No terceiro e último dia do Congresso do PS, a maior e mais prolongada ovação dos militantes socialistas foi para Tiago Brandão Rodrigues. Não diretamente, mas foi. Depois de uma manhã marcada por manifestações à porta do conclave socialista, foi António Costa quem deu voz à resposta do partido: o elogio a Tiago Brandão Rodrigues pela “coragem” que teve em “enfrentar os lóbis” na Educação.

Os momentos que se seguiram a estas palavras de Costa provam bem que o tema (e os protestos) têm causado fricção óbvia: de forma prolongada, todos militantes socialistas aplaudiram de pé o ministro, enquanto gritavam repetidamente “PS”.

Esta resposta acontece depois de um grupo de várias dezenas de manifestantes dezenas ter surpreendido os militantes socialistas com um protesto organizado contra o fim dos contratos de associação. A manifestação começou sensivelmente às 11h30, quando Alexandra Leitão, secretária de Estado da Educação, e governante que tem dado a cara por esta medida, chegou à FIL, em Lisboa, onde decorria o congresso socialista.

Por entre buzinas, bombos e gritos de ordem, eram muitos os cartazes e tarjas que manifestavam o desagrado com a decisão do Governo de não renovar acordos para novos ciclos letivos com colégios privados onde exista uma oferta viável em escolas públicas. “Costa, não te esqueças que perdeste as eleições”, “Bem-vindo ao congresso da extrema-esquerda” ou “Fora com a ditadura educativa”, podia ler-se em alguns cartazes. Um, em particular, mereceu a atenção dos jornalistas. “Costa, rameira da esquerda“, lia-se em letras garrafais.

MANIF

João Paulo Moinhos, da APEPCCA – Associação de Professores de Escolas Particulares com Contratos de Associação e um dos responsáveis pelo protesto, acabou por lamentar algum excesso de linguagem. “[Esse cartaz] está em completo desacordo [com o nosso objetivo], que é afirmar com dignidade aquilo em que nós acreditamos. Sem querer desculpar, as pessoas quando estão revoltadas e angustiadas, o desespero é mau conselheiro.”

Ainda assim, João Paulo Moinhos fez questão de explicar o que os levava ali. “Não compreendemos como é que a senhora secretária de Estado põe em causa, em nome do ensino, projetos de anos e anos. Em nome de uma política que quer tornar exclusivo o ensino público junto das escolas do Estado. Nós prestamos serviço público”, argumentou

A dois meses do final das aulas, o Governo vem impor uma medida que prova diretamente e de forma intencional o fim do projeto de vida dos alunos, sem se perguntar aos pais, sem se perguntar às câmaras, sem se perguntar aos agentes de comércio local”

O representante da APEPCCA admite sentar-se à mesa com o Ministério da Educação para rever os contratos de associação. “Com timing certo, com diálogo” e não como fez o Governo, reiterou João Paulo Moinhos. “Quando numa escola que tem 51 turmas em contratos de associação, se retiram 17 turmas em início de ciclo [estamos] a decretar, por despacho o fim destas escolas num prazo de um ou dois anos. [Estamos] a condenar à morte projetos educativos que são válidos por pura ideologia.”

Os protestos provocaram, naturalmente, a reação imediata de alguns socialistas. À porta da sala de congressos, Ana Catarina Mendes procurou explicar a visão do PS em relação a esta matéria. “Quando estão em causa os contratos de associação, não está em causa a liberdade de escolha”, mas sim “saber se defendemos ou não a escola pública”, começou por dizer a socialista. “A prioridade do PS foi sempre a escola pública e, apenas e só, quando se justificar haverá contratos de associação.”

Também Eduardo Cabrita, ministro-Adjunto de António Costa, fez questão de lembrar que “todos os contratos atualmente em vigor serão respeitados, ao contrário do tempo em que se cortavam salários e pensões e se violava a Constituição”, garantiu. “As crianças que estão a meio de ciclos educativos vão conclui-los. O Ministro da Educação avaliou caso a caso os lugares em que era necessário abrir novas turmas.”

Augusto Santos Silva, no entanto, foi mais longe e não deixou de criticar publicamente a manifestação às portas do congresso socialista.“Devemos respeitar as atividades dos partidos políticos”, afirmou aos jornalistas dentro das instalações da FIL.