O que é de antigamente seduz mais. Não há volta a dar. Acontece quando falamos em Cruijff, Maradona, Roberto Baggio, Gianni Rivera, Boban, Batistuta, Laudrup… Sei lá, nem era preciso serem os maiores, mas o antigamente tem outro encanto. Outro jeito. A imagem cansada da TV lembra-nos que o tempo passa. A bola parecia mais redonda, os golos mais gloriosos e épicos. Mais especiais. É isso, parecia tudo mais especial. É por isso que há golos que ficam na memória para sempre.

Quando, aos 32′, Bonucci levanta a cabeça, calibra o pé, usa a bola como se fosse um drone e leva-o para onde quer, no pensamento começam a tilintar lembranças e salta uma: Frank de Boer! Em 1998, ainda mais longe do que estava Bonucci quando serviu Giaccherini para o 1-0, Frank de Boer e a sua canhota maravilhosa obrigaram Dennis Bergkamp a sacar um coelho da cartola. É que depois de um passe de sonho daqueles, o genial holandês que tinha medo de andar de avião só tinha uma saída: fazer golo. E foi assim, com uma receção sublime e um xau-aí a Ayala, que marcou naquele Holanda-Argentina, no França-98. E o relato do golo? Enfim. Especial.

Antonio Conte, futuro treinador do Chelsea, arruma a sua Itália num 3-5-2. É das táticas mais difíceis de jogar, talvez só ultrapassada pelo 4-4-2 clássico. Foi criada há muitos anos para o terceiro homem ajudar a defender (líbero), qual bombeiro, mas também para depois ser ele a lançar o ataque. O que é certo é que esta disposição permite ter muita gente a defender, e depois muita gente na construção. E pressionar com dois na frente. Parece meio arriscada, parece que cria desequilíbrios, mas, quando bem aplicada, é talvez aquela que garante mais soluções. Bom, teorias…

A Itália de Conte não tem nomes de antigamente. Já não há Nesta, Baresi, Albertini, Inzaghi e Maldini. Mas há um que jogou com ou contra essa gente toda. Buffon parece eterno, e continua a fechar a porta da sua baliza. O guarda-redes da Juventus alcançou inclusivamente Paolo Maldini como o jogador com mais partidas em competições oficiais. Iker Casillas disse há dias que só pendurará as botas quando Buffon o fizer. Se calhar é melhor o espanhol esperar sentado.

A Bélgica é pura magia, com a geração de ouro a fazer sonhar a sua gente. Quem tem nomes como Hazard, Lukaku, de Bruyne e Witsel está obrigado a querer mais, a querer fazer mossa no shark tank que são sempre as fases finais de Euros. A Bélgica até entrou melhor, mas foram perdendo o pio e a coragem, quando iam batendo no muro que é o meio-campo italiano. De Rossi, Parolo e Giaccherini, mais Candreva e Darmian nos corredores, aproximavam-se dos três defesas e criavam uma muralha mais sólida que a da China. Os belgas mexem bem na bola, mas não a faziam chegar a Lukaku. Os italianos iam deixando os craques jogar mais longe da sua área. Parece aqueles jogos de veteranos contra miúdos cheios de genica: uns correm e parecem Pelés, outros controlam e matam na hora certa. Foi assim durante muito tempo.

E na segunda parte a Itália ficou ainda mais presa às posições, sem aventuras, sem desvarios. Queria ser italiana, como sempre é. Rigorosa, rija e malandra. A bola pode ser dos outros, não há pudor em aceitar isso. Hazard, Witsel e companhia bem podiam ter no pensamento a ilusão de que estavam a mandar no jogo, que seria uma questão de tempo até aquela gente de branco e azul quebrar. O empate chegaria. Mas estavam enganados. Às vezes a História parece que joga, e as bolas capricham para não trair quem cuidou tão bem do futebol, como Buffon. Que o diga Lukaku, que no arranque da segunda parte teve logo uma oportunidade na cara do guarda-redes mítico. A bola saiu por cima.

Os belgas iam forçando, recebendo apenas a resposta de um tiraço de Immobile, a que Courtois respondeu com segurança, desviando para longe. Só a Bélgica estava interessada no jogo (italianos piscam o olho quando leem isto, malandros), os outros parecia que olhavam para o relógio. Mas, senhoras e senhores, isto é a Itália, certo? Aquela gente não desmonta, parece que joga xadrez com uma mão e ténis com a outra. E foi assim, num contra-ataque venenoso, que os homens que dizem ciao e grazie mataram o jogo. Candreva, um dos homens mais bem-sucedidos no capítulo do cruzamento da Europa, surgiu com o andamento do costume e picou, para Pèlle fechar as contas. Prego!