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É de manhã e já está calor, muito. A mistura entre levantar bem cedo e o forno em que Lisboa parece estar metida não puxa pela conversa. Ao “bom dia”, ao atirar das mochilas para o lugar de dois passageiros no banco de trás e ao “é para o aeroporto, por favor”, nada se segue. O motor começa a chocalhar e ala, está um avião à espera. A meio caminho o relógio bate em hora certa e o rádio assinala-o. É tempo para notícias e a que se ouve primeiro é uma que, realmente, não é. A reportagem vem de uma jornalista que se antecipa e já está em França. Mistura conversas com emigrantes e lusodescendentes, gente cujo português denota sintomas de convivência com o francês. Ali apenas se ouve, entre passageiro e taxista não se batem bolas.

Até que, quem agarra no volante, se farta de escutar pessoa atrás de pessoa a dizer o mesmo. Todos gostariam que Portugal vencesse o Europeu. “Há muita gente a gostar…”, diz, um pouco entre dentes, como alguém que atira um isco para o lago à espera do peixe que o morda. Ali apenas há um, sou eu, o jornalista que acorda, sai da bolha e lhe dá resposta. Fala-se de esperanças, hipóteses, compara-se 1984 a 2016, trocam-se redundâncias futebolísticas até à dos milhões que os futebolistas recebem e que não há taxista e jornalista que ganhem. “Até parece que eu não mereço, também”, chuta, com a certeza de quem remata e sabe que a bola vai entrar pelo ângulo da baliza.

Partilhamos um suspiro e pronto, até já e bom trabalho.

É a última conversa em Portugal antes de um avião fazer batota com as distâncias. Há duas horas e pouco pelo ar entre Lisboa e Paris, mas há muitas que se gastam em estrada na capital gaulesa. O trânsito é um sintoma de uma metrópole com mais de 12 milhões de pessoas. Os carros estão mais tempo parados do que a arrancar, nada podem contra a azáfama de uma cidade por onde dizem andar mais de 600 mil falantes de português.

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Dizem-me que não é nada difícil ouvi-lo. Só acredito quando, a meio de um túnel em Paris, entre carros ao ritmo de tartarugas, um se aproxima do meu com uma intenção. Não percebo à primeira, nem à segunda, porque a senhora que abre a janela para perguntar onde ficam dois sítios dispara rápido e em francês.

— “Je ne parle pas français.

Sai enferrujado, respondo rápido e disparo o que me vem à cabeça, entre o trânsito, os carros, o inesperado e as duas questões da mulher, que termina a segunda com um “também não?”. Quando troco para a cara de espanto já o carro está a arrancar e fugir. Assim dá para acreditar, o português é lindo.

Para nós, porque para os outros é numeroso e confuso. É-o para o funcionário da UEFA, que passa uns dois minutos vidrado no cartão de cidadão que tem nas mãos. Já estou ao lado do Parque dos Príncipes, à caça da credencial para o Europeu, e o senhor que me recebe não me encontra dentro do computador. Experimenta um, dois, três e quatro nomes, até me pedir o número que a UEFA me atribuiu e que só o e-mail do telemóvel sabe. “Ah, pronto. Ok. É que, está a ver” — diz, enquanto vira aponta para o que vê escrito no cartão –, “são tantos nomes que não percebi que o Pombo era o apelido”.

Ri-se, não acredita como é possível, muito menos quando ouve que é algo comum no país do jornalista. Mas é verdade, como é a tal história de as ruas de Paris falarem bem português. O tempo no Parque dos Príncipes, onde Portugal estará a 18 de junho para jogar contra a Áustria, tem de ser contado. Paris é simpática em muita coisa, mas não no estacionamento, cujo tempo em cada metro quadrado é caro. Com a acreditação levantada sobra cerca de meia hora. Dá tempo para circundar o recinto em direção à entrada do estádio que é do Paris Saint-Germain, onde Pauleta andou a voar em tempos.

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O caminho até lá faz-se à volta de outro estádio, o Jean-Bouin, mais pequeno (pertence ao Stade Français, clube de râguebi parisiense) e mais barulhento. Está protegido por uma dupla vedação que, em certos sítios, dá para espreitar. No relvado notam-se dezenas de pessoas a tentarem sincronizar-se ao som de uma canção das que se ouve muito na rádio. Parece o ensaio para uma coreografia, aliás, só pode. Será a da cerimónia de abertura do Europeu? Talvez, penso, mas não essa não será ali, será no Stade de France, em Saint-Denis, uns quilómetros para dentro de Paris.

Enquanto matuto isto e chego perto da entrada do Parque dos Príncipes oiço mais um motivo para a crença. Português. Duas senhoras falam do outro lado do passeio, já têm a sua idade, uma passeia um cão, outra leva à trela dois. Os três são pequenos, arraçados de caniche. Ladram como lobos quando um outro animal passa, mas para nada alertam quando interrompo a conversa. Ana Maria Tomás é a mais faladora. Tem o cabelo curto, braços destapados e dentes à mostra, sorridente. Está há 26 dos 55 anos que tem ali, a viver na Rue du Commandant Guilbaud, mesmo à frente do estádio.

Diz que por ali vê toda a gente “para trás, para a frente, trás, frente, andam sempre de um lado para o outro”. Ou seja, tem-se visto muita confusão? “Não. Quer dizer, há sempre movimento, vedaram isto tudo, andam sempre a controlar, mas nada de especial”, responde, apenas fechando um pouco a cara quando conta “as voltas que tem de dar” para deixar os netos na escola ou a identificação que “os polícias pedem” na rua. “A gente diz logo que mora aqui, mas temos que mostrar. Sempre que há um jogo da bola, é sempre. Até antes dos atentados. Depois passou a acontecer mais vezes”, explica, enérgica e algo frenética, quiçá pela esperança que tem na filha, que gere “uma sociedade que vende produtos farmacêuticos” e “pode ser que arranje uns bilhetes” para se ir ver Portugal jogar.

Fernanda Azevedo Tomás é mais calma. Está ali de férias, de visita à filha que tem em Paris e que só de tempo a tempo consegue ver por trabalhar perto de Lisboa. Já viveu dois anos em Paris, “no tempo do Euro 2004”. Tem o cabelo grisalho, seguro por uma bandolete, e fala pausadamente. Ficará por ali até julho, também perto do Parque dos Príncipes, a anestesiar as saudades. Gosta e está informada sobre futebol. “Em Portugal é o Sporting, aqui é Portugal”, confessa, quando diz por quem torce, antes de dizer em quem acredita, quando pergunto se acha que a seleção fica em França tanto tempo quanto a senhora. “Se ficar até 11 de julho, rebento duas garrafas de champanhe. Uma por mim, que faço 65 anos, outra por eles!”, garante.

Eu acredito, porque quando largo o teclado deste texto a internet diz-me que Éder acaba de marcar o 7-0 de Portugal à Estónia, no Estádio da Luz.