Já passa do do meio-dia e muitos pais aguardam, alguns ansiosos, ao portão. O silêncio à porta da Escola Básica Eugénio dos Santos, em Alvalade, Lisboa, começa a quebrar, à medida que os alunos do 5.º ano vão descendo a escadaria e passando o portão. As caras deles dizem tudo mas, mesmo assim, para que não restem dúvidas, vão respondendo aos pais ou antecipando-se às perguntas, à medida que se aproximam. “Sim correu bem, era fácil”. “Foi bué fácil, mãe!”. “Eu nem gosto de dizer que me correu bem, mas correu tão bem!”. “Correu beeeeemmmm!”. O tom e o entusiasmo com que falam variam de criança para criança, mas estão todas em perfeita sintonia. A prova de aferição de português parece ter sido canja.

Eugénio dos Santos, provas de aferição

Pais à espera que os filhos saíssem da prova de aferição de português, na Escola Básica Eugénio dos Santos, em Alvalade

E provavelmente por isso muitos são os que continuam a falar sobre a prova, super animados, no passeio à frente da escola. É o caso das amigas Marta Silva e Maria Inês, do 5.º G, sob o olhar satisfeito de Paula Antunes, mãe de Marta. “Foi muito fácil”, repete Marta ao Observador, sorrindo, acrescentando que foi mais fácil do que a que fez no ano passado, no 4.º ano. E era tão fácil que os 90 minutos de prova chegaram e sobraram.

Até fiz um desenho na folha de rascunho. É para ti, mãe!”, diz a criança, ao mesmo tempo que saca da mochila um papel dobrado. De um lado da folha vê-se um coração e do outro uma princesa.

“Eu também acabei antes”, interrompe Maria Inês, que estava aos pulos, desde o início da conversa, a controlar-se para não falar antes de lhe fazer perguntas. “Tive dor de barriga a meio e fui à casa de banho, mas não eram nervos, era mesmo dor de barriga. E já só me faltava a composição. Acabei na mesma antes do tempo e ainda escrevi ‘Prova de Aferição’ na folha de rascunho, mas não vale a pena tirar fotografia porque não está tão bonito como o da Marta.”

Nenhuma delas ficou nervosa com a prova de aferição de português, porque ambas sabiam que não ia contar para a nota. Ainda assim, Marta fez todas as fichas de um caderno que tinha em casa. Ao contrário de Maria Inês.

Não estudei nadinha. Só estudei no caminho de casa para a escola de manhã. Mas eu moro longe, moro em Mem Martins”, conta, sempre a rir.

Marta Silva usou a folha de rascunho para fazer desenhos, depois de terminar a prova de aferição

Marta Silva usou a folha de rascunho para fazer desenhos, depois de terminar a prova de aferição

E precisamente para que a filha Carolina não se desleixasse, Fátima Gomes não lhe disse que a prova não ia contar para a nota. Ainda assim, esteve sempre tranquila, garantiu a mãe, minutos antes de Carolina aparecer no topo da escadaria, abraçada à amiga Valentina, de sorriso na cara.

Carolina está habituada ao ritual das provas: no 2.º ano fez teste intermédio, no 4.º fez prova final e este ano é a vez das provas de aferição. “Acho que foi mais fácil que a do 4.º ano”, resume a aluna do 5.º D, admitindo que possa ter esta opinião por ter estado menos nervosa do que no ano passado, em que até teve de ir fazer a prova a outra escola.

Tudo o que saiu na prova era semelhante ao que deram nas aulas. “Até achava que iam sair mais coisas”, assume Valentina, que acha que “a prova vai contar um bocadinho para a nota”, mas não está preocupada. “Correu-me bem e acho que vou ter boa nota.”

As duas contam que a prova de português era composta por um texto áudio sobre a Serra da Arrábida, sobre o qual tiveram de responder a perguntas, podendo ouvi-lo uma segunda vez, e mais dois textos escritos — um sobre a Primavera e as aves migratórias e outro sobre um anão e uma menina –, uma parte de gramática e um espaço para composição, com um máximo de 200 palavras.

Agora é hora de irem para casa, “brincar um bocadinho” e “estudar matemática” que a prova é já quarta-feira, lembra a mãe Fátima.

57% das escolas optaram por fazer as provas de aferição

A Escola Básica Eugénio dos Santos, em Alvalade, foi uma das escolas que optou, neste ano de transição, por fazer as provas de aferição. Embora não houvesse obrigatoriedade de interromper as aulas na escola, como acontecia com as provas finais, foi impossível não o fazer, pois a escola tem nove turmas de 5.º ano e como tem de estar um aluno por mesa, precisaram de ocupar muitas salas, inviabilizando o funcionamento das restantes aulas.

O mesmo não se passou na Escola de 1.º ciclo e Jardim de Infância Raúl Lino, em Alcântara, que funcionou normalmente. Com duas turmas de 2.º ano apenas, as aulas puderam decorrer sem problemas durante o dia desta segunda-feira, inclusive no período da manhã em que se realizou a prova.

Uma professora explicou ao Observador que os alunos entraram à hora habitual e que o dia ia ser o “mais normal possível” para que “não fiquem ansiosos”. Por isso mesmo, “vão ter um intervalo de 20 minutos a meio da prova, quando a prova terminar vão brincar um pouco no recreio, depois vão almoçar e prosseguem com as atividades normais”. Esta escola já tinha hábito de fazer testes intermédios no 2.º ano, pelo que a aplicação destas provas não causou grandes perturbações. As provas chegaram na sexta-feira, ficaram na sede do agrupamento e só esta manhã foram trazidas para a escola primária, juntamente com a pen onde estava o ficheiro áudio com o texto que testaria a oralidade dos alunos, pela primeira vez em avaliação externa.

Este foi o primeiro ano em que as escolas levaram a cabo provas de aferição – que não contam para nota – e as escolas puderam escolher fazer ou não. Mais de metade (57%) optou por fazê-las e os pais com quem o Observador falou em Alvalade dividem-se nas opiniões. Paula Antunes concorda com a realização desta prova, nos moldes atuais, ou seja sem contar para a nota, até porque se recorda “do estado de nervos da Marta no ano passado, com a prova do 4.º ano”. Já Fátima Gomes não está bem certa do que acha sobre esta avaliação: “Por um lado acho bem que não conte para a nota, por outro não. Mas o que eu acho é as crianças só deviam começar a fazer provas, e a contar para a nota, no 7.º ano, quando já são mais crescidinhas”, rematou.