A marcar os 20 anos de carreira, esperavam-se uns Air bem oleados para celebrar um número tão redondo. Sabíamos ao que vínhamos, um (re)encontro revivalista da dupla francesa Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel, que anda agora na estrada a reinterpretar os primeiros álbuns. E assim foi, o público recebeu-os em grande número, foi por eles que muitos foram até ao Parque da Cidade, tendo em conta a quantidade de gente que saiu no final do espetáculo, ainda não era meia-noite, cedo para um sábado.

Naquela multidão havia os que gostam sempre e de tudo e os outros, que têm as referências de uma banda que compôs alguns hinos importantes da pop ambiente contemporânea. Mas, talvez por andarem agora cada um na sua vida, a dupla apresentou-se (literalmente) desafinada, em particular Dunckel, um desalinho que por pouco deitava por terra o empenho e talento dos músicos.

Foram melancólicos (claro) e conseguiram deixar siderado, por algum tempo, um mar de gente. Mas não demorou muito até que muita gente começasse a circular, o que num festival pode não querer dizer grande coisa a não ser que os Air foram, de repente, uma espécie de aperitivo ou sobremesa para tudo o que estava à volta – leia-se, as outras bandas do cartaz.

“Kelly Watch the Stars” e “Sexy Boy” foram os momentos altos da atuação, mas ficou a frustração de terem deixado para trás (na atual digressão) o tema “All I Need”, uma espécie de sacrilégio. Instrumentalmente foram impecáveis, são músicos experientes que mostraram o que valem, em pleno, no tema que fechou a sessão: “La femme d’argent”. Foram mornos, mas quem gosta gosta mesmo e de qualquer maneira.

Foi divertido ver, logo de seguida, boa parte daquela massa humana a mudar-se para o palco ao lado, onde começaram a tocar, quase de imediato, os texanos Explosions In The Sky. A graça estava em tentar perceber onde seria possível enfiar tanta gente, recebida com uma voz sorridente e em português macarrónico: “Olá, tudo bem? Nós somos os Explosões no Céu”.

A partir dessas palavras, ditas em tom alegre e acolhidas com igual carinho pelo público, à banda bastou-lhes ser. Deram o melhor que sabem, rock lento e pesado e hipnótico que elaboram como poucos. São umas máquinas de fazer barulho, ao vivo como nos discos, são escuros, melancólicos e até agressivos. Instrumentistas exímios nessa arte, seguiram o bailado concentrados no último The Wilderness, editado no início do passado mês de abril — ainda que isso pouco importasse, o que valeu ali foi o ambiente que se criou, num palco com pouca luz e despido de adereços.

Surge então a pergunta: qual é o interesse de tantos milhares de pessoas em estar ali, perante cinco homens (bateria, baixo e três guitarras) a baloiçar o corpo? A resposta: a confirmação que esta música existe, que não é obra de deuses e muito menos de “estrelas”, que é feita por pessoas iguais às que estavam no anfiteatro, casais abraçados, gente de olhos fechados e algumas lágrimas. Simples.

Este sábado assistiu-se a uma sequência de música negra, chamemos-lhe assim, em três vertentes. Depois da nostalgia francesa e das guitarras norte-americanas, chegou a eletrónica germânica dos Moderat. Estiveram no Meco há uns anos na tenda dedicada à música de dança, mas esta noite receberam o palco principal, um sinal de crescimento a vários níveis. Um deles foi a luz.

Os Moderat são um trio berlinense formado pelos dois elementos dos Modeselektor e por Sascha Ring, conhecido a solo por Apparat. Andam na estrada a apresentar o terceiro álbum (III), lançado este ano, mas como é costume nos festivais, fizeram a gentileza de trazer temas dos anteriores Moderat e II.

Já estávamos com a pulga atrás da orelha, depois de termos visto o espetáculo que deram no Primavera Sound (transmitido em streaming) de Barcelona, a semana passada. Mas ao vivo é outra conversa. A mancha negra eletrónica foi embelezada por um ecrã com imagens de alta definição, filmes e gráficos e linhas e pontos e palavras, tudo efeitos (enfeites) sincronizados ao milímetro, numa coreografia de encher o olho – arriscamos dizer, meio a brincar meio a sério, que a componente visual deste espetáculo deve ter dado tanto trabalho a fazer como a respetiva música.

Não que fosse preciso, a música do Moderat tem valor próprio, mas assim é mais espetacular. A palavra é mesmo essa, espetáculo, foi o que tornou a atuação dos Moderat um momento absolutamente brilhante, essa capacidade de amplificar o poder da música com efeitos especiais impossíveis de reproduzir em qualquer outro sítio que não num grande palco.

Não fosse a má qualidade do som mais perto do palco, teria sido perfeito – a palavra é forte, não a estamos a usar com leveza. Os fãs das primeiras filas saíram a perder, infelizmente, com o som muitas vezes distorcido quase ao ponto do insuportável – incluído dois cortes, a fazer lembrar um amplificador a estoirar com o volume no máximo. Pelo contrário, mais atrás no declive ouvia-se música limpa, é uma compensação técnica talvez difícil mas, de certa forma, injusta. A maravilha que foi o manejo da luz e imagem, faltou no som.

No último dia, fazemos um breve balanço

A juntar à atuação dos Moderat, a ter de escolher outro momento chave, a memória voa para o espetáculo que PJ Harvey deu na sexta-feira, acompanhada por nove músicos exímios. Os islandeses Sigur Rós também estiveram à altura da responsabilidade, ainda que agora estejam reduzidos a três elementos, com tudo de bom e de mau que isso tem nas composições que foram feitas para mais instrumentos.

Num festival homogéneo, carregado de rock e eletrónica — o rap e o hip-hop têm ficado esquecidos — houve apenas três bandas portuguesas. Entre os Sensible Soccers, os White Haus e os Linda Martini, a experiência de palco e a energia destes últimos saiu vencedora, se é que nisto da arte há vitórias. Para além de olhar para o cartaz e escolher os nomes favoritos, este é também um momento de descoberta e de deambulação. Car Seat Headrest e Algiers são nomes a manter debaixo de olho. Battles também, para quem nunca se tinha cruzado com eles.

Ao longo destes três dias estivemos em direto e assistimos a muitos mais espetáculos do que os que desenvolvemos nos artigos finais. Por isso recomendamos (mesmo) que leia sobre o que vimos e ouvimos na quinta, na sexta-feira e este sábado. Além da música falámos também do espaço e do ambiente que levou ao Parque da Cidade do Porto cerca de 80 mil pessoas nos três dias, quase metade vindas do estrangeiro.

Não se mexe numa receita com tamanho sucesso, por isso no próximo ano, dias 8, 9 e 10 de junho, decorrerá a sexta edição do NOS Primavera Sound. Os bilhetes para 2017 vão estar à venda já a partir do próximo dia 4 de julho.