2004. Ainda não havia Estado Islâmico, mas o Campeonato Europeu de Futebol, em Portugal, iria realizar-se na sombra de dois grandes atentados terroristas: o 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, e o 11 de março de 2004, em Madrid. As autoridades portuguesas prepararam-se para o pior e acabaram por servir de exemplo a outros países europeus.

2016. O Europeu de França arranca agora sob a sombra do terrorismo do Daesh, com medidas incomuns de segurança, num país que sofreu dois atentados num ano e acaba de ver os vizinhos belgas a passar pelo mesmo: o ataque ao Charlie Hebdo a 7 de janeiro de 20015, o terror a espalhar-se em Paris do Stade de France ao Bataclan a 13 de dezembro e as explosões no metro e no aeroporto de Bruxelas. As autoridades francesas e europeias apertaram a malhas, mas há alertas diários de vários países para possíveis atentados.

Da ameaça da AL Qaeda à do Estado Islâmico, de Portugal a França, o que mudou em mais de uma década?

O Observador falou com o responsável pela segurança do Euro 2004, o superintendente chefe Guedes da Silva e com o atual responsável pela equipa portuguesa para o Euro 2016 em França, o subintendente Luís Simões.

Hoje está aposentado e é através da televisão ou do computador que vai acompanhando as mudanças no mundo que obrigam a novas formas de segurança. “A ameaça não era tão acintosa, o terrorismo hoje assume desenvolvimentos que na altura estariam a começar. Hoje a ameaça sobre os países europeus é diferente”, diz o superintendente-chefe Guedes da Silva ao Observador.

“Na altura não havia Estado Islâmico, não havia estas vagas de refugiados, não havia as alterações à lei do trabalho que estão a causar problemas em França, ainda não existiam as novas formas de comunicação que existem hoje”, diz o oficial.

Guedes da Silva era um operacional quando, em 2000, o incumbiram de viajar para a Holanda. O objetivo era perceber como se estavam a organizar, a nível da segurança, para o Europeu de Futebol que ali se iria realizar. Nesse ano a preocupação foram os hooligans, mas uma resolução da União Europeia acabaria por munir os países de soluções, permitindo aos “governos nacionais envolvidos” em eventos desportivos de tomarem “medidas preventivas”. Cada país pode, agora, impedir que um adepto já referenciado por distúrbios em jogos viaje para outros países onde joguem as suas seleções ou clubes.

Mas, no ano seguinte, um acontecimento internacional iria atirar as polícias para um problema de segurança muito maior, o do terrorismo. No dia 11 de setembro um grupo de terroristas da Al-Qaeda sequestrava quatro aviões. Dois deles acabariam por colidir com as Torres Gémeas do World Trade Center, um complexo de empresas em Nova Iorque nos Estados Unidos.

Em 2003, um ano antes do Euro 2004 em Portugal, o Ministério da Administração Interna acabaria por criar uma comissão para preparar o campeonato. Guedes da Silva, que tinha estado na Holanda e era na altura o comandante distrital da PSP de Setúbal, foi chamado a presidir a comissão para a segurança, integrada por membros de todas as forças e serviços de segurança (GNR, PJ e SEF, por exemplo), os bombeiros e o INEM.

“Nas reuniões começaram a delinear-se metas. Marcaram-se exercícios no Porto, em Lisboa e Faro, pelo que me recordo. E testaram-se todos os cenários que podiam acontecer para avaliar como se coordenavam as forças e serviços de segurança, forças armadas, bombeiros e o INEM. Fizeram-se exercícios em sala e no terreno”, recorda Guedes da Silva.

Em cada um desses exercícios, a polícia contou com os responsáveis pelas redes de transportes públicos. Em Lisboa, por exemplo, tiveram a colaboração da CP, Metro, a Carris. “A preocupação era articular toda a gente para estabelecer meios rápidos de contacto. Os exercícios correram muito bem. Detetámos as falhas, as dificuldades de comunicação. Deu para perceber o que existia em termos de serviço, porque havia desconhecimento do que existia e de como as forças se podiam articular”, refere. A polícia também testou operações no metro durante a noite. Tinha ainda presente o ataque com gás sarin no metro de Tóquio.

O Euro estava a aproximar-se, a polícia a organizar-se quando, a 11 de março de 2004, um grupo terrorista, também da Al-Qaeda, atacava numa estação de comboios de Madrid. Aqui as autoridades elevaram o nível da ameaça. E, diz Guedes da Silva, chegaram a recear. “Para se estar preparado, tem que se temer”, diz o oficial, que já durante o Euro esteve em todos os estádios, todos as fan zones, todos os locais críticos. E que, doze anos depois, não se recorda de nenhum episódio que tenha alertado as autoridades. “Correu tudo muito bem. Era tudo passado a pente fino. Até as empresas de catering que levavam a alimentação para dentro dos estádios. Os voos, as horas, os jogadores, os adeptos”.

O segredo, diz Guedes da Silva, esteve na articulação entre todas as forças e serviços e segurança, com as forças armadas, os bombeiros e o INEM. Na altura começou também a funcionar o Ponto Nacional de Informações de Futebol (PNIF) na sede da PSP. Uma equipa que já existia noutras polícias europeias e que funciona quase como um sistema de informações sobre tudo o que está relacionado com o futebol e os seus adeptos. “Aqui havia algumas diferenças de tratamento consoante as polícias. Os ingleses, por causa dos hooligans, estavam muito mais avançados tecnologicamente”.

