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– Do you know how they say “kisses”?
– No. How?
– It’s “bêxinhus”.

Beijinhos para aqui, mãos dadas para ali, troncos nus, muitos gritos para megafones e muitas bandeiras coloridas. Os “bêxinhus” têm um “som fofinho”, diz Johan, e são uma constante nas mais de duas horas que começaram às 17h no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa. Muitos deles foram trocados entre raparigas e outros tantos entre rapazes. Assim se fez jus à Marcha de Orgulho LGBT.

Johan aproveita o sol ao lado de Adrian na Ribeira das Naus, o ponto de chegada da manifestação. Ele, holandês, faz o enquadramento do encontro ao cidadão alemão, ou não fosse ex-imigrante em Portugal. “Há 13 anos vivi aqui com o meu primeiro namorado. Ele era português. Conhecemo-nos em Amesterdão, apaixonámo-nos e eu vim logo para Portugal. Ficámos um ano cá mas depois mudámo-nos para Amesterdão e ficámos lá três anos”, conta ao Observador. Agora, decidiu voltar à terra onde foi feliz para ver “como as coisas estão”.

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Adrian à esquerda e Johan à direita, na Ribeira das Naus, no final da Marcha LGBT de 2016.

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Há 13 anos, já havia Marcha LGBT. O evento comemora este ano a 17º edição. Este sábado, juntaram-se milhares de pessoas, provavelmente mais que as 5 mil do ano passado, mas o ajuntamento demorou anos a ficar composto. “Eu vim à Marcha Gay dessa época e não foi nada disto. Não eram mais do que 25 pessoas e todos tinham máscaras a tapar a cara. As pessoas que estavam a assistir na rua estavam completamente chocadas”, revela o rapaz de 38 anos.

A pouca abertura ao tema era geral, sublinha. “Eu fui apresentado à família do meu namorado como ‘amigo’. Não nos podíamos assumir. Por isso é que depois fomos para Amesterdão”, conta o rapaz. Mas não é isso que se vê nesta marcha de tarde quente, apoiada pela Câmara Municipal de Lisboa. “Hoje está totalmente diferente. As pessoas mostram-se, escrevem coisas nos braços e há pessoas a assistir que até aplaudem“, sublinha, surpreendido.

Hoje parece tudo mais fácil. Johan veio sozinho para Lisboa. Nada que a tecnologia não resolvesse. Ele e Adrian, de férias em Portugal com uma prima, conheceram-se no Grindr, uma aplicação para conhecer homens homossexuais. “É assim, tu instalas a app e podes procurar quem está por perto. Ele estava por perto, falámos e combinámos encontrar-nos na marcha”. Fácil, lá está. Agora, Johan de 38 anos e Adrian de 40 podem continuar a partilhar trejeitos da língua portuguesa ou fazerem o que quiserem com o tempo deles.

Pela igualdade, marcharam os EUA, Israel, a Bulgária…

Há uma semana que falar de Orlando significa falar de um ataque contra a comunidade LGBTI. A embaixada dos EUA em Portugal içou esta semana a bandeira arco-íris, lamentou o massacre e anunciou que o embaixador estaria a marchar este sábado. Robert Sherman lá estava, assediado por toda a imprensa, ele que no ano passado fez um vídeo de apoio à comunidade homossexual e transgénero.

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Robert Sherman, embaixador dos Estados Unidos em Portugal, participou na marcha.

O embaixador estava em Boston quando o ataque de Orlando aconteceu, depois de ter participado no voo inaugural da TAP de Lisboa para aquela cidade americana. “Aquele momento fez-me voltar às minhas memórias do atentado na maratona de Boston de 2013. Também estava lá nessa altura. Os bombardeamentos aconteceram a poucos prédios da minha casa. Ainda me lembro do cheiro dos explosivos e da pólvora no ar. Na maratona de Boston, as pessoas estavam ali para assistir a uma corrida. Em Orlando, a comunidade gay e lésbica estava só a ouvir música e a dançar. A conclusão daquele ataque é que, embora já tenhamos feito progressos pela igualdade, ainda não chegámos lá”, lamenta o responsável.

Em Portugal desde abril de 2014, esta é a primeira vez que o embaixador Sherman participa no evento que acontece sempre em junho, mês da Revolta de Stonewall. “Para mim, estar aqui é dizer à comunidade LGBTI que estamos juntos e que somos todos contra o ódio e a intolerância”. O massacre de Orlando diz-nos que os EUA são um país homofóbico? “Creio que não. Temos provado que somos um país tolerante. Mas isso não quer dizer que não tenhamos haters dentro do país, tal como todos os países têm. Aqueles terroristas não refletem a população. Uma sociedade madura caminha sempre para que haja cada vez mais direitos, e não menos”.

O embaixador dos Estados Unidos não foi o único a juntar-se às 21 associações e coletivos presentes. Marcharam também a embaixadora de Israel e os embaixadores da Bulgária, Canadá, Dinamarca, Holanda, Áustria e Bélgica. A embaixadora de Israel Tzipora Rimon diz que Telavive tem-se tornado uma cidade muito amistosa para a comunidade LGBTI, com “marchas e tudo”, embora sem direito a casar no país, por exemplo. Do Canadá, o embaixador elogia o seu primeiro-ministro, Justin Trudeau, pró-LGBTI. “Ele é muito inspirador. Até participou na marcha no Canadá”.

Governo quer alterar lei de identidade de género. E quer jovens mais tolerantes

António Costa não esteve fisicamente, mas em espírito. A garantia é da sua secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade. “O primeiro-ministro está em França, a acompanhar o jogo da seleção. Mas é uma pessoa sempre defensora destas causas“, diz Catarina Marcelino. A responsável está no evento em representação do Governo. Não fosse a pasta e desfilaria na mesma: “Já vinha à marcha antes”, conta ao Observador.

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Marchas à parte, o Governo quer avançar com mais direitos para as pessoas LGBTI. “Estamos a trabalhar no aprofundamento da lei de identidade de género e as questões das pessoas intersexo também estão no programa do governo. Será uma iniciativa que entrará no Parlamento, provavelmente no início da próxima sessão legislativa. Estamos a trabalhar num projeto legislativo que pode englobar todas estas questões num diploma só”, explica ao Observador.

Catarina Marcelino denuncia ainda a falta de “serviços públicos específicos”, por exemplo “na área da violência doméstica, com respostas específicas para pessoas LGBTI”, e de “mais serviços no interior do país”. A secretária de Estado para a Igualdade desfilou parte do tempo ao lado de Isabel Moreira, deputada do PS, habitual defensora da causa.

Para a representante do governo, o mais urgente não é a lei. É a educação: “Julgo que é o aspeto mais decisivo. Há um grupo de trabalho constituído entre a secretaria de Estado da Igualdade e o ministério da Educação que está a trabalhar num projeto de educação para a cidadania, para ser apresentado ainda antes do início do próximo ano letivo”Será uma espécie de programa contra a discriminação, especifica a responsável: “Queremos implementar uma estratégia de educação para a cidadania que defenda a igualdade e os direitos humanos e que forme os nossos jovens para serem mais tolerantes”.