Era mais um domingo de junho, nas vésperas de um Campeonato do Mundo. Cristiano Ronaldo aparecia na conferência de imprensa com o seu ar tranquilo, despreocupado, de quem sabe o que vale. Acabara de cumprir a primeira época no Real Madrid, depois de conquistar nove troféus em Manchester. E a Bola de Ouro, claro. Chegava por isso ao Mundial na África do Sul sereno, seguro de si. Mas os números decidiram desafiá-lo para um braço de ferro: Ronaldo não marcava na seleção desde fevereiro de 2009. Estávamos a 13 de junho de 2010. Red alert!…

As perguntas, naturalmente, andaram à volta dessa seca. Era preocupante. O homem que foi o melhor do mundo em 2008 estava sem saber como fazer golos com a camisola das quinas. Apesar de os timings e períodos de fome serem bem diferentes, Ronaldo, que rematou 20 vezes em dois jogos no Euro-2016, volta a estar no centro da questão: há golos ou não há, homem?

“Para ser sincero, não estou nada preocupado”, começou por dizer, em 2010. “Como me disse alguém, os golos são como o ketchup: quando aparece, aparece tudo de uma vez. Deus sabe quem trabalha e quem merece. Aí estou plenamente tranquilo, tenho feito as mesmas coisas que faço há quatro anos, há três, há dois. Vai ser como o ketchup, vai aparecer tudo de uma vez”, disse, com um sorriso tranquilizador. E sim, quase toda a gente já viveu esse drama do ketchup. Foi por isso que na altura tal analogia caiu tão bem.

A verdade é que o primeiro jogo acabou a zero. Nem ele, nem os colegas conseguiram marcar ao guarda-redes da Costa do Marfim, Boubacar Barry. Zero-zero. Bom, faltava Coreia do Norte e Brasil. Os jornais e televisões encheram-se de imagens do feito da seleção portuguesa em 1966 para inspirar os novatos do século XXI. Na altura, no Mundial-66, Os Magriços perdiam por 0-3 aos 25 minutos. Depois, bom, depois já se sabe: Eusébio, Eusébio, Eusébio, Eusébio, José Augusto e acabou. Cinco-três. Épico.

Em 2010, o resultado foi igualmente histórico. Aos 86′, Meireles, Simão, Hugo Almeida, Tiago e Liedson já tinham molhado a sopa. Estava 5-0 para Portugal e de Ronaldo nada. Aconteceu um minuto depois, depois de uma grande confusão, como se a bola tivesse ganho vida, tropeçado nas costas do extremo e permitido que ele fizesse o seu golinho. Parecia que o universo estava a dizer-lhe “vá, trata disso!”. Tiago ainda fez o sete-zero, a um minuto dos 90. Os jornais, pois claro, agarraram-se a manchetes cheias de açúcar: “Portugal despeja ‘ketchup’ e goleia Coreia do Norte por 7 a 0”, “Ketchup português atropela Coreia do Norte”, “Abriu-se o frasco de ketchup, festejam os portugueses”.

No fim, Ronaldo continuava sereno: “Eu sabia que ia aparecer, não estava preocupado. O mais importante é a equipa ganhar. Eu sei que os golos vão aparecer. Quando se trabalha, quando se tem um grande espírito, quando se está numa grande equipa, os golos aparecem”, disse depois do jogo. O pior é que o frasco não voltou a abrir-se: empate com Brasil (0-0) e derrota com a futura campeã do mundo, a Espanha (0-1).

Em 2016, após dois empates (Islândia, 1-1; Áustria, 0-0), Ronaldo continua a confiar que as coisas vão mudar. “Isto é o futebol. Tivemos muitas oportunidades, eu também falhei um penálti e outras oportunidades, mas isto faz parte do futebol”, começou por dizer, após o segundo empate. “É continuar a acreditar. Quero agradecer o apoio de todos os portugueses. Quem tenta sempre alcança, temos de acreditar que ainda é possível. As pessoas e os simpatizantes de Portugal têm de acreditar, o mal não dura para sempre, há que acreditar.”