A participação de Portugal no Euro 2016 começa hoje. Para quem gosta de futebol, esta frase não trará novidade, só alegria. Para quem não gosta, será mais um motivo para lamentar: “mas não se fala de outra coisa?” Fala. Ou melhor, escreve. E é para isso que aqui estamos.

É que se os primeiros, os que vibram a cada arrancada de CR7, a cada trivela do Mustang Quaresma ou a cada falhanço de Éderzito têm uma quantidade assinalável de ecrãs gigantes, espalhados por praças e pracetas, largos e larguinhos de Norte a Sul, para acompanhar os jogos da seleção — já para não falar de uma mão-cheia de estabelecimentos (pode consultar artigos do Observador sobre esta matéria aqui ou aqui) que privilegiam as transmissões desportivas –, quem quer distância deste ambiente de euforia luso-futebolística pode ver-se apanhado, de repente, no meio de um estádio improvisado, com adeptos ruidosos a beneficiar da oferta de uma imperial por cada golo, bastando para tal escolher o sítio errado (um restaurante com ecrã gigante) à hora errada (de jogo).

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Se este é o tipo de cenário que dispensa nesta época, atente nas sugestões que se seguem. (foto: facebook.com/FutebolPark2014)

Este artigo é, por isso, para quem deseja ir jantar fora nesta época mas não quer correr o risco de apanhar, nas mesas do lado, uma turba de gente a entoar o recauchutado clássico de Abrunhosa, “Tudo o que eu te dou”, recém-transformado em hino da seleção. Nos restaurantes lisboetas que se seguem, a televisão ou não existe, ou está desligada ou não estará sintonizada no evento desportivo do momento.

(A seleção abaixo não contemplou, obviamente, restaurantes com estrela Michelin e demais congéneres de fine dining. Nesses, é certo e sabido, também não há televisão. Mas a ideia foi dar outras opções aos leitores, menos dispendiosas.)

Comecemos esta lista por um restaurante frequentadíssimo por figuras do mundo do futebol mas que, curiosamente, se mantém à margem das transmissões desportivas. Trata-se do clássico Solar dos Presuntos (Rua das Portas de Santo Antão, 150. 21 342 4253). De lá asseguram-nos, por telefone, que, para já, não têm nada previsto para transmitir os jogos, ao contrário do que aconteceu noutras competições. Ou seja, quem quiser ver as estrelas da seleção terá de procurá-las entre as inúmeras fotografias espalhadas pelas paredes, muitas delas tiradas com o mítico Evaristo, o dono do restaurante, que foi também cozinheiro da seleção em dois Europeus, 1984 e 1996.

Ainda no campeonato da cozinha tradicional/clássica (onde também não falta a inspiração minhota), a falta de interesse pela competição futebolística é uma boa oportunidade para conhecer a casa de Almerindo Gonçalves, o Petite Folie (Avenida António Augusto Aguiar, 74B. 21 314 1948), de que falámos neste artigo. Na sala de refeição não há televisão, não há Euro 2016, mas há, com sorte, uma perdiz à Convento de Alcântara de final de época, sabiamente recheada pelo mestre Gonçalves.

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No Petite Folie não há televisão. Mas há boa cozinha.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

No campeonato, não da Europa, mas da cozinha mais moderna, ainda que com sabores nacionais, eis três hipóteses a ter em conta. Primeiro, o Entra (Rua do Açúcar, 80. 21 241 7014), no Beato, onde todas as semanas roda um menu degustação surpresa para apreciar ao jantar. A televisão, essa, é que não entra nem nunca entrou ali. Depois, o Boi-Cavalo (Rua do Vigário, 70B. 93 875 2355) em Alfama, onde o chef Hugo Brito aplica o jamais celebrizado pelo então ministro Mário Lino para responder à pergunta “vão ter televisão?” Já um tablet na cozinha, para ir acompanhando o resultado, é outra história. Finalmente, no mais recente projeto de Leopoldo Garcia Calhau, o Café Garrett (Teatro Dona Maria II, Praça Dom João da Câmara. 21 193 3532), também se aposta em prender os clientes pela comida, seja através de um dos menus degustação ou escolhendo à carta. Televisão? Nem pensar, até porque o restaurante fica dentro do Teatro Dona Maria II. (Quem quiser experimentar a cozinha de Leopoldo com os olhos na bola, pode/deve optar pelo seu outro restaurante, o Sociedade)

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Polvo, batata-doce e coentros, um dos pratos do Café Garrett.
(© Tiago Pais / Observador)

Outra boa solução, já com uma cozinha de cariz mais internacional, será o Chimera (Rua do Salitre, 131. 91 871 7050). “Televisão só no nosso pub”, diz Thomas Mancini, um dos chefs e proprietários do restaurante. O pub a que se refere é o novíssimo Chimera Brewpub, que o Observador visitou ainda antes da abertura e onde, aí sim, se transmitem não só os jogos de Portugal como todos os outros. E por falar em cozinha internacional — não será difícil encontrar restaurantes especializados em cozinhas de outros países onde a bola não rola. É o caso, por exemplo, do (italianíssimo) Il Matriciano (Rua de São Bento, 107. 21 395 2639), onde até há novidades na ementa para experimentar, entre elas ravioli caseiros com burrata D.O.P e filet mignon em tiras com rosmaninho e verduras.

No que à comida chinesa diz respeito, mais concretamente à que se foca nas receitas típicas da região de Sichuan, dois destinos que também devem ser considerados: The Old House (Rua Pimenta, 9. 21 896 9075), no Parque das Nações e o mais recente ChuanYue (Avenida Frei Miguel Contreiras, 54B. 96 719 4039). Tanto num como noutro, a emoção pode chegar à mesa, sim, mas apenas pelo picante da comida e nunca por uma bola no poste, um falhanço de baliza aberta ou um golo nos descontos.

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As mesas mais resguardadas do The Old House, para quatro pessoas, são o garante de tranquilidade absoluta à refeição. (foto: © Michael M. Matias / Observador)

Entre outras opções, estas mais rápidas e menos tradicionais, contam-se, por exemplo o Ground Burger (Avenida António Augusto Aguiar, 148A. 21 371 7171), provavelmente a melhor hamburgueria de Lisboa. “Nunca tivemos telvisão e ainda não vai ser desta”, dizem. E porque não aproveitar a febre futebolística para uma visita à requisitadíssima taqueria Pistola y Corazón (Rua da Boavista, 16. 21 342 0482)? Não havendo televisão — que não há — é provável que a (habitualmente) complicadíssima missão de arranjar mesa à hora de jantar esteja ligeiramente facilitada. O mesmo princípio aplica-se aos cachorros do FRANKIE (Rua Dr. João Soares, 8B. 21 400 3781), onde, garantidamente, não se vai cantar por Portugal, só por mais comida. “Nem sequer temos televisão”, garantem. A esplanada é o destino ideal nesta época.