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Stephen Hammond não gosta da burocracia, das regras e das dificuldades de Bruxelas, mas mesmo assim é um dos deputados conservadores partidários da permanência do Reino Unido na União Europeia. O que o país teria a perder num processo de saída não seria só em termos económicos, mas também em termos de segurança e de preponderância do Reino Unido no mundo. Quanto à situação interna do Partido Conservador, Hammond defende que o partido continua unido nas questões domésticas.

O parlamentar britânico esteve em Lisboa para encontros com deputados portugueses e na Câmara do Comércio do Reino Unido em Portugal. Hammond tem dificuldade em explicar a preferência pela permanência do Reino Unido na UE, mas refere que a linha eurocética do seu partido nunca foi a saída, mas sim a reforma da União Europeia, com menos regras e burocracia. É esta a aposta de Hammond, e também do primeiro-ministro David Cameron, que esperam que o sim ganhe para pôr em vigor o acordo conseguido no início do ano. E se o sim ganhar, pode haver um bónus para os conservadores: o fim do UKIP. Leia a entrevista (realizada antes do assassinato da deputada trabalhista Jo Cox).

Algumas das mais recentes sondagens indicam que a saída do Reino Unido da União Europeia está a ganhar. O que acha que vai acontecer?

Acho essas sondagens surpreendentes, já que na outra semana havia uma sondagem que dava 10 pontos de avanço ao campo dos que defendem a permanência. Penso que é preciso olhar de forma prudente para as sondagens já que as empresas que as levam a cabo, tal como vimos nas eleições no ano passado [em que os conservadores ganharam contra a previsão da maior parte das sondagens], estão a ter problemas porque não conseguem encontrar pessoas com o perfil adequado que representem os eleitores. E acho que estamos mesmo a olhar para um perfil de eleitor diferente, já que muitas pessoas entre os 18 e os 30 anos podem não votar nas eleições, mas vão votar neste referendo. O meu ponto de vista é que está muito perto, mas há muta gente que não decidiu. O que vamos ver agora nestas últimas semanas é que as pessoas vão começar a pensar no que pode acontecer na economia e no que vai mudar se sairmos. Se ficarmos, muito do que já conhecemos vai continuar, e quem defende a saída não pode prever o que vai acontecer fora da UE. Nas duas últimas semanas antes do referendo penso que a permanência vai começar a subir nas sondagens.

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Está no lado de quem quer permanecer na União Europeia. O que é o fez escolher este lado?

Acho que a União Europeia está longe de ser perfeita. Tem demasiadas regras, é cara, tem muita burocracia e tem um défice democrático…

Mas...

Mas — e este é um grande “mas” –, trouxe à Europa e ao Reino Unido um futuro económico em que temos acesso a um mercado comum que potenciou as nossas trocas comerciais, dentro e fora do espaço europeu. E, apesar de querermos acabar com algumas barreiras ao comércio que ainda existem, estando na União Europeia temos acesso a acordos comerciais com 52 países terceiros. E isso é muito difícil de replicar se sairmos. Tal como também é difícil alguém antever que tipo de relação é que vamos ter com a UE. E há ainda a questão da segurança. Temos as nossas cabeças e os nossos corações com argumentos diferentes. Por um lado, se sairmos, dizem-nos que temos a nossa soberania de volta, mas nós já cedemos soberania em troca de influência em instituições como a NATO. É muito claro para mim que se sairmos da UE mantemos o nosso assento no Conselho de Segurança, mas a nossa posição no Mundo tem mais relevo por fazermos parte da UE.

Acha que a campanha pela permanência vai agora apostar nesses argumentos que referiu? Agora parece que a discussão está muito focada na economia.

Quem está fora das campanhas não percebe as diferenças entre os dois lados. Se alguém for a favor da saída vai falar das preocupações com soberania, como governamos o país, democracia e imigração. Quem está a favor da permanência na UE, grande parte dos argumentos usados têm a ver com economia e pragmatismo. Os dois debates não se encontram.

Então não há um verdadeiro debate?

