O desalojamento de vários grupos de okupas de uma antiga agência bancária em Barcelona levou a protestos violentos nas ruas do bairro de Gràcia. Por três noites consecutivas, a polícia teve de intervir para dispersar grupos de manifestantes que ergueram barricadas, pegaram fogo a caixotes do lixo e destruíram lojas e bancos numa das zonas mais nobres da capital da Catalunha. Na quinta-feira à noite, já com os ânimos mais calmos, a população saiu à rua para uma cassolada, um protesto pacífico com recurso a tachos e panelas.

Depois de cinco anos ocupado ilegalmente, o Banc Expropiat foi esvaziado na segunda-feira de manhã. Os ativistas que se encontravam no local não gostaram de ver o forte dispositivo policial que ali se deslocou e convocaram de imediato uma manifestação para essa noite. O protesto começou por ser pacífico, mas rapidamente assumiu proporções pouco habituais para Gràcia, um bairro central de Barcelona e geralmente pacífico.

O Banc Expropiat era um projeto desenvolvido por vários grupos que ocupava uma antiga dependência da Caixa Tarragona, encerrada em 2011 na sequência da absorção deste banco pela Caixa Catalunya e de uma reorganização dos serviços. Os ativistas instalaram-se no local em outubro de 2011 e, desde então, desenvolveram uma programação cultural e social que incluía uma biblioteca, um banco alimentar, sessões de cinema, apoio a pessoas carenciadas, conferências anticapitalistas e estudo sobre formas alternativas de vida, entre outras coisas.

Em 2013, o Caixa Catalunya vendeu o espaço a uma agência imobiliária, que tem tentado expulsar os okupas desde o primeiro minuto. A ordem judicial para o desalojamento foi dada no início de 2015, mas o presidente da câmara da altura conseguiu convencer o proprietário a não expulsar os grupos dali, a troco de uma renda anual de 66.500 euros paga pela autarquia. Com essa decisão, o anterior autarca, Xavier Trias, queria evitar os confrontos que estão a ocorrer agora e que lhe seriam potencialmente prejudiciais para as eleições autárquicas, que se realizaram a 24 de maio do ano passado.

Mesmo com este problema abafado, Trias acabou por perder as eleições e a nova equipa da câmara, liderada por Ada Colau, não quis renovar o acordo obtido com a agência imobiliária por considerar que o preço era demasiado caro. “O executivo municipal atual ofereceu-se para servir de mediador entre o coletivo e o proprietário do imóvel e sempre esteve disponível para encontrar espaços alternativos onde o projeto se pudesse desenvolver”, esclareceu a plataforma Barcelona En Comú, que suporta a câmara de Barcelona, num comunicado emitido na quinta-feira. A autarquia sublinha que todas as propostas foram “recusadas legitimamente pela assembleia do Banc Expropiat, que por razões políticas não aceita qualquer mediação”.

Ironicamente, a bomba deste desalojamento rebentou nas mãos de Ada Colau, que antes de chegar à câmara era uma importante ativista anti-despejos e porta-voz da Plataforma Afetados pela Hipoteca (PAH), que luta há anos contra o despejo de pessoas que deixaram de ter condições para pagar aos bancos. Esta sexta-feira, na reunião camarária, Colau afirmou que apenas quer “o melhor” para Gràcia, mas pediu “proporcionalidade” à polícia na resposta aos protestos. Ironicamente também, o assunto acabou por voar como um bumerangue para Xavier Trias, o anterior presidente da câmara, que está desde quinta-feira a ser investigado pelo Ministério Público por suspeita de mau uso dos dinheiros públicos (ao ter autorizado o pagamento da renda do espaço durante um ano).

No espaço de dois anos, esta é já a segunda vez que Barcelona enfrenta problemas relacionados com o despejo de okupas. Em 2014, a empresa municipal de transportes (proprietária do edifício) e a câmara decidiram expulsar os ativistas de Can Vies, um espaço que estava ocupado ilegalmente há quase vinte anos. Na altura, os protestos foram bastante mais violentos do que estes de Gràcia: duraram muitos dias e ocorriam durante muitas horas. O assunto ganhou tal proporção que o chefe dos Mossos d’Esquadra (a polícia catalã) teve de pedir a demissão.