I-ni-es-ta! I-ni-es-ta! I-ni-es-ta!…

Não é todos os dias. Nem por qualquer um. Em Nice, no estádio Riviera, o cronómetro apontava-nos precisos 50 minutos de jogo. Jogava-se o Espanha-Turquia do Euro 2016. E a Espanha tinha feito o 3-0 um minuto antes, por Álvaro Morata. Mas o nome que se entoou das bancadas foi o de Andrés Iniesta — e entoou-se longamente, em uníssono. Não eram só espanhóis a dizer-lhe todos afinadinhos o apelido. Não podiam ser. Eram também os turcos, arranhando no castelhano para lhe agradecer. No futebol há que ser grato, até quando os nossos vão perdendo. Afinal, pagou-se o bilhete para ver futebol, de primeira água se possível for, e com Iniesta no relvado não há minutos áridos. Nunca há.

Não é mais, Andrés, o canterano que ascendeu (por mérito e talento) ao balneário de Louis van Gaal no Barcelona em 2002, um rapazinho ruivo, 19 anos, de tez branca quase pálida, tímido, baixinho, muito franzino. Hoje, e olhando só ao corpo, pouco se alterou nele. O rosto sim, transformou-se: envelheceu, foi-se-lhe parte do cabelo, e o que sobrou ficou grisalho. Mas o que os anos lhe levaram em calvície, trouxeram-lhe de volta em técnica. Puríssima. Quando a bola lhe cai na bota direita — ou na esquerda; tanto faz, que ele é ambidextro –, cai como que por magnetismo, tudo à volta pára por instantes breves, os adversários lá despertam e tentam roubar-lha, mas Iniesta curva-se sobre ela, rodopia em sua volta, sempre de cabeça levantada, olhos mais adiante do que os pés, e coloca-a, curta ou longa, em que veste a mesma camisola que a sua, em Espanha ou no Barça.

O que também se alterou em Iniesta ao longo dos últimos 14 anos foi a posição no relvado. Começou por ser um médio ofensivo, dos que pensam o ataque e pouco ou nada recuam à defesa, mas que por força da tática se deu à esquerda e lá se foi fixando. Vinha ao centro volta e meia, procurar a bola, levá-la para diante ou somente tabelá-la. Pela direita raramente o víamos. Iniesta não é mais um médio ofensivo feito extremo. Aliás, não há mais uma posição para ele em campo. Ora se vê na direita, ora mais à esquerda — e tantas vezes no centro. Ora na metade atacante do campo, ora recolhido até à defesa. Ora está como não está. Onde estiver a bola, está ele. E se ela se vai, vai também com ela. Crie-se, pois, uma posição que o futebol não tem ainda: a de omnipresente. É isso que Iniesta é.

Contra a Turquia não fez qualquer golo. Ou assistência tão pouco. Mas fez a Espanha ter a bola para si. Os turcos mal a viram o jogo todo. Quando lá chegavam, para a recuperar, a bola tinha-se ido. Os espanhóis não se cansavam. Iniesta não se cansa nunca — e se se lhe vê um pingo de suor no rosto, não nos enganemos: é pelo calor que faz. O que corre veloz é a bola, não o jogador. Nunca o jogador. E atrás dela vão os turcos, que terminaram o jogo extenuados, a arfar com um pug (um daquele adoráveis cães quase desprovidos de focinho) em pleno mês de agosto, mas quando a tinham para si, não lhe tomavam o gosto durante mais de um minuto. E às vezes nem isso. Aí, não se “culpe” Iniesta mas Busquets, que recupera bolas tão depressa quanto Lucky Luke dispara sobre a própria sombra no velho oeste.

I-ni-es-ta! I-ni-es-ta! I-ni-es-ta!… — Lá prosseguiam as bancadas o seu canto de divinação.

Mas porquê? Que fez ele? Foi o “inventor” do terceiro golo da Espanha. Estava à entrada da área, talvez a um metro desta, mas tinha uma “muralha” de turcos por diante. Impenetráveis. Ou talvez não. Iniesta avançou um passo para dentro, sempre com a bola encostada na magnética bota direita – e a “muralha” turca a observá-lo, estática, como só as muralhas o são –, viu Jordi Alba a entrar na área pela esquerda, e colocou-lhe lá a bola (sim, entre a “muralha” impenetrável da Turquia) dentro da área. Alba recebeu-a só, mas mal a recebeu veio Volkan Babacan fazer-lhe “companhia”, saindo-se dos postes para a segurar. Num ápice, Alba passou-a para dentro, onde Morata só teve que encostar para o golo — o guarda-redes turco já não estava lá para o impedir de fazer que quer que fosse. O passe de Iniesta é de um futebol à parte. Registe-se: houve este noite um jogo de futebol em Nice, onde se defrontaram a Espanha e a Turquia; e depois houve o “jogo” de Iniesta. Ainda melhor que o primeiro.

Por falar em “haver”: nos restantes golos espanhóis houve Nolito e Topal. Ou melhor: não houve Topal. O primeiro golo é de Morata, mas o cruzamento de Nolito é melaço autêntico, de tão “açucarado” que foi. O médio ex-Benfica (hoje no Celta de Vigo, mas com Barcelona e Manchester City à perna) estava no centro do meio-campo espanhol, descobriu Alba à esquerda, mas este não cruzou para a área, devolvendo a bola a Nolito. Os turcos, entretanto, foram todos atrás de Alba e deixaram Nolito livre como um passarinho. Ora, tudo o que não se pode dar a Nolito é espaço de sobra. Com tanto, cruzou (34′) para a área, Mehmet Topal errou o tempo de salto, falhou o corte e Morata, nas suas costas, cabeceou. Babacan não teve reação de defesa. Mas praguejou depois com Topal.

Faltava mais um para fechar as contas na primeira parte. E veio pouco depois (37′), por Nolito. E Topal, claro, esteve lá metido. Fàbregas, em zonas que são as suas, centrais, de criação, colocou a bola na área, picou-a para lá, Mehmet Topal parecia ter tudo controlado — mas não tinha –, acabou por atrapalhar-se e cortar a bola para trás, e foi lá que surgiu Nolito, a rematar em desequilíbrio, desviando a bola de um desamparado Volkan Babacan. Agora sem praguejo na boca.

A Espanha está, ao fim de duas vitórias no Grupo D, apurada para os oitavos-de-final de um Euro do qual (ainda) é a detentora do troféu. E ainda bem que está. Sempre são mais umas semanas com Iniesta nos relvados de França. Se não o virmos por lá até à final de Paris, se a Espanha for eliminada nos “oitavos”, haverá de estar aqui ao lado, na casa do vizinho, na esplanada, no supermercado, até no nosso emprego. A omnipresença tem destas coisas.