“Ainda nem acredito!”, deixa escapar Margarida Martins no chat do Facebook, após a conversa por telefone com o Observador. A dança, inesperadamente, conquistou um espaço na sua vida e já não há volta a dar: é isto que quer fazer. A portuguesa, de 30 anos, é uma das seis coreógrafas da cerimónia de abertura do Campeonato da Europa, em França, que decorrerá esta sexta-feira, ao fim da tarde.

“Cheguei a Paris há dez, onze dias, nem sei. Tem sido intensivo! Trabalhamos todos os dias, às vezes das 8h às 23h. Trabalhamos todos, são vários grupos. Ainda não vi a Torre Eiffel!”, desabafa. “Há ensaios de manhã à noite. Estas cerimónias são preparadas em mês e meio, dois. Esta estamos a preparar em dez dias.”

Esta vida das cerimónias de abertura nem é novidade, apesar de tudo ter começado com um acaso. Há dois anos, na abertura da Liga dos Campeões, em Lisboa, faltava um coreógrafo e Margarida tentou a sorte. “Houve vaga, concorri e entrei”, conta, despachada, e sem dar ar de cansaços. “A coreógrafa principal, Wanda Rokicki, chamou-me também para fazer a final da Champions League em Berlim, feminino e masculino. Agora chamou-me para o Europeu. Estou a tentar os Jogos Olímpicos também, enviei o CV, estou à espera…”

E como é, afinal, a cerimónia de abertura? “Tem mais de 400 pessoas envolvidas, e uma duração de seis, sete minutos. Como é Europeu, é bem maior do que a Liga dos Campeões. O David Guetta vai lá tocar. O que estou a fazer é dar ensaios e coreografias para todas as pessoas que estão a dançar. Há bailarinos profissionais e voluntários.”

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Margarida Martins, em Paris (D.R.)

“Depois é rezar, porque eles estão por eles. É um dia de grandes nervos…”

Margarida Martins, licenciada em Ciências de Desporto, com mestrado no Ensino Básico e Secundário de Educação Física, partilha o protagonismo e a responsabilidade com mais cinco pessoas (para além de Rokicki, a líder e referência): duas polacas, uma francesa e um italiano. “O trabalho é dividido por todos, é muita gente. Todos temos de saber tudo de cada grupo.” A portuguesa formada na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, diz que tem aprendido bastante com os outros colegas, não só ao nível da dança, mas também em termos culturais e em métodos de ensino.

Apesar de todas as maratonas, do corpo que já grita e pede mais horas na cama para sarar, Margarida Martins não perde o entusiasmo e a frescura na voz. “Sim, há dias que são horríveis, fisicamente e psicologicamente. Há tanta gente, tantas perguntas, não há pausas. Quando chego à cama, não adormeço, entro em coma (risos). Mas fico muito feliz aqui, estou sempre a aprender, não fico nada frustrada. Sou a pessoa que mais quer aprender, tento absorver tudo.”

E as maiores dificuldades de um trabalho destes? “Há dois tipos de desafios: primeiro, o tempo e a intensidade do ensaio. Corremos muito, porque é um campo de futebol. É fisicamente muito puxado. A língua também é uma dificuldade, nem todos falam inglês. Quanto a mim, o David Guetta tem bailarinas profissionais, são suuuper-profissionais, por isso foi muito bom trabalhar com bailarinas de grande nível. Há voluntários e profissionais, é engraçado adaptar-me a ambos. (…) Ser professora permite-me adaptar e lidar com pessoas mais fáceis e difíceis.”

Esta sexta-feira, dia de Portugal em Paris, e com arranque de evento tão importante, será longa. “Tenho de estar no estádio cedo, à uma da tarde. Temos de confirmar todos os preparativos, fazer double check. Depois é rezar, porque eles estão por eles. É um dia de grandes nervos…”