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Miguel Rangel não parou durante todo o sábado. E este domingo deve passar pelo mesmo. É um dos responsáveis pelo Serralves em Festa 2016, aquele que durante os dois dias do evento tem o papel de supervisionar todas as equipas. Desde o posto de informações na entrada até aos locais dispersos da Fundação de Serralves onde acontecem os espetáculos, tudo está sob o olhar atento de Miguel. Munido de um auricular no ouvido, o telemóvel numa mão e o folheto da programação na outra, percorre os cantos e recantos de forma a ter um ponto da situação geral.

“É preciso supervisionar, comunicar e ver o fluxo global de pessoas”, explica. Além disso, há outro fator importante: é Miguel Rangel que tira algumas fotografias para enviar à equipa de redes sociais. O dinamismo é o mesmo que envolve cerca de 1200 pessoas, onde se incluem artistas nacionais e internacionais, voluntários e demais colaboradores da Fundação. O dia de trabalho — ou melhor, o concorrido fim-de-semana — “começou às 7h15”, diz-nos e o mais provável é que se estenda “bem para lás das 40 horas de festa”.

De lugar em lugar, Miguel vai concedendo alguns comentários ao que vê. Perto do Museu de Serralves, na chamada “Janela da Biblioteca” está a atuar Rod Burnett com “Punch & Judy”, um tradicional teatro de marionetas britânico que mobilizou centenas de famílias. “Está tranquilo, está a rolar, é isto que procuramos que aconteça”, comenta. O sol abrasador que tomou conta da tarde de sábado no Porto parece não incomodar nada nem ninguém, até que, chegado ao campo de ténis de Serralves, cruzamo-nos com muitas pessoas não se sentam nas cadeiras devido às altas temperaturas e preferem as sombras. “Era pior se estivesse a chover”, desabafa. Discordar de Miguel é difícil.

De um lado para o outro

As correrias de crianças são constantes ao longo dos jardins e na Parte Central da Fundação, onde o verde dos arbustos se confunde com o cor-de-rosa do chão e do edifício, os pequenos tanques servem de piscinas para molhar os pés. “Depois acontece isto”, ri-se Miguel Rangel, “são também estes detalhes que fazem a diferença num evento como este”. Em cada canto dos 18 hectares da Fundação, há sempre alguém com uma T-shirt vermelha e letras amarelas a dizer “Serralves em Festa” e como tal as dúvidas do público são prontamente respondidas. O responsável indica o trajeto para determinado espetáculo, enquanto apanha alguns papéis do chão.

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Um dos grupos a pedir informações para a performance de dança contemporânea que estava marcada para as 17h30 — e que começa sem atrasos — é composto pelas amigas de Maria do Céu Lopes, de 68 anos. Já não é a primeira vez que a portuense vem ao “Serralves em Festa”, a combinação de “um espaço agradável e verde” e o facto de ser um “dia diferente” têm-na conquistado a cada edição. Uma certeza? Foi mais uma visita e não será a última. Miguel acede aos pedidos de ajuda, esclarece e resolve.

A Natureza conquista alguns dos que passam por Serralves, que estendem a toalha na relva, leem livros e fazem até pequenos piqueniques em família. No entanto, há quem não seja muito cuidadoso e para alertar os mais desatentos existe a Brigada do Ambiente — com tiques de super-heróis, este é um grupo que está sempre pronto para entrar em ação. São diferentes conjuntos de duas pessoas, espalhados pelo recinto, que envergam coletes verdes e têm conversas informais com o público acerca das melhores normas para respeitar o ambiente. Uma espécie de boa consciência andante, com uma tarefa importante.

Ana Pinha, de 28 anos, e Ana Magalhães, de 19 anos, fazem parte do grupo. O trabalho de ambas no Serralves em Festa acaba por ser uma “ação de sensibilização face à Natureza”, uma causa que abraçam no dia-a-dia e que quando se inscreveram no voluntariado fez todo o sentido. “Eu estudo Ciência e Tecnologia do Ambiente, portanto era a área mais indicada para mim”, diz Ana Magalhães.

É aproveitar estes dias e fazer algo produtivo, juntar as duas coias é ótimo. Nem sempre é fácil muda os hábitos das pessoas mas esse desafio também é aliciante.”

Estreantes e repetentes

Mas nem sempre Serralves se faz de velhos hábitos. Isabel Graciano e Filipe Faria são um casal de estreantes no evento e na própria Fundação. Vêm sem ainda terem noção do querem ver ou experimentar, por isso continuam a percorrer os trajetos com o carrinho de bebé atrás e o filho no colo. Já para um grupo de uma escola básica da Póvoa de Lanhoso, o dia em Serralves é motivo para recordarem, por isso pedem a quem passa para lhes tirar uma fotografia.

E se fosse possível combinar a dança contemporânea, apreciada pelo anterior grupo de amigas, com o princípio que orienta estes dois dias? As alunas da escola de dança Ginasiano, de Vila Nova de Gaia, sabem exatamente como cumprir essa tarefa. A peça coreográfica “Agora é Agora” foi interpretada na Clareira das Bétulas em frente a centenas de pessoas. Em determinados momentos, os movimentos da dança serviam para provocar o público, como explicam. “Houve um momento em que foquei numa senhora e ela estava sempre a desviar o olhar”, afirma Catarina Corujeira, uma das bailarinas. Serralves em Festa é um momento único de encontro entre uma instituição e aqueles que a usam; entre obras, espetáculos e artistas e os que os admiram. Há uma interação entre estes diferentes elementos que é difícil encontrar noutro momento ou local. Daí que o aparente sucesso de mais uma edição, quando tudo ia ainda a meio caminho, era já praticamente uma certeza.