O selecionador não gosta. Nada mesmo. Não gosta que Éder seja um mal-amado — chamou-lhe Fernando Santos, na conferência onde antecipou o jogo com a Noruega, um “patinho-feio” para os adeptos –, não gosta que se discuta se André Silva (FC Porto) é melhor ou não que o ponta-de-lança do Lille, e menos ainda terá gostado de ver e ouvir (logo aos três minutos de jogo) Éder ser vaiado no estádio do Dragão. Mas afinal, o que é que ele fez de errado? Será que falhou um golo com a baliza escancarada? Será que tropeçou na bola (ou nos próprios pés, quiçá) quando chegou a altura do último desvio? Não. Simplesmente fizeram-lhe um passe, recebeu-o longe da área, no meio-campo ofensivo de Portugal, e Éder passou a bola de volta. Bem. Mas foi vaiado, ainda assim.

Nada lhe corria bem. Ele bem corria, mas em vão. A primeira ocasião de golo que Éder teve foi aos 15′, quando Portugal já vencia por 1-0. Do golo extraordinário (ou “à Quaresma”) que Quaresma fez, adiante lhe falarei. Primeiro, aquele que Éder não fez. Cédric subiu pela direita, correu que cansou só de ver, deixou o lateral opositor (Trondsen) para trás, cruzou da linha de fundo para o primeiro poste, mas Éder — que até se movimentou bem, antecipando-se aos centrais Hovland e Strandberg — desviou para fora. O que se escutou depois? Sim, assobios. Não estava fácil a vida para Éderzito António Macedo Lopes no relvado. Nem fora dele.

O cronómetro no pulso do árbitro irlandês Padraig Sutton avançava, mas não havia maneira de avançar o placard.

Pouco antes de Raphael Guerreiro marcar o 2-0 (também lhe falarei dele mais adiante), Fernando Santos quis motivar o único ponta-de-lança de raiz que convocou para França. O selecionador quer ver Éder a mostrar a luva branca (mostrou-a por seis vezes no Lille e ganhou com isso um contrato com os franceses, que o compraram ao Swansea por uma boa maquia) no Euro, mas preferencialmente antes dele, nos três encontrou que faltam até lá — o primeiro foi no Dragão, com a Noruega; seguem-se a Inglaterra, em Wembley, e a Estónia, na Luz. Aos 60′, depois do capitão Ricardo Carvalho (85 jogos com as quinas ao peito) receber a indicação para sair, o camisola 6 percorreu o relvado da defesa até ao ataque, puxou pelo braço esquerdo de Éder, ajeitou-lhe a braçadeira cá em cima, acariciou-lhe a nuca e saiu. Ao vigésimo quarto jogo depois da estreia, Éder era capitão. Se isto não o motivasse, nada o motivaria.

Resultou. Foi aos 71′. A jogada do 3-0 até começou nele, Éder, que recuou quase até ao centro do meio-campo para receber a bola, passou-a rapidamente para o lado, e noutro ápice esta chegou à direita, a João Mário. Éder correu. Para a área. João Mário cruzou rasteirinho desde a direita, Éder (entretanto chegado ao destino) esquivou-se no centro da área entre os centrais Hovland e Strandberg, e desviou a bola na cara do guarda-redes Jarstein. Era o segundo golo de Éder em 24 jogos pela Seleção. O último fê-lo vai para um ano, contra a Itália, em junho de 2015. Mas Éder não queria celebrar. Nem da luva branca puxou — se é que a tinha no Dragão. Mas a maralha da Seleção abraçou-se toda a ele. Querem-no goleador e não cabisbaixo.

Pouco depois, aos 74′, quase, quase que Éder molhava a sopa novamente, que é como quem diz, bisava. A bola chegou-lhe vinda da direita, tirou o central Strandberg da frente com um movimento de corpo (bom, diga-se) e rematou de pronto, com a canhota. Jarstein defendeu por instinto, com os pés. Temos ponta-de-lança? Esperamos. Todos.

O encontrou ficou-se nos 3-0. Mas como o prometido é devido, há que descrever os primeiros dois golos – e que golos foram.

Primeiro, recuemos até à primeira parte e aos 13′. Não foi um golo, foi um golão. De quem? De Quaresma, hoje regressado ao Dragão, onde fez muitos golos assim. O que é “assim”? É simples de contar: o extremo do Besiktas (campeão turco em 2015/2016) recebeu a bola na esquerda do ataque, enfrentou o lateral Linnes no um-contra-um, ameaçou que ia para fora, para a linha de fundo, mas foi para dentro, e mal pisou a área, rematou. O guarda-redes Jarstein nem se fez à bola. Não valia a pena. Ela entrou mesmo na “gaveta”, no canto superior direito da baliza norueguesa.

Agora, avancemos. Até até 65′. O golo é de Raphael Guerreiro, num livre sem espinhas. Adrien ganhou (“ganhou” é o termo a usar; foi bem ganho, mas falta não houve) um livre à entrada da área, ligeiramente descaído para a direita e a pedir uma canhota. Chegaram-se à bola dois lusodescendentes, o próprio Adrien, que acarinhou a redondinha e a pousou no relvado, e Raphael Guerreiro. Pedia-se uma canhota, não é verdade? E foi a canhota que se chegou à frente, fazendo a bola sobrevoar a barreira e entrar lá onde a coruja faz o ninho, mesmo, mesmo no canto superior direito da baliza de Jarstein — que mais uma vez, tal como no golo de Quaresma, nem se faz ao remate. Para quê?…

Fernando Santos vê na Noruega uma equipa com estilo de jogo (mais “musculado”, mais defensivo) semelhante ao da Islândia, primeiro adversário de Portugal no Euro 2016, a 14 de junho, no estádio Geoffroy-Guichard, em Saint-Étienne.

A Noruega não vai lá estar, em França. Mas fez uma belíssima fase de qualificação no Grupo H, terminando em terceiro lugar — e a um ponto só do segundo classificado (e último apurado do grupo), a Croácia. Em primeiro lugar qualificou-se a Itália. A Islândia vai. Mas ao contrário da Noruega (cuja dor de cabeça maior para os centrais esta noite foi um tal de Joshua King — formado no Manchester United, mas que joga hoje no Bournemouth da Premier League, onde fez sete golos em 35 jogos), contra a Islândia o melhor é levar Paracetamol de sobra para Pepe e Carvalho.

O ataque dos “vikings” é dos bons. Tem Gylfi Sigurdsson, que não se afirmou no Tottenham de André Villas-Boas, mas, regressado ao Swansea, é hoje o maior desequilibrador do clube do País de Gales. Tem também, claro, os goleadores Kolbeinn Sigþórsson (no Nantes, de França) e Alfred Finnbogason (o melhor marcador da Eredivisie holandesa em 2013/2014, hoje no Olympiakos de Marco Silva). E isto sem esquecer o “velhinho” Gudjohnsen, útil ao Chelsea de Mourinho e ao Barcelona de Guardiola, e que hoje, com 37 anos, ainda é útil a Lars Lagerbäck.

Vamos acreditar que a Islândia é como a Noruega — e que Sigurdsson, Sigþórsson, Finnbogason e Gudjohnsen vão ser como King. E vamos acreditar que Éder, caso jogue, com ou sem a braçadeira, vai marcar em França.