Ele não quer acreditar. Estava seguro, a transbordar de confiança, que quando a altura chegasse ia ser ele a receber a notícia, o telefone a tocar seria o dele. Por isso ficou arrasado.

Os funcionários da Gestifute estão num reboliço, a conversa de corredores é que ele, um de dois bens mais preciosos (porque também há Cristiano Ronaldo), o prized asset, como dizem os ingleses, está destruído. “Ele chorou! Ele chorou!”, espalham a notícia, parece que o mundo vai acabar. O que José Mourinho mais espera que aconteça não se concretiza e o português nem quer acreditar. Passa a noite como se fosse de dia, não dorme, troca a almofada pela companhia do telemóvel.

Liga a tudo quanto é gente para que possa saber mais coisas. Há chamadas feitas para Jorge Mendes, perguntas espalhadas por outros representantes da Gestifute, confirmações pedidas a jornalistas britânicos. Mourinho está em Espanha, enfiado no quarto de hotel, a horas de mais uma partida com o Real Madrid, e não sossega. Do clube que lhe interessa não sabe de nada — ninguém o informa, lhe dá uma explicação ou lhe envia, sequer, um sms. Não suporta a ideia, está incrédulo com a notícia que o 7 de maio de 2013 lhe dá. O novo treinador do Manchester United não é ele. É David Moyes.

O português sente, chora e fica perplexo. Porque não era com aquele escocês que Alex Ferguson, o treinador que estava há 29 anos a tomar conta da equipa, jantava e partilhava uma garrafa de vinho no final dos jogos entre eles. Era a Mourinho, e não a Moyes, a quem Ferguson, um homem duro e conhecido pelo feitio difícil, dirigia elogios e palavras simpáticas. E certamente não era Moyes o treinador que, nas 11 épocas anteriores vence 17 títulos, incluindo duas Liga dos Campeões e campeonatos em quatro países diferentes. O escocês não ganha nada com o Everton.

MADRID, SPAIN - FEBRUARY 13: Head coach Jose Mourinho (R) of Real Madrid stands besides Sir Alex Ferguson, manager of Manchester United, during the UEFA Champions League Round of 16 first leg match between Real Madrid and Manchester United at Estadio Santiago Bernabeu on February 13, 2013 in Madrid, Spain. (Photo by Jasper Juinen/Getty Images)

Foto: Jasper Juinen/Getty Images

Mais do que o United preferir um técnico que rima com secura de títulos, o que arrasa Mourinho é Ferguson optar por Moyes. “O português estava seguro de que Sir Alex lhe telefonaria no caso de ele tomar uma decisão destas, ou pelo menos para o informar. Mourinho, incentivado pelo seu agente dedicado, acreditara que Ferguson era, além de aliado, seu amigo e padrinho. Acredita que os unia uma relação de confiança genuína”, escreve Diego Torres, um jornalista do El País, que parece ter ouvidos em tudo quanto é lado no clube, em “A Guerra de Mourinho”. O livro arranca com esta história e nós também porque, três anos volvidos, o treinador pode sorrir.

Ou chorar outra vez, mas de alegria, pois é o novo treinador do Manchester United. O português passou menos de seis meses no desemprego, desde o 17 de dezembro que serviu para o Chelsea, pela segunda vez, rasgar um contrato com Mourinho devido ao 16.º lugar e às nove derrotas na Premier League. Os ingleses parecem gostar tanto do português como o treinador gosta de Inglaterra e não é desta que Mourinho vai experimentar a Ligue 1 ou a Bundesliga. No sir, o treinador que tem 257 jogos feitos em competições inglesas vai continuar a carreira por lá.

Bastou ao United passar duas temporadas com Louis Van Gaal para se redimir da decisão que não tomou em 2013. Porque o holandês, que é tão ou mais carrancudo quanto era Alex Ferguson, desiludiu na mesma proporção em que o escocês arrancou sorrisos — muito. O futebol foi aborrecido, com muito passe só por passar, os jogadores aborreceram-se com os banhos táticos nos treinos e os adeptos aborrecidos ficaram com o que viam da bancada.

Um quarto e um quinto lugar no campeonato e uma pálida imagem na Liga dos Campeões (na qual o clube não estará na próxima época) com mais de 320 milhões de euros gastos em contratações empurraram o holandês, de 64 anos, para fora de Old Trafford. Nem a Taça de Inglaterra conquistada há dois dias o segurou.

Por isso entra José Mourinho no clube que lhe é especial. Não apenas pela afinidade que tem — ou tinha — com Alex Ferguson, mas pelos pulos e pela correria que, em 2004, faz em Old Trafford, quando celebra como um miúdo o golo que Costinha marca quase no fim da segunda mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, com o FC Porto. Ou pelo facto de o primeiro jogo que o português faz em Inglaterra ser contra o Manchester United (ganha 1-0, com o Chelsea, em Londres). Foi no clube londrino que o português fez muito por ser da forma como é hoje.