Ainda assim a segurança do Euro 2004 serviu de exemplo e até serviu para melhorar o manual de boas práticas europeias. Guedes da Silva chegou mesmo a deslocar-se à Alemanha para falar com as autoridades e explicar como as polícias portuguesas se tinham organizado em Portugal. E falou da importância da colaboração internacional. “Já ninguém faz nada sozinho, tem que haver uma cooperação internacional e a, nível nacional, a colaboração entre todas as valências”.

E agora em França?

E é o que está a acontecer em França agora para o Euro 2016 que começa esta sexta-feira. E é por isso que uma delegação de polícias portugueses se deslocou até lá. Chegaram no dia 6 de junho e vão ficar tanto tempo como o que ficará a seleção portuguesa no campeonato.

À frente da equipa de oito elementos (seis da PSP e dois da GNR) está o subintendente Luís Simões. E as funções de cada um estão bem definidas, como explicou ao Observador. Dois dos polícias estão, neste momento no Centro de Cooperação Policial Internacional (CCPI) e vão estar a analisar toda a informação policial relativa a portugueses que possa ser útil às autoridades francesas. Os outros seis polícias distribuem-se pelas cidades francesas onde vão decorrer os jogos, integrados em equipas mistas de polícias francesas. Vão ser spotters, “de modo a ajudar na gestão da segurança dos adeptos portugueses.”

“Todas as informações de factos ou notícias relevantes em termos de segurança e ameaças são partilhadas no CCIP e transmitidas de imediato à restante delegação policial”, diz o subintendente, que não considera que o cenário internacional tenha mudado assim tanto na última década.

“Já nessa altura existia a ameaça terrorista, o que tem havido nos últimos atentados são modos de atuação diferentes na sua realização que exigem a adaptação de algumas medidas preventivas e a adocão de diferentes táticas de prevenção e reação a alguns tipos de possíveis atentados”, diz o oficial.

No comunicado enviado às redações, a Direção Nacional da PSP refere que a delegação policial “terá organização e funções idênticas às das delegações policiais presentes nos últimos campeonatos da Europa e do Mundo”. Por um lado, garantir a segurança da equipa em estreita colaboração com as autoridades francesas e, por outro, o acompanhamento de adeptos portugueses que se desloquem aos estádios e cidades do Euro.

Mas há receios. Tanto que nem os treinos da seleção nacional, cuja segurança é considerada de risco, podem acontecer de forma aberta e livre.

Conselhos da Polícia e da Federação Portuguesa de Futebol

Antes de partir..

  • Efetue o “Registo ao Viajante” no Portal das Comunidades Portuguesas enviando um email com os detalhes da sua viagem e, entre outros dados, indicando o nome de um familiar ou amigo a ser contactado em situação de emergência.
  • Certifique-se que leva os bilhetes para os jogos a que pretende assistir, assegurando-se de que foram adquiridos em locais oficiais.
  • Verifique que leva consigo o Cartão Europeu de Saúde e Doença (CESD) válido.
  • Assegure-se que é portador de documento de identificação e/ou viagem cuja validade cubra o período da estadia.
  • Pondere a contratação de um seguro de viagem que inclua assistência médica, roubo, furto e repatriação.
  • Informe-se das medidas de segurança e recomendações em vigor, em particular se pretender assistir aos encontros do EURO 2016, tanto nos estádios como nas fan zones. Poderá consultar mais informação sobre estas condições nesta página.
  • Tenha presente que o Sistema de “Vigipirate” em vigor implica a adoção de medidas reforçadas de segurança como a reposição de controlos nas fronteiras, a qual poderá provocar atrasos nos check-in nos aeroportos, travessias nos postos fronteiriços, entradas nos recintos desportivos ou fan zones.
  • Se viajar de carro, respeite as normas de segurança rodoviária. Observe as pausas para descanso e, se conduzir, não beba.

Em França…

  • Mantenha-se atento e vigilante. Tome as devidas precauções para superar eventuais imprevistos (roubo, meio de regresso a Portugal em caso de perda de viagens, assegurar tempos úteis para as necessárias deslocações).
  • Leve consigo o bilhete de ingresso e documento de identificação válido, pois poderá ser exigida à entrada do estádio.
  • Elementos da Polícia de Segurança Pública, devidamente identificados, estarão fora do estádio para apoio aos adeptos portugueses durante os jogos da Seleção Nacional. Contacte-os em caso de necessidade.
  • Procure chegar atempadamente aos estádios ou outros locais de visualização de jogos, evitando a previsível demora nas entradas dos respetivos recintos de grandes aglomerações de pessoas.
  • Cumpra as indicações policiais de circulação pedonal nas imediações dos estádios e esteja atento ao setor correspondente ao seu bilhete.
  • Se estiver inserido num grupo, mantenha o contacto visual e a proximidade com o mesmo, bem como números telefónicos de contacto sempre disponíveis.
  • Respeite as recomendações das forças de segurança francesas e não participe em manifestações.
  • Caso testemunhe algum incidente, ou comportamentos suspeitos, não intervenha e contacte o mais rapidamente possível as autoridades francesas.