O festival que a RTP produziu pela primeira vez em 1964, “com a aprovação e estímulo do Governo de [Oliveira] Salazar”, pretendia, segundo o coordenador de um estudo da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Jorge Mangorrinha, contribuir “para a melhoria da imagem externa do país e do regime”.

O resultado, porém, “não podia ser pior”, sobretudo “pela rejeição da política portuguesa”, afirmou o investigador, considerando que o país perdeu a oportunidade de apostar na sua promoção através do eurofestival.

Nas conclusões do estudo, apresentadas originalmente quando se completaram 50 anos da participação de Portugal no eurofestival, em 2014, Portugal é considerado “um país que, em muitas edições, apresentou canções bem construídas” mas que nunca encontrou formatos “capazes de competir”.

É o país que “mais vezes participou sem nunca ganhar”, lembrou Jorge Mangorrinha, sublinhando que Portugal só não participou em 1970, 2000, 2002, 2013 e em 2016, e apenas conseguiu, nas restantes edições, ter “nove canções dentro do top 10 das posições finais”.

Não por falta de qualidade dos cantores mas porque, “para ganhar o concurso, havia que promover poderosamente uma canção, organizar ‘cocktails’, distribuir pastas pejadas de informação e negociar entre delegações” e, por outro lado, “manifestar vontade de organizar uma edição do festival”.

Porém, diz o estudo, “os responsáveis nunca tiveram verdadeiramente a intenção de ganhar e nunca quiseram discutir a sua posição final”, perdendo-se, segundo Mangorrinha, o que “podia ter sido uma oportunidade de assumir um papel significativo para a música portuguesa e para um impulso turístico”.

Tanto mais que, atualmente, continua a ser o “maior espetáculo musical televisivo e de uma audiência de milhões que se distribui por vários dias de promoção e por dezenas de países que já estão além do continente europeu”, considera Jorge Mangorrinha para quem “ganhar uma edição e trazer o espetáculo para Portugal e Lisboa, em particular, seria uma oportunidade de promoção turística, com retorno económico e cultural, e de maior reconhecimento internacional da música portuguesa”.

Para isso Mangorrinha defende uma estratégia conjugada entre interesses públicos e privados, em três aspetos fundamentais: “A canção, o posicionamento da RTP perante os autores portugueses e a música e a importância das parcerias [Ministério dos Negócios Estrangeiros, Turismo de Portugal, editoras e outras empresas com interesse], para um objetivo ganhador”.

A receita passaria ainda por “ausência de preconceitos, tempo de preparação e uma ambição ganhadora”, no sentido de trazer para Portugal uma edição do festival.

O investigador da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias prepara, aliás, mais um estudo sobre o tema, desta vez pensado “o território de Lisboa para receber o Festival em maio”.

A ideia é avaliar “infraestruturas, transportes, plano de emergência e segurança, hotelaria, cultura, comércio, a animação diurna e noturna e capacidade de carga dos espaços”, tendo por base dois polos principais: o MEO Arena, onde se realiza o Festival em espaço coberto, e o Terreiro do Paço, como espaço de atuações, nos dias anteriores.

A ligar um e outro, “teremos essa extensa margem de rio, a que chamamos ‘avenida da Eurovisão’, cuja oferta já instalada será potenciada e valorizada com novos elementos efémeros e definitivos”, acrescentou o mentor do futuro estudo, cujas conclusões “serão entregues à RTP”.