Uma ilha com cerca de 300 mil pessoas perdida lá no norte do Atlântico, onde é notícia o tipo que não é de um loiro quase amarelo, onde até há uns anos o futebol no inverno era mentira — os campos congelavam, literalmente, e não havia relvados artificiais ou cobertos — vai pela primeira vez jogar um Europeu de futebol. Se isto pode tirar o sono a qualquer islandês, agora imaginem os que vão na terça-feira entrar em campo contra Portugal (21h) em Saint-Étienne — “Não me surpreenderia se hoje alguém batesse à porta do médico a pedir comprimidos para dormir”.

Ele ri-se no fim. Não muito, o suficiente. Gylfi Sigurðsson é o craque da equipa e aparece ao lado de Aron Gunnarsson, o capitão, na conferência de imprensa que acontece no Estádio Geoffroy-Guichard. O primeiro é alto e magro, o segundo já é grandalhão, barbudo e tatuado. Estão descontraídos, senhores de um inglês que os faz dispensar auriculares para traduções (jogam no Cardiff e no Swansea, ambos em Gales). Parece que os dois estão num Real Madrid ou num Barça, que já aqui estiveram muitas vezes, que nada disto os está a afetar.

Ou então é apenas por serem islandeses, um povo nórdico e, dizem os clichés, mais frio no trato. Mas não na conversa. “A preparação é muito similar à de jogos anteriores, estamos muito entusiasmados. Já há muito tempo que esperamos pelo início do torneio. Estou muito orgulhoso, é a primeira coisa que me vem à cabeça”, conta Sigurdsson, antes de mandar a piada da eventual falta de sono esta noite. “É indescritível. Sonhei com isto em criança. Acho que todos os jogadores tinham isso no canto da cabeça. Conseguimos. Claro que é difícil descrever o quão orgulhoso estou”, tenta descrever Gunnarsson, quando lhe perguntam sobre os milhares de islandeses que estão em França a apoiar — o que, em proporção, equivalerá a umas quantas fatias do país.

Gunnarsson não fala tanto quanto Sigurdsson porque as perguntas não o querem tanto a ele. Mas nenhum abre tanto a boca quanto Lars Lagërback. O sueco, de 67 anos, que é o mais calmo de todos por na bagagem já ter três Europeus (2000, 2004 e 2008) e três Mundiais (2002, 2006 e 2010). “Não vou mudar nada antes de eles irem para o campo, é o capitão que diz as últimas palavras. Se disser alguma coisa é algo mais individual, ou quando sai o 11 adversário. Mas, por norma, não digo grande coisa ao grupo”, revela, quase sempre sério, como quem está a fazer um frete por estar ali.

Ou talvez não, pois de vez em quando lá se solta um pouco, quando um jornalista português insiste em questioná-lo sobre a seleção nacional. “Temos uma reunião de equipa hoje à noite em que daremos a última informação aos jogadores. Agora tem sido preparação física e coloca-los na mentalidade certa para este tipo de jogo. Mas com estes tipos isso não é um problema, mentalmente são muito fortes. O nosso objetivo é manter a bola se a conseguirmos ter ou jogá-la rápido se for preciso. Penso que Portugal terá mais a bola que nós. Acho que conhece melhor a equipa de Portugal que eu. Ou melhor, não tenho a certeza disso”, concluiu, esboçando um sorriso que tem vergonha em se mostrar.

Iceland's forward Johann Berg Gudmundsson (C) is left holding the ball and is on the receiving end of a joke from team mates during a training session of Iceland's national football team at the d'Albigny sports center in Annecy-le-Vieux, southeastern France, on June 11, 2016, during the Euro 2016 football tournament. / AFP / ODD ANDERSEN (Photo credit should read ODD ANDERSEN/AFP/Getty Images)

Foto: ODD ANDERSEN/AFP/Getty Images

Não faltam as questões que vão diretas a Cristiano Ronaldo ou que sugerem atalhos para chegar ao capitão português. Na mente de toda a gente deve estar o que Lagërback disse há semanas, após a final da Liga dos Campeões, criticando Pepe pelo teatro que deixa no relvado. Um jornalista norueguês até lhe pergunta quem será o “melhor ator” no jogo de terça-feira. O sueco não cai nessa. “Claro que olhamos para todos os adversários para ver se têm jogadores especiais. Sabemos Ronaldo é um dos melhores jogadores do mundo, mas já é um cliché dizê-lo. Não posso dizer que ia chorar se Ronaldo não estivesse amanhã na equipa”, confessa, após frisar o que “defende há anos” — “Não gosto de acting. Já disse que se devia suspender os jogadores, sobretudo se exagerarem tudo para influenciar o árbitro”.

No meio de tudo isto, pontualmente, Heimir Hallgrímsson vai intervindo. O adjunto da Islândia, o homem que vai passar a mandar quando Lagërback disse adeus, no fim deste Europeu, vai arrebitando o humor da conferência de imprensa. É ele quem diz que “basta ler um bom livro” quando Sigurdsson menciona a falta de sono para logo à noite, ou que completa a resposta de Gunnarsson sobre os adeptos islandeses, aludindo à pancadaria que se viu em Marselha entre ingleses e russos: “Tenho a certeza que os nossos se vão portar bem”.

Como ele quer falar os jornalistas lá lhe começam a fazer perguntas sobre o jogo e Portugal. “Psicologicamente, deverão querer acabar com o encontro o mais rápido possível. Jogaram muito bem nos últimos dois jogos, não é coincidência terem escolhido a Noruega e a Estónia. Não têm uma equipa que jogue só de uma maneira, são muito flexíveis. É difícil de jogar contra eles, não podemos defender só de uma maneira”, analisa.

Estes islandeses, além de calmos, estão engraçados.