Déjà vu. A memória trai-nos. E quanto mais avançam sobre nós os anos, mais ela nos trai. Impiedosamente. Tirana. Quantas e quantas vezes, chegados a um local onde nunca estivemos – ou será que sim?… –, sentimos que nele estávamos como “em casa”. Incontáveis, não é? Nunca estive em Marselha, nem no Vélodrome. Nunca estive no minuto setenta e quatro do jogo entra a Inglaterra e a Rússia do Euro 2016. Mas senti-me como se tivesse estado toda a minha vida. Ou parte dela.

Antes, pouco antes, Dele Alli foi derrubado à entrada da área, a um metro (se tanto) da área, resultando daí um livre ligeiramente descaído para a direita. Aproximaram-se da bola Eric Dier e Harry Kane. No Tottenham o dono da bola é o segundo. Dier desviava o olhar para o chão, Kane para a baliza, mirando-a. Era o segundo que ia marcar, claro que era. Talvez por cima da barreira, com jeitinho, na direção do poste direito. Era também isso que Akinfeev, o guarda-redes russo, esperava dele. Claro que era. E avançou Kane, mas, surpresa das surpresas, pasme-se o russo e pasmemo-nos também, avançou por cima dela, sem sequer lhe tocar. Não a rematou. Quem rematou foi Dier, com mais força do que jeito, não para para o poste direito mas para o esquerdo, e… golo. 1-0 para a Inglaterra.

Eu sabia. Eu presenciei aquilo, com mil raios. E presenciei antes. Mas onde? E quando? Foi preciso rebuscar fundo na memória. Até 6 de outubro de 2012. Um sábado à tarde, soalheiro. Rio Maior. Foi em Rio Maior, é isso. Jogava-se a 9ª jornada da II Liga, frente a frente Sporting e FC Porto — um “clássico” dos bês. O livre era no mesmíssimo local, perto da área, um tanto para a direita. Aproximou-se da bola um tal de Zezinho e não Kane. Era ele, como Kane o é em Londres, o dono da bola em Alcochete – no Sporting marcava cantos, livres e tudo o que mais houvesse para marcar.

Eric Dier também lá estava. Enquanto Zezinho tirava as medidas à baliza de Stefanovic, Dier baixava o rosto na direção do relvado e nunca da bola, franzia o sobrolho; o livre não era nada com ele. Zezinho avançaria. E avançaria sobre a bola, sem lhe tocar com uma trança das suas que fosse – como Kane, afinal. Então, Dier, quase sem tomar balanço, avançou um passo, deu uma pancada na bola, de chofre, esta sobrevoou a barreira e só parou dentro da baliza portista. Na esquerda da baliza portista.

Deixemos Rio Maior, voltemos a Marselha. A Inglaterra foi sempre melhor do que a Rússia durante a primeira parte. E durante o recomeço também. Circulava mais e melhor a bola, os russos mal a viam – quanto mais tocar-lhe –, e rematava. Os russos não. O primeiro remate inglês foi “madrugador”, aos sete minutos.

– Ai vale petardões de força, é? – Terá pergunta Igor Akinfeev, em russo, a Adam Lallana, sem que Lallana entendesse.

Kyle Walker fez tudo bem (e veloz) no flanco direito, tocou a bola por cima de Georgi Schennikov com a cabeça, apanhou-a mais à frente, já dentro da área, cruzou para trás, rasteiro, e Lallana rematou de primeira mal a bola lhe chegou ao pé direito. Estava a escassos metros de Akinfeev. Pertíssimo, cara com cara. Se estivesse mais longe, talvez marcasse golo. Tão perto, o russo defendeu para cima da barra por reflexo. Era isso, ou levar uma bolada em cheio na cara. E ninguém gosta.

Ainda na primeira parte, mais uma vez a Inglaterra a “cheirar” o golo. Dele Alli passou por Georgi Schennikov, o defesa-esquerdo russo, como se não fosse nada com ele, entrou na área pela direita – devagar, devagarinho –, cruzou para trás e encontrou Wayne Rooney. O passe não foi brilhante de Alli. Não ia rasteiro, mas a meia-altura, talvez com força a mais e precisão a menos, e quando assim é, a receção torna-se difícil. Mas nada que Rooney não resolva. Amorteceu a bola com a ponta da bota direita, puxou do mesmo pé atrás em seguida e rematou-a sem que esta tocasse a relva. Akinfeev só teve tempo para socar por cima da barra.

Antes de Dier fazer o golo inglês, quase fazia o russo também. O melhor lance ofensivo (ou pelo menos com perigo q.b.) da Rússia em todo o jogo aconteceu aos 14’… da segunda parte. Depois de um canto à direita de Oleg Shatov, o central, nado e criado no Sporting e em Alcochete, cortou a bola na direção da própria baliza, quando o queria era evitar que alguém a cabeceasse para dentro dela. Disparatadamente na direção da própria baliza. Valeu a atenção de Hart, que desviou para lá da barra.

Ainda antes do golo inglês de livre, pouco antes, Rooney quase o fazia (71′) com a bola corridinha. Não, contado ninguém acredita — mas como é o meu trabalho, vamos lá a isto. Dele Alli desmarcou Danny Rose na esquerda do ataque, o lateral cruzou nas barbas de Smolnikov para a área, Harry Kane abriu as pernas ao primeiro poste, a bola seguiu, seguiria para Sterling ao segundo, mas “perdeu-se” no entretanto. Vasily Berezutskiy cortou-a. E cortou para a entrada da área. Rooney surgiu lá, bateu na bola com a parte exterior da bota, um remate que Akinfeev desviou, miraculosamente, para a barra. Na recarga, Adam Lallana voltou a acertar no ferro, mas no do poste direito. Estava em fora-de-jogo, apitou-o de pronto o árbitro italiano Nicola Rizzoli. Acreditou agora?

Desliguem os holofotes no Vélodrome. O jogo terminou e a Inglaterra venceu. Merecidamente. E quando a mão, enfim, se dirigia (92′) para o interruptor, para deixar tudo as escuras, Vasily Berezutskiy, capitão russo, trintão, encandeou a vitória cantada dos ingleses. Isto depois de um cruzamento à esquerda de Georgi Schennikov. Rose não saltou – é baixinho, mas isso não explica tudo –, Berezutskiy sim, e Hart levou uma “chapelada” de deixar um guarda-redes com o estômago às voltas por semanas a fio.

Dier saiu do relvado de Marselha de rosto cerrado. Foi eleito o melhor em campo entre ingleses e russos, mas cerrou-se-lhe o rosto. E lembrou-se certamente de Rio Maior. Aí, sorriu. Venceu o FC Porto (o ) por dois golos sem resposta. Era, Dier, na altura, o “ruço” (por ser loirinho) de Alvalade, um defesa-central que foi para Liverpool e para o Everton ganhar cabedal aos 15 anos, voltando já homem feito, um matulão, para ser adaptado por Jesualdo a médio-defensivo. É, hoje, médio-defensivo também, com Pochettino e no Tottenham. E é, deste este sábado, o mais novo de sempre a marcar um golo de livre pela Inglaterra. Mais novo até que o ídolo David Beckham. Outro que é ruço.