Milhares de crianças estão a ser exploradas em plantações de tabaco na Indonésia, um dos cinco maiores produtores mundiais de tabaco, alerta a Human Rights Watch, num relatório divulgado esta terça-feira, onde aponta para os riscos que correm estas crianças.

Expostas a nicotina, a químicos tóxicos e a ferramentas perigosas, debaixo de um calor extremo e carregando grandes pesos. É assim que trabalham milhares de crianças na Indonésia, apesar de a lei proibir que menores de 18 anos desempenhem trabalhos perigosos, denuncia a organização, num relatório de 119 páginas.

Os investigadores basearam-se numa extensa investigação em quatro províncias da Indonésia (três das quais responsáveis por 90% da produção de tabaco no país), e entrevistaram 132 crianças entre os oito e os 17 anos que trabalham nas fazendas de tabaco, e perceberam que a maioria das crianças começou a trabalhar aos 12 anos, sendo que há crianças que logo aos oito já estão “expostas a sérios riscos de saúde e segurança”, lê-se na publicação da organização internacional.

Os perigos, de acordo com o relatório agora divulgado, incluem envenenamento por nicotina decorrente do contacto com as plantas e as folhas do tabaco, bem como da exposição a pesticidas e outros produtos químicos utilizados nas plantações. Concluem ainda os investigadores que poucas das crianças entrevistadas receberam indicações sobre medidas de segurança. A maioria desconhecia os riscos para a saúde. Os sintomas descritos pelas crianças – vómitos, náuseas e tonturas – são consistentes com envenenamento por nicotina, que ocorre quando os trabalhadores absorvem nicotina através da pele.

“As tabaqueiras estão a fazer dinheiro com a saúde dos trabalhadores infantis na Indonésia”, afirmou Margaret Wurth, investigadora da organização Human Rights Watch e co-autora deste relatório. “As companhias de tabaco não devem contribuir para o uso de trabalho infantil perigoso.”

A Indonésia é o quinto maior produtor mundial de tabaco, com mais de 500 mil plantações de tabaco, que alimentam sobretudo o mercado interno, mas também o externo. E apesar das leis nacionais e internacionais proibirem a realização de trabalhos perigosos por menores de 18 anos, no caso em específico da Indonésia a lei não proíbe que menores de 18 anos trabalhem em plantações de tabaco o que faz com que milhares de crianças acabem por fazê-lo, expostas a grandes riscos de saúde, frisa a Organização.

A Human Rights Watch recorda ainda estudos que demonstram que um adulto não fumador que trabalhou em plantações de tabaco apresenta os mesmos níveis de nicotina no corpo que um fumador. E lembra que a nicotina é uma toxina e, como tal, a exposição à mesma tem sido associada a efeitos adversos no cérebro e que nem o equipamento de proteção é suficiente para eliminar os perigos.

O estudo termina com recomendações ao governo da Indonésia, às empresas de tabaco e a todos os agentes desta indústria: as autoridades do país devem proibir imediatamente as crianças de executar quaisquer tarefas que envolvam o contacto direto com o tabaco e as empresas devem identificar e acabar com o trabalho infantil perigoso nas fazendas de tabaco.