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O crítico norte-americano Jonathan Rosenbaum é um dos maiores especialistas em Orson Welles e esteve esta semana em Lisboa, na Cinemateca, a apresentar e comentar um mini-ciclo de cinco filmes do autor de “O Mundo a Seus Pés”, inserido na rubrica mensal Histórias do Cinema daquela instituição. O Observador entrevistou Rosenbaum, autor de um dos livros essenciais sobre Welles, “Discovering Orson Welles” (2007), editor de “This is Orson Welles” (1992), que reúne conversas do cineasta com Peter Bogdanovich, e consultor para a versão restaurada de “A Sede do Mal”, em 1998.

Entrevista, Jurado, Nuevos Directores,

Jonathan Rosenbaum

Quando é que descobriu Orson Welles enquanto espetador, e quando é que o conheceu?

Descobri Orson Welles quando vi “O Mundo a Seus Pés” pela primeira vez, tinha 16 ou 17 anos. Conheci-o quando estava a viver em Paris, no início dos anos 70 e um amigo me emprestou o argumento de “Heart of Darkness”, o primeiro dele. Eu estava a escrever um artigo para uma revista americana, a “Film Comment”, e alguém me disse que o Welles se encontrava em Paris a montar um filme, mas achei que ele não devia querer encontrar-se comigo. Nessa altura ainda não tinha publicado quase nada de relevante, mas disseram-me que não perdia nada em tentar. Descobri que ele tinha uma secretária em Londres. Liguei-lhe a pedir o endereço, e ela disse-me: “Escreva-lhe uma carta, não lhe telefone, não o mace”. Assim fiz e escrevi-lhe uma carta curta, fazendo algumas perguntas sobre o “Heart of Darkness”, o elenco, coisas assim. E de passagem, referi que tinha publicado um ataque ao famoso ensaio de Pauline Kael, “Raising Kane”. Mandei a carta num sábado à tarde, e como pensei que não ia ter resposta, fiquei acordado quase toda a noite, a acabar o rascunho de um artigo. Adormeci às sete da manhã e duas horas depois, o telefone tocou. Era uma assistente de Orson Welles, que me disse: “O Sr. Welles gostava de o convidar para almoçar hoje.” E era num restaurante a dois quarteirões de onde eu vivia. Assim, três horas mais tarde, fui almoçar com ele. Chegou 10 minutos atrasado e pediu desculpa. Disse-lhe que tinha ficado espantado por me ter convidado para almoçar. Resposta dele: “Estava muito ocupado para lhe responder à carta.”

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Com que impressão ficou dele?

Fiquei com duas impressões contraditórias. Ele parecia muito cheio de si mesmo mas muito consciente disso, e fez muitas tentativas para o compensar, sendo muito solícito, servindo-me constantemente vinho, perguntando-me se estava a gostar da refeição, coisas assim. E achei-o muito honesto, coisa que as pessoas não costumavam pensar dele, achavam que dizia muitas mentiras e era falso. Pareceu-me que estava a tentar mesmo ser honesto, e quando não se lembrava de algo, pedia-me para perguntar ao assistente dele na altura, que aliás eu já tinha contactado por causa do meu artigo. Antes de o conhecer, se havia alguém no mundo que eu queria ser, era Orson Welles. Mas deixei de pensar assim depois de o conhecer, talvez porque falámos sobre vários projetos que ele tinha mas não conseguia levar a cabo, e sentia-se muito frustrado. Percebi então que não era fácil ser Orson Welles.

[“Trailer” de “O Mundo a Seus Pés”]

Há sempre livros sobre Orson Welles a ser publicados: biografias, estudos, evocações de quem o conheceu ou trabalhou com ele, obras sobre filmes específicos, etc. Deve ser dos realizadores sobre os quais mais se escreve, e o fluxo editorial é constante. É como se o estivessem sempre a descobrir, como aliás já escreveu.

Sim, é verdade. Foi por isso que chamei ao meu livro de ensaios “Discovering Orson Welles”. Escrevem-se mesmo muitos livros sobre ele. Penso que o único cineasta sobre o qual se publica mais do que sobre Orson Welles é o Hitchcock. E saíram recentemente alguns livros muito bons, caso de “Young Orson”, de Patrick McGilligan, sobre os seus primeiros 25 anos de vida, é uma obra notável. Acho que o meu livro favorito sobre ele é “The Magical World of Orson Welles”, de James Naremore. Nunca haverá um juízo definitivo sobre o Welles e a sua obra. E há sempre um filme novo a ser descoberto, caso do “Too Much Johnson”, o mais recente.

