainda mais. Joana Bouza Serrano tem outra opinião e fala na importância da lei da paridade. “Num país como Portugal, com a educação tão tradicional e a falta dela que houve durante tanto tempo, sem leis de paridade não haveria mulheres em cargos políticos”, diz a historiadora. “Se calhar tem a ver com as nossas tradições. Com todos os bloqueios que tivemos na nossa democracia, as mulheres foram postas para segundo plano e ainda não recuperámos disso. Ainda estamos a pagar essa conta. A única coisa que vai trazer mudanças à mulher em Portugal só pode ser a educação progressivamente alargada a cada vez mais pessoas, uma educação generalizada de várias gerações.”

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A Duquesa de Mântua. Imagem cedida pela Esfera dos Livros

O que podemos aprender com as mulheres da História?

Confrontada com a questão que dá título a este artigo, Joana Bouza Serrano não tem dúvidas: aquilo que podemos aprender com as mulheres da História é sobretudo “a determinação em seguirem os seus ideais e em contornarem as situações que lhes eram impostas na época por viverem num mundo governado pelos homens.” Mais uma vez a protagonista do livro que a historiadora acabou de lançar é um bom exemplo: “Antes de ter um papel importante no governo de Portugal, a Duquesa de Mântua foi expulsa do seu país mas conseguiu manter a sua influência por vias secundárias: através de cartas, de conversas com pessoas influentes na época, através de uma rede de contactos. Era uma mulher com um grande instinto político que, mais tarde, viu o seu mérito reconhecido ao ser nomeada para vice-rainha de Portugal.”

Outra grande lição trazida do século XVII para o XXI é aprendermos a valorizar o maior bem que temos — a liberdade. “As mulheres eram educadas para serem de tal forma fiéis ao ideal da dinastia e de perpetuar o seu poder, que desde novas estavam preparadas para abdicar de qualquer ideia pessoal em prol daquilo que era considerado ser seu dever. Estavam preparadas para mudar de país, para deixar para sempre a sua família e para cumprir a missão para que tinham nascido. Havia uma certa resignação a um destino. Foi isto que aconteceu a tantas, tantas mulheres durante tanto tempo — já fora da época monárquica, as mulheres não podiam escolher o que queriam estudar ou onde queriam trabalhar. Esta é a maior liberdade que temos nos dias de hoje e da qual devemos desfrutar.”