O Governo de Macau desistiu de entregar por ajuste direto o projeto de reconstrução do antigo Hotel Estoril da cidade ao arquiteto português Álvaro Siza Vieira, por ter decidido abrir um concurso público.

Segundo afirmou o secretário que tutela a Cultura no Governo de Macau, Alexis Tam, o arquiteto português já foi informado da decisão e será convidado a participar no concurso público.

“Vai ser convidado, em vez de ser adjudicação direta. [O ajuste directo está] de acordo com a legislação. Só que isso foi a ideia do ano passado. Hoje em dia, a situação é diferente porque muitos arquitetos querem concorrer. No fim, é uma questão política”, afirmou Alexis Tam, citado hoje pela Rádio Macau.

Segundo o secretário, “em Macau também há bons arquitetos”, um concurso público é “mais transparente”.

O Governo de Macau convidou Siza Vieira em abril do ano passado para reconverter o edifício do antigo Hotel Estoril num centro de artes e escolas artísticas direcionado para os jovens.

O arquiteto português defendeu publicamente a demolição e a não manutenção da fachada do edifício, associado ao início da exploração de casinos pelo magnata Stanley Ho e, portanto, à história da maior indústria do território.

Surgiu então um debate sobre a requalificação do edifício, que está abandonado desde os anos de 1990, e o seu eventual valor patrimonial e histórico, tendo o Governo de Macau lançado uma consulta pública e encomendado um inquérito.

Em setembro, a associação de urbanistas de Macau Root Planning lançou uma petição para pedir a avaliação do valor patrimonial do antigo hotel Estoril e piscina adjacente.

A 15 de março deste ano, o Conselho do Património Cultural de Macau decidiu que o edifício não será classificado.

Um dos conselheiros, o arquiteto Carlos Marreiros, disse nesse dia aos jornalistas que foi recolhida “muita informação e documentação” pelas autoridades e pelo Conselho e que a estrutura que existe atualmente, na praça do Tap Seac, no centro de Macau, é o resultado de acrescentos a uma construção modernista original dos anos de 1950 que “tinha grande qualidade”.

No entanto, “tudo isso se desfez” a partir do início dos anos de 1960, quando Stanley Ho ganhou a concessão do jogo em Macau e iniciou essa atividade no Hotel Estoril, com o edifício original a ser acrescentado e a ter “várias versões” desde então.

“O que resta hoje é um somatório de um edifício com vários postiços sobre uma pré-existência que era bonita”, afirmou Carlos Marreiros, explicando que foi sofrendo adaptações até aos anos de 1990, “não tem qualquer qualidade” e está também “descaracterizado por dentro”.

“A equipa projetista” e o Governo têm agora liberdade para decidir o que fazer com a estrutura, incluindo com o mural que está na fachada, explicou.

Ao longo dos anos, foram vários os projetos pensados para aquele espaço, incluindo o acolhimento da Escola Portuguesa de Macau, mas todos foram abandonados.