Que delícia. Olha-se para a mesa e está cheia, são travessas de vários tipos de carne, enchidos e feijão a lutarem por espaço com copos de vinho. Está apertado, tanto em cima como à volta da mesa, onde se sentam o pai da família, o amigo de anos e anos, os três filhos e um intruso, o jornalista. Os mais novos escutam mais do que falam, as palavras têm-nas os graúdos. É janeiro e as mangas curtas denunciam que devem estar pela Argentina, para onde foram para fugirem do inverno espanhol. A culpa de estarem juntos é o sonho de qualquer jornalista: juntam-se para uma churrascada, um repasto à antiga, a melhor desculpa para todos estarem relaxados e bem-dispostos com a vida. A diferença é que cada um tem um microfone posto.

O melhor de tudo isto é que o tipo que mais abre a boca para falar é Diego Simeone. Os restantes calam e comem, literalmente. Há um que vai participando de vez em quando. É Gustavo López, amigo do anfitrião, um quarentão que em tempos foi um extremo rápido e habilidoso, que acumulou mais de 30 jogos pela seleção argentina. O primeiro pingue-pongue da conversa é deles e arranca pelo segundo:

– Se tivesse tido metade do pulmão que este tinha… Teria sido grande.

– Alguma vez vos contei que dormíamos no mesmo quarto, na seleção?

– Toda a vida. Desde 1994 até 2001.

– Vamos trabalhar juntos, de certeza.

– O que se passa é que não sei se vai dar. Na charla vai-se começar a notar, pouco a pouco, que sei muito mais de futebol do que ele.

– [Ri-se]. O importante é ter o maior número possível de pessoas que saibam de futebol.

E ele, Simeone, sabe muito. Há quatro anos e meio pegou numa equipa de rastos, mais perto de descer de divisão que subir para a Europa, e fez magia. Nessa época venceu a Liga Europa, antes de roubar a Super Taça Europeia, conquistar o campeonato espanhol, ir à final da Liga dos Campeões e montar uma equipa contra a qual ninguém quer jogar. São guerreiros, onze homens que jogam melhor sem bola do que com ela e são os melhores do mundo a fazê-lo. Porque uma das leis universais do futebol é que o jogador, seja ele qual for, passa 97% do tempo sem tocar na bola e Diego Simeone especializou-se nisso.

Quem joga no Atlético de Madrid sabe que “o esforço é inegociável” para o treinador. Por isso todos correm, lutam, esforçam-se e trabalham mais do que quem joga por outra equipa. E fazem com que o clube esteja pela segunda vez em três temporadas na final da Liga dos Campeões (sábado, 19h45). Há dois anos, os colchoneros perderam com o Real Madrid (4-1) depois de estarem a ganhar durante quase uma hora. Esta final será de novo contra os merengues de Cristiano Ronaldo e Pepe e, no Atlético, estão praticamente os mesmos que estiveram em Lisboa (incluindo Tiago). Daí que, mesmo com ano e meio de velhice, muito do que sai da boca de Simeone no tal churrasco ainda valha muita coisa.

“Podem jogar mal? Claro. Mas não há problema. É jogar a primeira parte, falar em duas coisas e eles voltam lá para dentro e jogam bem. Porque são competitivos. Se, num plantel, tenho 14, 15 ou 16 jogadores competitivos e que queiram competir de verdade, fica mais fácil. Transmitimos-lhes uma ideia e tivemos a sorte de encontrar tipos nobres, porque é muito difícil. Uma vez tive uma conversa com Guardiola e retive uma coisa que ele me disse: ‘Não sabes a sorte que tenho por ter jogadores que gostam de jogar à bola’. É fabuloso. Porque a essência do futebol é encontrar tipos que queiram ganhar, que queiram competir, que dão o máximo nos treinos se não os pões a jogar”.

