Pedro Passos Coelho teme que o otimismo do atual chefe do Governo, António Costa, dê lugar a um excesso de confiança na “sorte” e acabe por resultar em “azar”. Num artigo de opinião publicado esta terça-feira no Jornal de Negócios, num tom um tanto paternalista, o presidente do PSD socorre-se da sua experiência governativa para deixar uma série de conselhos ao líder socialista. Aqui ficam as sugestões de Passos.

Escolher com “margem de flexibilidade”

O tom é de aviso: “Quando um decisor define o quadro da política económica que pretende prosseguir é importante que as suas escolhas possam conter margem de flexibilidade e de segurança para acomodar respostas a alguns choques mais adversos”. Com a experiência de quem já foi primeiro-ministro, e passou pela tarefa de rever expectativas em baixa, Passos diz que é “muito importante” deixar “espaço” para “correções de política que possam revelar-se indispensáveis”.

Não confiar só na “sorte”

Quando a economia está mais vulnerável, há que evitar “a atitude otimista de simplesmente confiar na sorte”, porque ela “pode dar origem a um grande ‘azar’”, escreve Passos. Aqui o ex-primeiro-ministro vai mais longe e diz que esta é, “exatamente”, a situação em que se encontra Portugal. Não atender a este conselho é uma “grande irresponsabilidade”, defende.

Manter e reforçar as reformas estruturais

Passos Coelho recupera primeiro o passado para explicar que os “tempos de apertos muito graves” foram indispensáveis para recuperar a confiança dos mercados e a autonomia de financiamento. Mas depois lança o conselho: neste momento a vigilância sobre Portugal é “grande” e por isso há que “manter e reforçar as reformas estruturais”.

Lutar por melhorar os ratings

“É totalmente desolador que os responsáveis governamentais exibam satisfação por verem inalteradas as notações das agências de rating ou por estas não desgraduarem Portugal”, lamenta Passos Coelho. O conselho é ao contrário: “Devíamos era estar a sair de ‘lixo’ e a qualificar o investimento na economia portuguesa”.

Cuidado com o “equilibrismo”

“O azar de as coisas não correrem bem dependerá menos do acaso e mais das decisões adotadas”, alerta o ex-primeiro-ministro. E aqui o Governo deve ter cuidado quando fala “a duas vozes, uma para dentro, satisfazendo clientelas políticas radicais, e outra para fora, procurando acalmar a desconfiança crescente dos investidores e dos parceiros”. Isto só “complica ainda mais a situação”, garante Passos. É que “o excesso de ‘habilidade’ e de ‘equilibrismo’ não são disfarçáveis e contribuem para acentuar uma imagem negativa de ‘chico-espertismo’.

Não vale a pena dissimular

“O que nos afasta da repetição deste tipo de desastre não é a retórica anti-austeritária nem a dissimulação económica e financeira fundada em agravamentos de impostos, mas antes a ação reformista e determinada”, defende Passos. Por outras palavras, não vale a pena falar contra a austeridade ao mesmo tempo que se disfarçam subidas dos impostos. Até porque já não serão necessários “grandes sacrifícios” como os do passado recente, argumenta. Basta “uma linha coerente para a política económica, e “não ceder ao curto prazo, aos interesses corporativos instalados nem ao radicalismo, também ajuda”, continua.

Uma dose de bom senso

Passos remata o texto com um pedido básico: “É meio caminho andado ter bom senso para encarar a realidade e alterá-la com equilíbrio”. Só assim será possível “descartar que o azar nos possa bater à porta com mérito”, avisa.