Óóóóóóóóó!!”. Não são bem gritos, é mais um levantar de voz coletivo, vindo da mesa que está ao canto da sala. Gareth Bale acaba de marcar, mais um livre, mais um golo. Ali devem estar uns quantos jornalistas ingleses ou galeses, é onde o sítio onde me tenho que sentar, portanto, dentro da sala de imprensa do Stade de France (o Inglaterra-País de Gales joga-se em Lens). O intervalo chega, pego no portátil, aproximo-me da mesa e a primeira coisa que oiço é que “o Sterling está cada vez pior, não faz nada bem”. Armo-me em intruso e comento, tento intrometer-me na conversa, eles não me dão muita, não estão para aí virados. Mas têm razão no que dizem.

São 45 minutos de más decisões, perdas de bola, tentativas de drible à porta da própria área e, logo no arranque, um remate dentro da área, que passa por cima. Este ponto não chega para invalidar os restantes, que juntos o tornam no pior dos ingleses que aparecem para jogar a primeira parte. A Inglaterra do primeiro jogo contra a Rússia — intensa, móvel, a trocar muitos passes, a arriscar e a tentar tabelas ao centro, no ataque — sumiu para dar lugar à Inglaterra do antigamente. Lenta, prudente em demasia, muitos passes longos, a querer chegar à baliza de forma direta e sem atalhos.

Até podia resulta, mas não resulta porque Harry Kane não segura uma bola, Sterling perde-as por todo o lado e Lallana e Ali não correm para compensar o pouco que Wayne Rooney corre. Isto é estranho, não o jogo, mais a forma como, aos 30 anos, o avançado que mais golos tem na seleção inglesa (52) joga sentado numa cadeira a meio campo, a distribuir passes e a tornar obrigatório que toda e qualquer bola passe por ele. Funciona quando a equipa joga rápido, piora tudo se quem o rodeia é lento a fazer as coisas. Como ali.

Os galeses não se importam, sabem bem o que querem. Que é fecharem-se junto aos três centrais e dois laterais lá atrás, respeitarem a paciência, esperarem por bolas que possam ser roubadas para as passarem todas a Gareth Bale. O que puder vir no ataque virá dele, seja um lançamento, um canto ou um livre. Pum, está lá dentro aos 42’ e faz o mesmo que Michel Platini em 1982 e Thomas Hässler em 1992, dois golos de livre no mesmo Europeu. “Não, não deixem que passem a bola a este”, diz o jornalista inglês ao meu lado, que trabalha para a UEFA.

Wales' forward Gareth Bale (C) vies for the ball with England's defender Chris Smalling (R) and England's defender Danny Rose during the Euro 2016 group B football match between England and Wales at the Bollaert-Delelis stadium in Lens on June 16, 2016. / AFP / MARTIN BUREAU (Photo credit should read MARTIN BUREAU/AFP/Getty Images)

Foto: MARTIN BUREAU/AFP/Getty Images

E a Inglaterra melhora, muito, com Daniel Sturridge e Jamie Vardy, os dois avançados que trocam com Kane e Sterling e dão mais futebol à equipa. O primeiro afasta-se da áreas para se associar ao jogo, recebe, segura, tabela e faz coisas acontecerem com o pé esquerdo. O segundo corre, pede bolas no espaço e cansa os centrais galeses, mas pede à equipa que jogue mais rápido e alargue o jogo — ou seja, que ponha um homem colado a cada linha e para seduzir a defesa de Gales a alargar o espaço entre os seus jogadores. Os ingleses percebem a urgência e começam a jogar com pressa.

Rooney tem a bola mais perto da área e, com um par daquelas receções orientadas, consegue rematar. Uma muralha galesa bloqueia as bolas. Abusam da velocidade de Kyle Walker para dar cruzamentos a Vardy. Fartam-se de ter a bola e de conseguir cantos, que não dão mais do que cabeceamentos por cima da baliza. Na sobra de um deles, Sturridge cruzou de volta e Ashley Williams tocou para Jamie Vardy, que estava em fora-de-jogo na pequena área se fosse um inglês a dar-lhe a bola. O golo coloca os ingleses a discutirem à mesa sobre um fora-de-jogo que não o foi — “Não interessa, já foi golo”.

Gales está em campo para defender e segurar o ponto que lhe dá jeito. São mais guerreiros que futebolistas, mal passam da linha do meio campo, Gareth Bale fica a saber o que é correr como um trinco. É a qualidade de quem sabe que é mais pequeno que os outros e está consciente que ter o canhoto que Ronaldo obriga a estar na sua sombra, no Real Madrid, pode não ser suficiente. Mesmo que, antes do jogo, ele ache que os galeses têm “muito mais paixão e orgulho que os ingleses”. Até pode ser que tenham. O que não têm é mais do que um jogador que improvise como Daniel Sturridge o faz aos 92’.

Bola à entrada da área, arranca, espera que Delle Ali segure a posição de costas para a baliza e pede-lhe uma tabela. O médio tem quatro homens perto e tem de inventar uma forma de devolver o passe ao remetente. Vira-se e dá com o calcanhar para o lado de onde vem Sturridge a correr, que ainda desvia um adversário antes de rematar com o direito, a dois metros do guarda-redes. O avançado do Liverpool dança o seu breakdance com os braços, Rooney agarra a câmara de televisão e grita-lhe, os ingleses ficam malucos. Os que estão no campo e os que tenho aqui ao lado, na mesa, que já estavam a fazer contas à hipótese de a Inglaterra ficar em terceiro lugar do grupo.

Agora só precisam de um empate contra a Eslováquia, no último jogo, para confirmarem os oitavos-de-final. “Quem disse?”, pergunta o inglês sentado ao meu lado, quando outro solta esta certeza para o ar, quando a lê algures na internet e lhes dá entretenimento para os minutos que se seguem. Há quatro dias tinham-se deixado empatar nos descontos, contra a Rússia (1-1), agora foram buscar a vitória para lá dos 90′, contra Gales. O que o tempo tira, o tempo dá e os ingleses sorriem. Até os que estão aqui ao lado.