Não. Cada lado está a falar de coisas diferentes. A segurança é um daqueles temas em que cada lado está a dar a conotação que quer. Se for um brexiteer [favorável ao Brexit] vai alegar que a segurança da Europa já é garantida pela NATO e a cortina de ferro já caiu. Mas o que eles não dizem é que o que une esses países num bloco coeso e que o que gera a paz é a União Europeia.

Outro tema de que se tem falado e que tem tendência a ganhar dimensão é a imigração. Tem receio que esta discussão sobre imigração leve a um debate xenófobo no seio da sociedade britânica?

Há potencial para isso acontecer, claro. Mas pelo que temos visto no ano passado e já este ano com muita pressão nas fronteiras europeias devido à guerra na Síria, percebemos que se trata de uma tendência a longo prazo. Qualquer pessoa quer os nossos padrões de vida. Se alguém estiver sentado numa aldeia em África e olhar para o estilo de vida que há em Lisboa, não vai querer vir para aqui? O que devemos pensar é como é que ajudamos as pessoas nos seus países. Em segundo lugar, Boris Johnson quer um sistema por pontos como a Austrália, mas esses sistemas são complexos e escolhe pessoas com as competências para determinadas tarefas. No Reino Unido precisamos de pessoas com todas as competências: canalizadores, trabalhadores da construção civil, médicos. E, por isto, esse sistema é muito difícil. Mais, há que fazer um debate sobre o que se faz com as pessoas que já vivem no Reino Unido, caso o país saia da UE. Porque é que o Governo português há-de permitir aos britânicos continuarem aqui se o Reino Unido sair? É um tema fácil de comentar e muito emotivo, mas muito complexo.

Acha que a comunidade portuguesa está em risco no Reino Unido caso saia da União Europeia?

Se o Reino Unido sair, não é possível ter certeza de nada. O resto da União Europeia vai querer reintroduzir tarifas alfandegárias e outros entraves. Isto não funciona só para um lado. Apesar de a campanha para a saída defender que devemos ter mais soberania, mas se sairmos, a UE vai ter interesse em tornar as coisas mais difíceis em termos de comércio. Se sairmos, é muito difícil saber o que se vai passar. Mas o que queremos dizer a quem já está no Reino Unido e tem razões válidas e legais para lá estar, é que esperamos que fiquem no país, mas não podemos ter certeza sobre o que vai acontecer.

Tem relações privilegiadas com Portugal. Já recebeu perguntas de britânicos que aqui vivam sobre o que lhes vai acontecer?

Eu sou líder do grupo parlamentar das relações entre Portugal e Reino Unido. Tenho também relações muito próximas com as câmaras comerciais dos dois países. Acho que ainda há muitos britânicos que vivem fora do país que só agora estão a perceber o que a saída pode significar. Pode acontecer o que já acontece nos Estados Unidos e ter-se uma casa num determinado sítio, mas haverá novas regras sobre como viver nesses países.

O partido conservador está claramente dividido, porque há pessoas com opiniões diferentes sobre esta matéria. Mas acha que a unidade do partido foi quebrada?

Neste momento há uma divisão clara. Há cerca de 140 dos meus colegas na Câmara dos Comuns que querem sair da UE e cerca de 160 a 170 que queremos ficar. Isso vai rebentar com o Partido Conservador? Não, porque há outras coisas que quando este referendo for feito e, se como eu acho que vai acontecer, um dos lados ganhar com uma vantagem significativa, precisamos de assegurar a renegociação conseguida pelo primeiro-ministro em Bruxelas. Temos de dizer claramente aos restantes parceiros europeus que isto é apenas o início da caminhada e até Donald Tusk já afirmou que o caminho de uma integração cada vez maior já não é o mais adequado. Estou a parafraseá-lo livremente, mas foi esse o sentido da declaração. Há outros países que têm preferência pela redução dos custos da UE, menos regulação e fazer com que a UE funcione de uma forma mais efetiva. No partido conservador, acreditamos em coisas como o Estado-nação, na economia de mercado livre, na liberdade de expressão e num Estado mais pequeno. Algum do trabalho que temos feito a nível doméstico vai continuar também a ser importante como a recuperação económica e sermos mais produtivos, percebermos como é que vamos conseguir conciliar os cuidados de saúde com as prestações sociais aos idosos e aos mais desprotegidos. Há ainda a questão da nossa estratégia nuclear. E nestes tópicos o partido Conservador está de acordo.

