A conta é simples, nem é preciso papel e caneta. É somar o lógico com o que é fácil. Places, em francês, é lugares, neste caso lugares na bancada do pequeno estádio do Centro Nacional de Rugby em Marcoussis. Ali dentro, para lá do portão, que fica uns 30 metros atrás de Domingos Esteves, já está a seleção nacional. Mas ele fala em plaças, di-lo e repete-o, é-lhe automático amputar à palavra francesa uma última sílaba que vai buscar ao português. À primeira estranho, à segunda percebo, pois lá está, é fácil de entender também o porquê de este senhor ainda ali estar à sombra de um par de árvores.

É uma das mais de 200 pessoas que, à hora de almoço, estavam ali, a serem vizinhos do portão principal do complexo. Ele, como os restantes, apenas teve direito a uns segundos de vislumbre do autocarro que, num ápice, pegou nos jogadores da seleção e lhes deu boleia até ali. Foram apenas uns segundos, não tão rápido quanto Domingos demora a encolher os ombros. “Oh, não esperava ver mais do que vi. Entraram por ali e pronto, não os vou ver mais”, lamenta, conformado por não ter hipótese de passar no tal portão. Já nem torcia para que a sorte lhe batesse à porta.

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Mas está ali pela seleção. A t-shirt branca que veste denuncia-o. É branca, tem Portugal escrito no peito, a tom grená, por cima de uma quina. É esse adorno que puxa a conversa e me faz aproximar e notar o fio de ouro que Domingos tem ao pescoço. Podia ser o protótipo de emigrante luso em França, mas não é — devido ao que conta. Está neste país há 50 anos e já cá estava em 1984, quando a seleção foi pela primeira vez a um Europeu. Volta às plaças para lembrar como, na altura, apenas pagou 50 francos para estar em Bordéus, no estádio, a ver o França-Portugal em que Michel Platini arruinou Chalana e companhia.

Quem lhe dera lá estar, garante. Até tira os óculos que tem na cara, passa a mão pelo rosto e leva-a até à cabeça, esfrega-a pelo cabelo rapado já com tons de grisalho. “Mas já passou. Agora sou mais idoso, não sei se vou viver este Europeu da mesma maneira. As forças já não são as mesmas para ir aos estádios e as plaças já são muito caras. São 250€ para ir ver Portugal”, desabafa, algo fatigado. Pelo calor e pelos 63 anos que tem, os que lhe dão direito a gozar da reforma de uma vida a trabalhar na construção civil. Agora, sem plaças e com tempo de sobra, está ali “à sombra” por “não ter nada para fazer”.

Gendarmerie

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É a palavra para identificar a guarda nacional francesa. A pouco mais de um quilómetro do centro de estágio da seleção viu-se o primeiro jipe, estacionado à beira da estrada, com três oficiais. Depois, já paredes-meias com o complexo, eram inúmeros os membros da guarda e as viaturas a vigiarem as redondezas.

Não tem bilhetes para assistir ao primeiro treino da seleção. Melhor, não tem convites, que eram apenas 1000 e que “a federação disse que ia distribuir pela comunidade portuguesa”. O treino era para ser num estádio com milhares de lugares, a uns quilómetros dali, mas a UEFA não deixou, a bem da segurança. Mas a mal de Domingos. “É mentira, ninguém tem nada. Nenhum habitante desta vila tem uma plaça. Os políticos é que vão ficar com elas, está-se mesmo a ver. Perguntei na câmara, nas lojas, nos comerciantes, e nada”, critica Domingos, enquanto o amigo que trouxe com ele, que não quer falar, nem dizer nome, mas tem uma bandeira de Portugal às costas, vai bufando.

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Domingos não veio de longe. Vive a uns sete quilómetros dali, em Saint Germain les Arpajon, onde jogou “à bola” dos 18 aos 40 anos. “Futebol amador, obviamente”, ressalva, entre as queixas que não larga pela falta de plaças. Não está habituado a isto. “Há uns cinco anos” apareceu ali quando a seleção da Argélia fez uns treinos em Marcoussis e “até distribuíram plaças no portão”. E no início dos anos oitenta estava no Parque dos Príncipes, “quase no relvado”, a ver o Benfica de Chalana bem de perto. “A minha filha fazia parte dos socorristas, da Cruz Vermelha, ela tratava dos jogadores que se aleijavam. Ela conseguiu levar-me para o sítio onde costumam estar os deficientes. Vi o jogo em pé. Isto deve ter sido em 1982 ou 83”, conta. Espetáculo, e que sorte, penso para mim.

Também chegou a ver um jogo “amical” que a seleção fez “há uns anos” em Paris, e outra partida que o Benfica jogou contra o Paris Saint-Germain, “no tempo do Valdo”. Nota-se que, mesmo calmo, está espicaçado com a presença da seleção em Marcoussis, como a própria vila. Até no supermercado local, a comprar um almoço improvisado, se ouve um senhor de idade e comentar com a funcionária da caixa, como “é bom um pouco de animação” para a vila (o francês está enferrujado, mas chegou para entender isto).

Agora está, com quatro netos “e a quinta a chegar”, ao calor de uma hora de almoço de quinta-feira, conformado com um portão fechado e a gozar de uma sombra que encontrou. E sem plaças.