Sharin Abdullah tornou-se o anjo das escravas do Estado Islâmico (EI). Este vendedor de tapetes turco começou a negociar o primeiro resgate de escravas do EI no 3 de novembro de 2014, contou ao El Mundo. O empresário vive na cidade curda de Janke e decidiu dedicar-se ao resgate de mulheres escravizadas pelo Estado Islâmico quando a filha de um irmão que havia sido raptada lhe ligou a pedir ajuda.

“Eu não sabia o que fazer, passei dias acordado a pensar como a podia ajudar. Até que me lembrei que talvez conseguisse ajuda através de contactos que tinha no Daesh, através do tráfico de cigarros que foram proibidos pelos jihadistas”, explicou ao jornal espanhol. Sharin Abdullah tinha alguns conhecidos na Síria e começou a fazer contactos do outro lado da fronteira.

Um desses contactos era um velho conhecido que tinha vivido em Raqqa (cidade síria que foi declarada a “capital” do Estado Islâmico), a quem propôs o trabalho de “trazer as mulheres yazidi de volta para casa”. O amigo de Sharin Abdullah aceitou a oferta e desde então que ganha a vida a libertar milhares de yazidis, em especial mulheres da escravatura imposta pelo EI.

Muitos yazidis — que professam uma fé ligada ao zoroastrismo (uma religião fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra) que mistura elementos de religiões da antiga Mesopotâmia com elementos cristãos e muçulmanos — foram capturados por militantes dos Estado Islâmico numa ofensiva levada a cabo no Monte Sinjar, em agosto de 2014.

O trabalho é perigoso, e desde que as operações de resgate começaram, já morreram doze pessoas envolvidas nas missões de resgate. Apesar das baixas, muitos continuam a trabalhar nos resgates por dinheiro.

“Pagamos mil dólares (cerca de 880 euros) por cada pessoa recuperada. Às vezes, podemos chegar a pagar 10 mil dólares (cerca de 8.800 euros) dependendo da dificuldade da libertação”, disse o chefe dos grupos que percorrem a Síria e o Iraque em busca das mulheres raptadas.

A forma como o mecanismo de libertação de escravas foi montado baseou-se nos negócios de venda de pão e roupa. Depois de terem recolhido informação sobre a população yazidi a viver espalhada por diversas cidades controladas pelo EI, montaram empresas padarias e empresas de distribuição de peças de vestuário. Através do negócio de venda destes produtos começaram a perceber quem vivia em que casa, em que casas viviam escravos e qual a sua origem.

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“Há sete meses o nível das comunicações era melhor do que aquele que temos agora. Cortaram as linhas telefónicas e a internet só funciona às vezes”, conta Sharin Abdullah que antes da chegada do Estado Islâmico à Síria ganhava a vida a vender tapetes.

Desde o fim de 2014 a equipa do turco já conseguiu resgatar 248 mulheres da escravatura do EI na Síria, que são depois conduzidas à fronteira com a Turquia ou Iraque.

De acordo com as autoridades da região autónoma do Curdistão iraquiano, cerca de 1.500 pessoas foram resgatadas ou escaparam ao terror. Mas cerca de 2 mil ainda são escravas um pouco por todo o califado islâmico. Os resgates têm pouca margem de erro e uma falha, por mais pequena que seja, pode terminar em tragédia.

“Havia uma mulher que tentou fugir, foi capturada e foi forçado a assistir ao assassinato dos seus três filhos”, contou Sharin Abdullah, cujo trabalho tem incentivado mais meia dúzia de curdos a criar os seus próprios batalhões de resgate.

“Neste momento temos cinco operações em curso. O mais difícil é libertar uma família completa, as mulheres com os filhos. Numa ocasião, conseguimos resgatar dois membros da mesma família, de forma coordenada, na Síria e no Iraque”, lembra Sharin Abdullah.