Não teremos um desmembramento como o que aconteceu com o UKIP no início dos anos 90? Não teme que muitas militantes abandonem o partido?

Se a votação for muito próxima, é possível que haja mais pressão para que as negociações acelerem se o sim ganhar e se o outro lado ganhar, é possível que haja muitas pessoas a pedir novo referendo. Se o sim ganhar de forma convincente, podemos dizer que a questão está arrumada. A única política que o UKIP apresenta é a saída da UE e se os britânicos rejeitarem essas proposta, para que é que o UKIP existe? E sendo assim, para que é que os meus colegas se vão juntar ao UKIP? Podem sair da política, mas não vão para o UKIP.

Estava à espera deste referendo?

Depois do tratado de Lisboa, o partido Conservador prometeu na altura que se não tivesse sido ratificado pelo Governo de então, haveria referendo sobre este tratado e, assim, já havia uma movimentação para o que vai acontecer no dia 23 de junho. As razões para a realização deste referendo foram tanto as promessas anteriores como a necessidade de manter o partido unido. Não tinha dúvida que íamos fazê-lo.

A posição de David Cameron está fragilizada?

Se a permanência ganhar de forma decisiva, não haverá questões sobre a posição do primeiro-ministro. Nós não temos só a questão europeia para nos preocuparmos, mas também a questão doméstica. A autoridade do primeiro-ministro vai ser clara e não será no interesse de ninguém pôr em causa a posição do primeiro-ministro.

E se a saída ganhar?

Acho que pode, mas tudo é incerto nesse cenário. Também pode acontecer que mesmo que a saída ganhe, os líderes europeus queiram oferecer outro acordo para o Reino Unido ficar. Já aconteceu antes com os “nãos”nos referendos na Irlanda e em França quando foi o Tratado Constitucional.

Está satisfeito com a maneira como os outros partidos estão envolvidos na campanha para ficar na UE? Os trabalhistas estão envolvidos ou há alguma confusão devido à liderança de Corbyn?

Eu não acho que os trabalhistas estejam confusos, acho que estão a passar por uma crise existencial. O partido está completamente dividido. Corbyn quer liderar um partido de centro-esquerda e há uma vasta fatia do partido que vem da social-democracia de Blair. E há cada vez uma percentagem maior de votantes do Partido Trabalhista que querem sair e, por isso, o partido tem de se empenhar na campanha. Foi bom ver Sadiq Khan, trabalhista e presidente da Câmara de Londres, num evento com o primeiro-ministro. Eu também lá estive. É importante que estas figuras venham para a campanha. Para Corbyn acho muito difícil porque ele sempre quis sair. E é por isso é que os trabalhistas não conseguem convencer as pessoas. Mas eu, pessoalmente, acho que eles não conseguem convencer as pessoas do que quer que seja.

Especula-se muito sobre o que figuras como Margaret Thatcher diriam sobre este referendo. O que é que acha que ela diria?

A posição de base do partido, mesmo na sua ala eurocética, sempre foi para reformar e não para sair. Se olharmos para o que Thatcher disse como primeira-ministra, acredito que outros líderes dissessem que ela estava só a ser difícil, mas ela defendia os interesses britânicos. Acho que ela nunca defendeu a saída. Não sei o que ela faria, mas acho que ela teria em consideração se a posição do Reino Unido ficaria ou não prejudicada no mundo.

Está preocupado com um novo referendo na Escócia caso o Reino Unido saia da UE?

Não. O Partido Nacional Escocês já tem problemas de sobra. Acho que é útil para eles fazerem campanha para permanecer na UE porque é uma questão britânica, mas também me parece que a Escócia não quer ser independente, porque a diferença no referendo foi significativa.

Acha que ajuda ou prejudica quando figuras europeias e mundiais falam sobre as suas preferências neste referendo?

É um acontecimento que vai ter repercussões em toda a Europa. Cada um deve expressar o seu ponto de vista, mas dizer às pessoas o que fazer é errado. Seria estranho se os líderes do FMI, do Banco Mundial, o Presidente dos Estados Unidos ou o primeiro-ministro de Portugal não tivessem uma opinião sobre a saída do Reino Unido da União Europeia.