“Escola pública? Pública o que é?” Angelina Santos, de 69 anos, estava um pouco perdida. Ainda assim, estava lá, a caminhar na direção dos Rossio. Foi uma entre milhares de pessoas que, este sábado à tarde, desceu a Avenida da Liberdade, em defesa da escola pública. Ou será que não?

“O meu neto tem 17 anos e está no Colégio de Santa Maria de Lamas”, que é uma escola privada com contrato de associação e não uma escola pública por que pugnavam os manifestantes. “Mas a minha filha tem uma pequena que fez agora a quarta classe e já não pode ir para lá no 5.º ano e dava tanto jeito”, acrescentou ao Observador, sem ter dado conta de que estava no filme errado. “Acho mal não deixarem ir para lá a canalha! A minha filha pegava no carro e levava-os. E eu e o meu marido nem temos carro, só temos uma motorizada. Como vamos fazer?”

Angelina Santos percorreu quase 300 quilómetros, desde Santa Maria da Feira, em Aveiro, à boleia do Sindicato dos Corticeiros, sem perceber que não estava na manifestação certa. Esta mulher, com a terceira classe, bem que podia estar vestida com uma t-shirt amarela — símbolo dos participantes em manifestações em defesa dos colégios privados. O colégio privado de Santa Maria de Lamas, onde ela queria ver a sua neta, é um dos 39 que fica impedido de abrir novas turmas no próximo ano, por decisão do Ministério da Educação. E este foi, justamente, o mote para a manifestação deste sábado, de apoio ao Governo, umas semanas depois dos privados terem saído às ruas a pedir a reversão da medida.

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Angelina Santos, de boné verde, veio de Santa Maria da Feira e não percebeu que esta manifestação era a favor da escola pública

A maioria dos que desfilaram pelo coração de Lisboa aplaudiu a decisão do Ministério da Educação e gritou frases em defesa da escola pública. “Escola pública é de todos, privada é só de alguns! Do público para o privado, é roubo descarado!”

Isabel Saraiva, professora de Artes, era uma das que ia gritando. Veio da Guarda porque “as escolas públicas estão sem alunos e as privadas a receberem o dinheiro” do Estado. “Se os pais querem escolher, têm de pagar. Não sou eu, nem a senhora que temos de pagar.”

Sozinha, encostada a uma saída do metro, estava Maria Martins, 57 anos. Não precisou de nenhum autocarro alugado por um sindicato para chegar à Avenida da Liberdade, nem foi a reboque de nenhum partido. “Senti necessidade de vir por causa desta polémica em torno dos contratos de associação. Acho que tem que se defender a escola pública. Não que tenha alguma coisa contra os privados, estou de acordo que existam, mas só onde não existe resposta pública.”

E Maria não era a única que assistia, à margem, ao desfile. Perdia-se a conta às dezenas, senão mesmo centenas, de pessoas que estavam nos passeios, à sombra, sem panfletos, nem bandeirinhas, nem cartazes, a assistir e a aplaudir as mensagens que iam sendo entoadas avenida abaixo.

Jaime Alves também estava à sombra. Chegou a Portugal há apenas três meses, para tirar um curso superior na Guarda, mas achou que fazia sentido juntar-se aos colegas, portugueses, nesta manifestação. “Ele [o colega que estava mesmo ao lado] explicou-me que o Governo estava a investir errado na Educação e acabava por esquecer a escola pública e isso não está certo. Por isso vim com eles.” Mas Jaime, natural de São Paulo, Brasil, não estava admirado com a quantidade de gente. Na sua terra Natal as concentrações são maiores. “Nas manifestações contra o Governo aí é um milhão!”

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Jaime Alves é o segundo a contar da direita e veio de Guarda com o grupo de colegas de curso

Uns passos adiante, já nos Restauradores, Teresa Jesus, professora de português, em Oliveira de Azeméis, olhava, com maior espanto do que Jaime Alves, para a maré que descia a Avenida. Foi diretora, durante cinco anos, de um colégio privado e os seus filhos estudaram no privado, mas pagou para isso. “Não tenho nada contra os privados, agora a liberdade de escolha paga-se. Já era hora de mostrar que a escola pública também está unida.”

Esteve longe de ser um milhão, como no Brasil, mas foi “a maior manifestação de sempre em defesa da escola pública”, diria mais tarde, já na despedida, na Praça do Rossio, o líder da Fenprof, Mário Nogueira. Nas contas do sindicalista, participaram mais de 80 mil pessoas. Um número que, ao Observador, uma fonte policial viria a rever, em baixa, para cerca de 20 mil, ainda assim “mais do que na manifestação dos privados”.

Para o professor de português, latim e grego, Manuel Rocha, esta “foi uma ótima resposta” à manifestação dos colégios. Mas não foi só por isso que ele, a esposa, também professora, e os dois filhos, foram até ao centro de Lisboa, apesar do calor. “Nestes últimos anos houve um forte desinvestimento na escola pública. Há falta de recursos humanos e materiais e por isso estou aqui. É preciso investir na escola pública.”

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O número de manifestantes não surpreendeu a deputada bloquista Joana Mortágua: “As pessoas não tinham noção do que eram os contratos de associação, mas a partir do momento que perceberam, apoiaram a decisão do Governo”, disse ao Observador. Em relação ao futuro, a deputada do BE apenas prometeu estar atenta ao que o ministério vai fazer na escola pública com o dinheiro que poupar com a não abertura de novas turmas nestes colégios. “Isto não é para entregar a Bruxelas.”

Já César Israel, da Associação Nacional de Professores Contratados, elogiou “a grande coragem por parte desta equipa governativa, que está a demonstrar rigor e capacidade de ação” e descreveu a manifestação deste sábado com uma palavra: “emoção”. “Foi bom e mostra que a democracia está viva.”

Novos, velhos e de meia-idade. Homens e mulheres. Pais e filhos. Professores e alunos. De Norte a Sul do país. Havia de tudo um pouco neste desfile, que começou pelas 14h30 no Marquês de Pombal e terminou antes das 18h00, no Rossio. Num piscar de olhos, os milhares de manifestantes dispersaram-se. Mas a união, essa, continuaria. Afinal de contas era dia de Portugal-Áustria, e a seleção precisaria desse apoio.