Sob o tema “Os Novos Mestres”, o festival de Teatro de Almada afirma a continuidade face ao trabalho e ao pensamento do fundador Joaquim Benite (1943-2012), mas abre as portas a novas linguagens dramatúrgicas. Rodrigo Francisco quer dar a conhecer os dramaturgos em ascensão, “autores quem têm hoje entre 40 e 50 anos, com percursos e estéticas singulares, disruptivas e que usam autores clássicos para falarem da atualidade”.

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A peça A Gaivota de Tchekóv revisitada por Thomas Ostermeier, nos dias 10 e 11 de Julho no TMJB em Almada

Os cabeças de cartaz desde ano são os dois enfants terribles do teatro alemão: Thomas Ostermeier e Falk Richter. Ambos provêm do Teatro Shaubühne em Berlim, ambos são influenciados pela violência e o desespero realista dos britânicos Sarah Kane e Mark Ravenhill, pelas tragédias de Shakespeare, por Heiner Müller e Tchékov. Porém, as suas estéticas e conceções dramatúrgicas são paradigmáticas dos novos e diferentes caminhos do teatro no século XXI.

Apesar de terem trabalhado juntos, hoje Falk faz espetáculos onde ataca abertamente o trabalho de Ostermeier e vice-versa. “Ver o trabalho destes dois dramaturgos alemães é ver também duas correntes antagónicas do teatro do século XXI”, diz Rodrigo Francisco:

Não quero que o meu gosto pessoal predomine no programa do festival. O importante é mostrar as diferentes formas que assume hoje o teatro mundial, nomeadamente o teatro mais tradicional onde o texto é central e o teatro mais performativo e experimental onde o texto já não é central, mas que joga com as imagens, o multimédia as novas tecnologias e a multidisciplinaridade. Um festival como este não pode ignorara esses movimentos.”

A Língua alemã não é só a de Angela Merkel, é também, e mais uma vez, a Língua que encerra alguns dos grandes conflitos europeus da atualidade. Que ela seja a “estrela” da edição deste ano do Festival de Teatro de Almada mostra que a cultura é fundamental para propulsionar um conhecimento sobre o mundo que possa ser uma alternativa aos media. Mostrar uma visão da realidade e dos conflitos individuais e políticos que nos assolam de uma forma totalmente diferente é uma das ambições do diretor do festival de Almada: “Por um lado, quero continuar a dar a conhecer textos clássicos. Tenho um grande amor aos textos, sobretudo aos clássicos, e acredito que eles são a única língua franca na Europa, aquilo que nos permite entendermo-nos uns aos outros”, diz ainda o diretor. “Mas, por outro lado, sei que não são só os antigos que nos ensinam, os novos também, daí a necessidade de mostrar os nomes que serão o futuro do teatro e a forma como eles estão a reinterpretar os clássicos à luz do nosso tempo.”

O polémico dramaturgo alemão vai estar pela primeira vez em Portugal

O polémico dramaturgo alemão, Falk Richter vai estar pela primeira vez em Portugal

Assim a língua alemã impõe-se com duas peças encenadas por Thomas Ostermeier: A Gaivota, do mestre russo Anton Tchékov, e Susn, do iconoclasta dramaturgo, escritor e realizador de cinema Herbert Achternbusch, também ele alemão, anarquista e colaborador frequente do cineasta Werner Herzog. E depois com o polémico performer Falk Richter (em colaboração como o coreógrafo alemão de ascendência iraquiana Nir Volff). A obra que se mostra no festival é Cittá del Vaticano, onde aborda a obsolescência do Vaticano, da moral católica e a homossexualidade.

O francês Joël Pommerat promete ser uma presença menos disruptiva mas igualmente violenta com o conto infantil de Carlo Collodi, Pinóquio. O menino de madeira aqui tornado figura paradigmática de uma humanidade gananciosa, imatura. A Companhia de Teatro de Almada vai levar à cena Não D’Amores de Gil Vicente por Ana Zamora, encenadora espanhola especializada no teatro pré-barroco; e O Feio de Marius Von Mayenburg, dirigido por Toni Cafiero.

Serão ao todo 29 espetáculos de teatro e dança a decorrer em 10 palcos de Almada e Lisboa. Contas feitas nas edições anteriores, passam pelo festival cerca de 25 mil pessoas. Sessões esgotadas são coisa habitual. E, sobretudo, há público para o teatro de outras línguas. Para Rodrigo Francisco, isto mostra que “a cultura é a única coisa que segura a Europa”.

Susn, do iconoclasta Herbert Achternbusch, encenada por Ostermeier estará no CCB nos dias 14 e 15 de Julho

Susn, do iconoclasta Herbert Achternbusch, encenada por Ostermeier estará no CCB nos dias 14 e 15 de Julho

Haverá ainda um ciclo dedicado ao novíssimo teatro italiano e um ciclo de conferências ministrado por Ricardo Pais, que serão posteriormente publicadas em livro. Estas conferências dadas pelos mestres antigos acontecem pelo terceiro ano. Os anteriores foram Peter Stein e Luís Miguel Cintra. Pelos vários palcos vão ainda passar produções dos Estados Unidos da América, Argentina, Israel, Roménia, Noruega, Suíça e Espanha. Este ano a artista plástica convidada para fazer o cartaz do festival foi Graça Morais.

A Europa dos revolucionários e dos estabelecidos

Em 2015, o encenador Falk Richter declarou publicamente que “as pessoas que são contra os LGBT e os transgénero são zombies que deveriam ser abatidos com um tiro no meio dos olhos”. Estas declarações causaram uma imensa polémica na Alemanha e o carro de Richter foi mesmo incendiado em frente à casa do autor, que é considerado um dos mais importantes dramaturgos de língua alemã.

Este acontecimento poderia estar numa das peças de Richter porque ele espelha as mudanças, as dúvidas, o mal-estar das sociedades ocidentais em geral e da alemã em particular. Richter defende que, atualmente, imperam padrões de pensamento que é preciso alterar. Daí que as suas peças rejeitem a preponderância do texto e prefiram as histórias pessoais dos autores, favorecem um registo fragmentário e não a narrativa convencional, a música eletrónica, a dança. Isto pode ser visto em Cittá del Vaticano onde está em causa o colapso de um sistema de organização da sexualidade e da identidade de género construído sobre a moral católica.

Pinóquio de Carlo Collodi. O teatro poético e Joël Pommerat para adultos e crianças nos dias 15 e 16 de Julho no CCB

Pinóquio de Carlo Collodi. O teatro poético e Joël Pommerat para adultos e crianças nos dias 15 e 16 de Julho no CCB

Ora, é a mesma Europa dos artistas estabelecidos e dos que passam rapidamente de revolucionários a clientes do sistema que fala A Gaivota revisitada por Ostermeier onde com o hino dos Doors em fundo — The End — se fala acima de tudo de uma sociedade acobardada, com medo de perder o status quo, cheia de doenças físicas e psíquicas, atordoada por medicamentos. E é ainda a mesma Europa onde uma mulher envelhece, perdida na floresta da Baviera, condenada a fazer para sempre o luto de Deus até à senilidade.

Mesmo o teatro poético de Pommerat mostra, com o seu Pinóquio, uma criança — eco de todos nós — incapaz de viver o tédio, a pobreza, fascinada com tudo o que brilha e que promete uma alegria falsa. Pommerat, que recorre frequentemente aos contos de fadas para falar de temas que afinal são ancestrais, resume bem as muitas e conflituantes questões do nosso tempo e que a 33ª edição do Festival de Teatro de Almada quer refletir: a jornada para nos tornarmos humanos está longe do fim.