Um treinador mais do que popular, com gatilho fácil para disparar respostas mordazes, frases mediáticas, polémicas com jogadores e outros treinadores. Para ser o centro das atenções. É tão especial que os ingleses foram atrás quando Mourinho se autointitulou de Special One. Foi o português que chamou “especialista em falhanços” ao treinador que já venceu um campeonato inglês sem derrotas (Arsène Wenger, com o Arsenal, em 2003/04). Foi Mourinho quem culpou os jogadores do Chelsea por maus resultados, dizendo que talvez eles não fossem assim tão bons e que ele os tinha feito jogar acima das suas possibilidades. E foi ele que um dia espetou um dedo no olho de um treinador adjunto do adversário. “Um treinador do United não faria isso. O Mourinho é um treinador muito bom, mas não diria mais, a sério”, avaliou Bobby Charlton, quando lhe perguntaram sobre o incidente entre o português e Tito Vilanova, do Barça.

Charlton está para o United como Eusébio para o Benfica. É uma lenda, das que fala e toda a gente ouve e que tem uma opinião que conta muito no clube, onde, como jogador, fez 17 épocas e marcou quase 250 golos. “Ele não gosta muito dele”, acrescentou também, na altura, ao falar sobre a suposta admiração de Alex Ferguson por José Mourinho. O português, lê-se no tal livro de Diego Torres, não gostou de ouvir. Mas o que Bobby Charlton não disse, mas percebeu-se, foi que Mourinho não era um técnico à moda do Manchester United, um clube correto, cavalheiresco, forreta em guerras e que atua como um todo.

Tudo o que o português não é quando sente que é preciso espicaçar e defender os seus interesses: tem os mind games, dispara bocas nas conferências de imprensa, acusa adversários, compra batalhas. “O problema é que quando as coisas não correm bem a Mou, ele não faz a política de clube. Faz a política de José”, opinou o jornalista, que escreveu 259 páginas sobre o português. Agora, contudo, os interesses do treinador e do clube terão de coincidir. O United está moribundo e ainda a fazer o desmame das décadas com Alex Ferguson e uma era de conquistas. José Mourinho vai contar um ano sem ganhar títulos e já lá vão os anos em que andava perto de tocar em outra Liga dos Campeões. Ambos querem e precisam de renascer. Os dois precisam de ganhar, outra vez.

PASADENA, CA - JULY 20: Zlatan Ibrahimovic (R) striker of Inter Milan walks trains as coach, Jose Mourinho looks on during team practice at the Rose Bowl stadium on July 20, 2009 in Pasadena, California. (Photo by Kevork Djansezian/Getty Images)

Foto: Kevork Djansezian/Getty Images

Daí que o treinador tenha ficado à espera do clube e o clube tenha, alegadamente, pagado mais de 5 milhões de euros só para Mourinho não considerar outras propostas. A imprensa inglesa diz que o United está disposto a ir quase até aos 250 milhões de euros para o português ir às compras.

E diz-se também que já agarrou Zlatan Ibrahimovic, o sueco que partilhou uma época com o treinador no Inter de Milão (2008/09) e morreu de amores por ele, o que não é fácil para este avançado. “Nunca conheci um treinador que soubesse tanto sobre os adversários. Vai até ao tamanho do pé do terceiro guarda-redes. Este tipo diz tudo o que pensa, gosto dele. É o líder do seu exército. Enviava-me sms a toda a hora, a saber como eu estava. Transformou-me, passei de gato a leão, arrancou de mim coisas que ninguém conseguiu antes”, confessou o sueco, entre a sua autobiografia e uma entrevista à BBC.

Zlatan vê em José Mourinho a luz que nunca viu em Pep Guardiola e falar do sueco obriga a que falemos também do treinador espanhol. Porque o avançado não gostou da época (2009/10) que passou com ele no Barcelona e, sempre que pode, critica o catalão por tudo e mais alguma coisa. Ibrahimovic deverá então reencontrá-lo e poderá até cruzar-se com ele na rua, pois Pep vai treinar o Manchester City. Mas se este duelo fará faísca, outro vai atear um incêndio, porque uma das razões para Guardiola sair do Barcelona ao fim de quatro temporadas foram as guerras de palavras e o clima incendiário que Mourinho promoveu entre o Real Madrid e o Barça, enquanto esteve em Espanha, de 2010 a 2014.

E a coincidência é que não vão demorar a rever-se com os novos clubes — a 25 de julho jogam em Pequim, na China, no International Champions Cup, uma espécie de Liga dos Campeões da pré-época. É de chorar por mais.