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“Já o disse e repeti. Gostava de ver muito mais Ubers e Airbnbs. Até digo as marcas para saberem que sou a favor”, afirmou Carlos Moedas ao Observador, à margem do Lisbon Investment summit, evento que a Beta-i organiza todos os anos para promover o investimento em startups portuguesas. Para o comissário europeu com o pelouro da Inovação, é preciso que “o empreendedor do futuro” saiba trabalhar com os governos e com a União Europeia num trabalho conjunto.

“As leis do futuro já não podem ser feitas só por políticos. Têm de ser feitas em conjunto com todos aqueles que estão a produzir e têm de ser muito mais flexíveis do que agora. Porque as leis são, por definição, muito estáticas. Podemos estar a regulamentar um negócio que foi aqui apresentado, mas esse negócio vai desaparecer e depois vai aparecer outro que é muito diferente”, afirmou.

Carlos Moeda explicou que tem trabalhado no programa “Innovation Deals” com o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Tiemmermanns, para ajudar empreendedores a resolver problemas de regulamentação que colidam com os negócios que operam. “[Quando há] um empreendedor que chega à Comissão e diz: ‘não consigo fazer o meu negócio porque a vossa lei ou regulamentação não deixa’, nós sentamo-nos à mesa, chamamos o regulador, as autoridades nacionais e começamos a ver se é mesmo a regulamentação ou se é a interpretação da lei que o leva a pensar que não pode mas que afinal pode”, explicou.

Para o comissário europeu, os empreendedores “da terceira vaga da internet” – que inclui os negócios da economia colaborativa como Uber ou Airbnb – sabem que para puderem operar dependem muito dos decisores políticos. E que “isso tem muito a ver com a Europa, às vezes mais do que com os governos nacionais”.

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“Acho que [estes problemas] nunca vão estar resolvidos, porque isto é uma corrida de fundo. Vamos tendo uns que se resolvem, outros que não, e há cidades que resolvem melhor do que outras”, afirmou ao Observador.

“A paixão é mais forte do que o retorno económico”

À margem do Lisbon Investment Summit, Carlos Moedas explicou que Lisboa mudou muito nos últimos 20 anos, tendo-se tornado numa escolha para muitos estrangeiros que querem lançar empresas.

“[Há] um grande movimento de mudança na própria maneira como as pessoas saem das universidades. Hoje, querem montar empresas e não andam à procura de emprego. Procuram montar uma empresa, ter uma ideia”, afirmou.

Essa mudança deve-se ao facto de os empreendedores trabalharem “com paixão total, com amor à camisola. [Neste meio] a paixão é mais forte do que o retorno económico”, acrescentou o comissário, que comparou ainda um ecossistema empreendedor funcional a um “puzzle”, no qual não podem faltar peças.

O ecossistema de inovação tem de ter sempre uma universidade no centro, e aí Portugal tem “N” universidades, tem de ter capital humano que sai dessas universidades, tem de ter empresas à volta dessas universidades, tem de ter financiamento e ainda a parte da regulação, ou seja, tudo o que é a capacidade de deixar os empreendedores criar sem lhes pormos problemas, sem lhes criarmos barreiras.

Para que os resultados sejam bons, “tem de funcionar tudo ao mesmo tempo” no ecossistema. Em Portugal, “é esse o caminho” que o país tem de continuar fazer, ao nível “das reformas do mercado de trabalho, do mercado do produto e do sistema judicial. Isso cria confiança para o investimento. O resto Portugal já tem”, defendeu.

O país, diz o Comissário, tem mudado também em termos de mentalidade, e tem evoluído graças aos “jovens” empreendedores: “Nós em geral somos muito humildes, não nos vendemos o suficiente. Isto é o novo Portugal, que é muito mais agressivo na maneira como se vende.” Isto apesar de, hoje em dia, a concorrência entre economias já não se fazer entre diferentes países, mas entre diferentes cidades.

Aquilo que estamos a ver é que basicamente este já não é um mundo de países, é um mundo de cidades. Hoje mais de 60, 70 por cento do PIB do mundo é nas cidades que é produzido. Estamos a falar de uma concorrência global de cidades, e nessa concorrência temos que conseguir vender as nossas cidades e os nossos polos de empreendedorismo”, explicou.

Entre esses polos está o lisboeta. A cidade, diz Carlos Moedas, “está extraordinária” ao nível da inovação. Mas a concorrência é forte e os desafios são grandes. “Lisboa tem que se posicionar nesse jogo global que são as cidades. Quando as pessoas pensam em Boston, Berlim, Londres, Paris, têm de pensar em Lisboa”, explica o comissário.