É da opinião que, para perceber e explicar melhor Orson Welles, os filmes que ele não conseguiu acabar são tão importantes como os que ele concluiu. Porquê?

É também assim que olhamos para Kafka. Curiosamente, nos EUA, ninguém critica Kafka por ter deixado obras inacabadas, mas consideram o Welles um fracassado porque deixou tantos filmes por terminar. Acho que parte do problema, no cinema visto enquanto um todo, é que se confunde sucesso artístico com sucesso comercial. E as pessoas também são julgadas por serem ou não boas nos negócios – coisa que o Welles não era. Ele não sabia lidar com dinheiro. Mas acho que ele era muito sério e muito verdadeiro com o seu talento e naquilo que escolheu fazer.

[“Trailer” de “F for Fake”]

Há também aquelas pessoas que dizem que ele devia ter feito mais filmes como “O Mundo a Seus Pés”. Não percebem que a última coisa que ele queria era repetir-se.

Absolutamente. Porque é que alguém quereria fazer dois “O Mundo a Seus Pés”? Ele queria fazer as coisas à sua maneira, sempre, e tentou, muito em especial em “O Estrangeiro” e “A Dama de Xangai”, trabalhar dentro do sistema. Mas penso que apesar de o ter conseguido em “O Estrangeiro”, que até considero ser o seu filme menos interessante, ele não pode ser culpado totalmente pelo que lhe aconteceu. A verdade é que as pessoas não sabem lidar com os filmes do Welles, e é isso que os mantém vivos. Se virmos bem, metade dos filmes que ele fez, foram dentro do “studio system”. Só que havia aquela reputação dele, o facto de ser aristocrático, de ser um intelectual, de ser de esquerda. Tudo isto afetou a perceção que as pessoas tinham do Welles. Houve sempre muita propaganda anti-Welles, e era-lhe muito difícil contrariá-la.

[“Trailer” de “A Dama de Xangai”]

Mas não acha que Orson Welles também contribuiu muito para o seu próprio mito? E que isso por vezes foi negativo?

Fê-lo conscientemente, por vezes, inconscientemente, outras vezes. E tanto podia ser bom como mau. Um erro que ele cometeu, e de forma consciente, ocorreu na época em que era uma vedeta “mainstream” e fazia rádio. O Welles aparecia muitas vezes em programas de rádio de outras celebridades, como o Jack Benny, e apresentava-se como um snobe e como um intelectual, tinha essa pose. E como ele sempre foi o mais severo crítico de si mesmo, fazia passar essa imagem cartoonesca de propósito. Isso causava que algumas pessoas por vezes se virassem contra ele.

Essa pose arrogante não o prejudicou também ao ponto de contribuir para que não tivesse mais ajudas para conseguir acabar os filmes?

Acho que sim. E o Welles tinha uma coisa em comum com o John Cassavetes. Ele gostava tanto do processo de feitura dos filmes, desde a filmagem à montagem, que os financiava ele mesmo para poder estar à vontade, o que era tabu no sistema de produção de Hollywood. Mas as razões que levaram a que ele não conseguisse acabar tantos filmes variaram de um para outro. Por exemplo, ele não acabou o “Dom Quixote” por duas razões. Primeira: provavelmente sabia – e corretamente – que se o acabasse, o filme seria mal recebido. Segunda – e isto é uma teoria minha: ele não aguentava filmar a morte de D. Quixote. Era uma ideia insuportável para ele. E não conseguiu acabar “The Other Side of the Wind” porque foi vigarizado. É um filme que está enredado em problemas financeiros complicadíssimos.

[Imagens do filme inacabado “Dom Quixote”]

https://youtu.be/T05AfhzaIiE

Será que alguma vez chegaremos a ver “The Other Side of the Wind?

