Nos dias que correm, são raras as pessoas que dormem as horas necessárias diariamente. Numa sociedade cada vez mais preocupada com a saúde e bem-estar, várias são as empresas que tentam lucrar com os hábitos de sono da população.

Entre “retiros de sono” em hotéis luxuosos (que incluem jantar e um filme sobre sono), capas de edredom que monitorizam o ciclo de sono e máscaras para dormir altamente inflacionadas para uma sesta descansada, a escolha é muita.

A jornalista, editora e presidente do The Huffington Post Media Group, Arianna Huffington, editou “The Sleep Revolution”, um livro em que explica a importância de dormir oito horas por dia. A premissa principal é que só dormindo uma noite tranquila é que se atinge o sucesso.

Esta é, certamente, uma teoria, que muitos de nós gostaríamos de apoiar, mas que, infelizmente, não conseguimos.

O jornal britânico The Guardian desmontou a tese e foi perceber onde é que ela falha. Arianna Huffington é uma mulher muito ocupada e, como qualquer mulher ocupada, sabe a importância de delegar. A jornalista faz-se rodear por uma equipa de cerca de dez assistentes que tratam de assuntos profissionais e pessoais que lhe roubariam muito tempo diário. Quando chega ao escritório, Huffington nem sequer perde tempo a abrir a página do jornal que edita, uma vez que os assistentes já trataram do assunto. A “A-Team”, como Huffington lhes chama, tem ordenados baixos e muitos dos seus membros têm outros trabalhos em paralelo. Enquanto a sua equipa abdica de horas de sono, Huffington dorme oito horas e escreve livros e artigos sobre o assunto.

Mas para a vasta maioria da humanidade, essa não é uma opção. Dormir o suficiente nem sempre é uma questão de escolha. Vários estudos apontam que as condições socioeconómicas influenciam a qualidade do sono. Pessoas das camadas socioeconómicas mais baixas dormem pior que pessoas de um nível mais alto. As causas podem ser por preocupações em relação a segurança, fome ou turnos de trabalho irregulares.

Há, também, investigações que mostram que há uma diferença racial na quantidade de horas de sono. Nos Estados Unidos, os cidadãos afro-americanos dormem uma média de 6,05 horas por noite, comparado com 6,85 horas de cidadãos brancos. Os investigadores acreditam que pode ser pelo stress causado pela discriminação. Nos Estados Unidos, o grupo demográfico que melhor dorme são as mulheres brancas e ricas – precisamente o grupo em que Huffington se insere.

Ao contrário do a jornalista prevê, a revolução do sono pode passar precisamente por dormir menos tempo por dia e reduzir os impactos que isso pode ter. O exército já está a estudar maneiras de contrariar a privação de sono. As investigações estão a tentar descobrir os efeitos de ampaquinas, um tipo de medicamento que modula os neurotransmissores no cérebro, na reversão dos efeitos da privação de sono. O caminho parece estar a ser feito no caminho oposto do que Huffington sugeriu e não dormir e manter o corpo perfeitamente funcional vai passar a ser um luxo a que poucos têm acesso.