O Atlético de Madrid é a 12.ª equipa que menos tempo tem a bola em jogos da Liga dos Campeões. A média da equipa, esta época, está nos 47,5%.

“Não gosto de ter muita posse de bola. Serve para que o rival se acomode. Se a posse for boa como consequência de uma mudança de ritmo, adoro-a. É como escolher entre um filme romântico e um de ação. Eu gosto da película de ação”.

Quem olhar só para os números vê que, desde que saiu vivo da fase de grupos, o Atlético ultrapassou todas as eliminatórias apenas com um golo de vantagem sobre o adversário. Talvez porque, à equipa, e a Simeone, não interessa marcar muito para saírem vivos de uma batalha.

“O futebol é tão brilhante que tanto podes perder tudo como ganhar tudo. Depende se consegues, ou não, alhear-te de todos os floreados que te rodeiam para jogares à bola. Não tenho a intranquilidade de como os meus vão jogar uma partida de ou matas, ou morres. Porque nesses casos, os meus morrem. Não têm medo da morte. Esse é um passo que os demais não dão”.

Quando uma derrota pode valer muito mais do que uma vitória.

“Nós sabemos que somos piores que eles, essa é a nossa virtude. No dia em que nos acharmos melhores, entramos em campo e marcam-nos quatro golos. Jogamos de acordo com a nossa capacidade. Quando fomos ao Bernabéu jogamos com uma formação afastada da nossa capacidade. Tecnicamente, correu tudo bem, Koke, Gabi, Diego… Só que o Real jogou como jogamos normalmente. Eliminaram-nos, 3-0, ganharam bem. Jogámos para ter a bola, como não era costume. Essa derrota foi genial para lhes pegarmos depois no Calderón, para a liga”.

O Atlético Madrid é a segunda equipa que mais roubos de bola tenta e faz (37.8 e 25.6), por jogo, nesta Champions. Só fica atrás do BATE Borisov, que se ficou pela fase de grupos. É um reflexo de que os jogadores estão muitas vezes no sítio certo à hora certa.

“Um treinador precisa de meter quem joga melhor, mas como consequência do que a equipa necessita. Se dás prioridade às individualidades, acontece-te o que se vê em muitas equipas, que têm uns quantos bons jogadores e não jogam nada. Quando tempo tem um futebolista a bola no pé? Quatro minutos, três e meio, se fores o Xavi ou o Iniesta. Por isso pergunto: quão importante é a ocupação de espaços no futebol? [repete a pergunta] Passas 80 e tal minutos a ocupar espaços no campo e isto não é a PlayStation.”

A diferença do Atlético antes e depois do treinador argentino foi do dia para a noite. Mas ele gaba os jogadores que tem e o que eles fazem.

“Os jogadores é que fazem os treinadores serem melhores. Nós temos ideias, mas quem trabalha são eles. Se eles tomam uma boa decisão a partir do que lhes dás, ótimo. A diferença entre mim, o Ancelotti e qualquer treinador de segunda divisão está na experiência. Estou de acordo que podes ser melhor ou pior em transmitir uma informação ao jogador. Mas, em termos de conhecimento de futebol, somos todos parecidos”.

O Diego Simeone que salta, berra, gesticula, se vira “éne” vezes para os adeptos e puxa por eles, que parece uma pulga elétrica à frente do banco, é o Simeone genuíno.

“Há jogadores que jogam em muitos sítios e acabam por não jogar em lado nenhum. O futebol é muito amplo. Não importa onde jogues, tens que estar preparado para jogar. Haverá um dia em que um treinador te adora e outro te diz que não gosta das tuas características. Não te podes fechar. Não podes pensar que és bom porque um treinador gosta de ti ou que és mau por outro não gostar das tuas características. Não. No futebol há lugar para todos. Competir não é só jogar à bola, é competir pela vida. Há quem diga que a vida e o futebol se separam, é mentira. Eu sou no futebol como sou na vida, a relação é muito lateral”.