Tudo depende da última amante do Welles, a Oja Kodar, assinar um novo contrato. O anterior que ela tinha com os produtores foi quebrado por estes, porque lhe prometeram pagar e não o fizeram. Não conheço todos os detalhes sobre o caso, mas sei que ainda estão a negociar. Só não sei em que pé é que as coisas estão. É uma situação mesmo muito complexa.

Qual é o estado do vasto acervo que Orson Welles deixou, entre filmes inacabados, documentação, livros, desenhos, etc?

Na verdade, não há um acervo, por assim dizer, muito embora a filha dele, Beatrice Welles, diga que é ela que o representa. Depende do país em que estivermos. De acordo com a lei francesa, por exemplo, há um acervo e ela é que o gere. Mas o Welles deixou todos os seus filmes inacabados à Oja Kodar. E a maior coleção de documentos dele está na Universidade de Michigan, nos EUA. Eu tenho um projeto, juntamente com outra estudiosa de Welles, a Catherine Benamou, que é muito ambicioso e tem uma componente digital, e que envolve publicar argumentos, peças de teatro e outros escritos do Orson Welles. Temos uma proposta de edição, mas precisamos de apoios para a concretizar, bolsas e isso, e esperamos consegui-los. Já propusemos um primeiro volume, chamado “Late Welles”, que inclui quatro dos seus últimos argumentos, “The Big Brass Ring”, “The Cradle Wil Rock”, “King Lear” e “The Dreamers”, juntamente com mais algum material documental.

[Excerto de “The Other Side of the Wind”]

É verdade que ele nunca abandonava um projeto, que estava sempre a trabalhar nos filmes?

É, sim. Quando o conheci em Paris, perguntei-lhe: “Quando é que abandonou a ideia de rodar o ‘Heart of Darkness?’” Ele pôs um ar zangado e respondeu: “Nunca o abandonei, ainda pretendo filmá-lo! Mas que ideia!” Tinha um energia tremenda. Curiosamente, o Welles não era cinéfilo. Lia era muito. Vi a biblioteca dele de uma das vezes que visitei a Oja Kodar na Croácia, onde ela vive, e fiquei surpreendido de lá encontrar, por exemplo, muitos livros de ficção científica: Robert A. Heinlein, Isaac Asimov, etc. Sei que ele certa vez quis filmar um conto do Asimov, mas acabou por desistir porque os estúdios queriam era que ele fizesse outra “Guerra dos Mundos”.

[Sequência de “As Badaladas da Meia-Noite”]

A imagem negativa que os americanos tinham do Orson Welles, o cliché do realizador que fez uma obra-prima ao primeiro filme e depois se tornou num fracassado, mudou, graças a todos estes livros sobre ele que têm sido publicados ao longo dos anos? Ou ainda se mantém?

Essa má imagem, esse cliché, ainda existem. A ideia de que ele foi um fracassado. Há ainda gente que acredita que ele não escreveu “O Mundo a Seus Pés”, apesar de existirem claríssimas provas documentais do contrário. E acontece também que o livro mais popular sobre Orson Welles é na verdade o pior livro sobre ele: “Rosebud”, do David Thomson. Ele conhece a versão do Orson Welles que os americanos preferem, e é sincero ao concordar com ela, mas para a perfilhar, teve que ignorar todos os estudos que existem sobre o Welles. Quando o livro saiu, alguém escreveu na revista “Film Comment” que ele merecia ganhar um Pulitzer. Isto apesar do Thomson não ter feito qualquer pesquisa para o escrever. Outro exemplo: Quando “This is Orson Welles”, que eu editei, foi publicado, teve uma crítica de um parágrafo no “The New York Times”. E parecia ter sido escrita por alguém que tinha lido o livro, porque dizia que documentava o declínio do Welles. Mas “Rosebud”, quando saiu, teve uma crítica entusiástica na primeira página do suplemento de livros do “The New York Times”. Gostava de pensar que a imagem de Orson Welles nos EUA melhorou nos últimos tempos, e talvez tenha melhorado, porque têm aparecido livros cada vez melhores e mais simpáticos sobre ele. Mas por outro lado, não tenho a certeza. Recentemente, o Donald Trump disse algo sobre o Orson Welles que indica que mesmo ele o considera um fracassado depois de ter feito “O Mundo a Seus Pés”. E esta é a opinião vigente nos EUA.