Chama-se Il Giornale, é propriedade de Paolo Berlusconi, irmão do antigo primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, e causou escândalo e protestos, neste sábado. Motivo? A publicação decidiu distribuir de forma gratuita, cópias da controversa obra de Adolf Hitler, “A Minha Luta”.

O jornal alegou, como justificação para a iniciativa, que é preciso conhecer o livro para que se possa rejeitá-lo, mas não conseguiu evitar reações de condenação. Matteo Renzi, por exemplo, não gostou da decisão e manifestou a sua opinião através do Twitter. “Considero sórdido que um diário italiano esteja a oferecer o ‘Mein Kampf’. Abraço a comunidade judaica com afeto”, escreveu o líder do governo transalpino, num tweet acompanhado da hashtag #maipiù [nunca mais].

Também os representantes da comunidade judaica italiana, que integra 30 mil membros, condenou a atitude do tabloide. “É um ato vil, a anos-luz de qualquer aprendizagem profunda ou estudo do Holocausto”, afirmou Renzo Gattegna, citado pela AFP. O presidente da União das Comunidades Judaicas Italianas descreveu a iniciativa como “indecente”.

Os responsáveis do Il Giornale defenderam uma perspetiva diferente, explicando que se tratou de uma tentativa para educar a opinião pública. “Ler o ‘Mein Kampf’ é um antídoto para toxicidade do nacional-socialismo”, sustentou o jornal, que publicou uma edição de 1937 com anotações do historiador Francesco Perfetti. Esta iniciativa é a primeira numa série que vai incluir oito livros sobre a história do Terceiro Reich que serão vendidos com o jornal.

O livro foi escrito enquanto o ditador esteve detido, nos anos 1920, e foi publicado originalmente em 1924. Tem um registo autobiográfico mas integra, também, as bases da ideologia que configurou o regime liderado por Hitler na Alemanha, entre 1933 e 1945, nomeadamente a perseguição aos cidadãos judeus, cuja tentativa de extermínio, a “solução final”, custou a vida a seis milhões de pessoas durante o período nazi.

Durante 70 anos, o estado alemão da Baviera, que ficou na posse dos direitos de autor, recusou-se a autorizar a publicação da obra, por respeito às vítimas e para evitar o incitamento ao ódio. A 1 de janeiro de 2016, os direitos sobre “A Minha Luta” caíram no domínio público e, sete dias depois, foi lançada uma nova versão, em Munique. Tratou-se da primeira edição do livro em território alemão desde a Segunda Guerra Mundial.