“Não queria fazer esta exposição, não tem mal nenhum dizer, as coisas são assim. Estou aflito de tempo e não posso passar a vida em exposições e conferências. Gosto mais de ser arquiteto do que comunicador social”, desabafava Eduardo Souto de Moura no fim de uma visita guiada à exposição “Continuidade”, esta terça-feira, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa.

O arquiteto portuense, de 63 anos, apresenta sete projetos da sua autoria desenhados entre 1991 e 2012. A inauguração foi na terça, 21, e irá manter-se até 18 de setembro na Garagem Sul do CCB.

Em conversa com os jornalistas, Souto de Moura mostrou-se “muito contente” com a possibilidade de fazer a exposição, tendo em conta o contexto de crise que o país atravessa. É a primeira vez desde 1994 que apresenta o seu trabalho no CCB.

Aproveitou o momento para deixar alguns recados e reflexões. “O grande segredo de um certo êxito da arquitetura portuguesa é o trabalho de equipa”, garantiu, para depois dizer que não gosta de trabalhar fora de Portugal, já que a cultura profissional de outros países limita a criatividade.

A insistência dos curadores António Sérgio Koch e André de França Campos, ambos arquitetos e antigos colaboradores do gabinete de Souto de Moura, convenceu-o a avançar para esta exposição.

“Vim cedo hoje, estive aqui sozinho, sentado a ver as coisas, e foi uma surpresa para mim, gostei de ver”, explicou Souto de Moura, galardoado com o Prémio Pritzker em 2011 (ele e Siza Vieira, vencedor em 1992, em cujo atelier trabalhou entre 1975 e 79, são os dois únicos portugueses distinguidos com o mais importante prémio de arquitetura a nível mundial).

10 fotos

Num corredor comprido surgem oito blocos temáticos, o primeiro dos quais exibe um vídeo com uma entrevista a Souto de Moura conduzida por João Belo Rodeia, presidente da Ordem dos Arquitetos até 2013. Tem 20 minutos de duração e legendagem em inglês. Nela ouvimos o arquiteto discorrer sobre o trabalho, o que serve de introdução à mostra.

Os outros sete blocos apresentam um vídeo cada, em ecrã gigante, e a respetiva maqueta do projeto. Frente a cada ecrã fica um robusto banco de cortiça, para os visitantes se sentarem, o que sinaliza o patrocinador principal da mostra, a corticeira Amorim.

Os vídeos são assinados pelo realizador japonês Takashi Sugimoto, que se encontra a estudar na Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora, e a preparar a tese de mestrado na área da realização e dramaturgia. “É um olhar com uma sensibilidade muito ligada à natureza”, comenta Souto de Moura. “Só tive de pedir para acelerar, era muito contemplativo e zen, tive medo que se adormecesse a ver.”

Reconhecendo que o orçamento de “Continuidade” foi escasso, o que levou, por exemplo, ao reaproveitamento de maquetas antigas, em vez da construção de novas, o Prémio Pritzker entende ser “importante que se respeitem os orçamentos”. A afirmação leva-o a dissertar sobre os métodos de trabalho em Portugal.

Estou a trabalhar muito lá fora e na primeira reunião dão-me o programa e apresentam-me logo o economista. Os projetos lá fora ficam muito pior do que cá, acho eu. Nem gosto de trabalhar lá fora, porque não controlo. Aqui não, falo com os pedreiros. Há uma acessibilidade diferente. Depois, por temperamento, os portugueses desenrascam-se e acreditam e deixam para a última. É como no futebol. Lá fora, não, é tudo programado. Se estiver mal, fica mal, se estiver bem, fica bem. Não há hipótese de rever nem pensar e atrasar. Nunca há retorno, porque o retorno dá demora. Os portugueses são muito individualistas e ainda bem, porque cada um trata da sua vida, mas depois jantam e almoçam e discutem. E até se chegar ao projeto propriamente dito há um grande cruzamento de informação. Até ver, prefiro trabalhar por cá.”

No entender de Souto de Moura, a única vantagem da atividade no estrangeiro é a de que “tudo é feito para ganhar dinheiro”. “Deixemo-nos de ilusões poéticas”, sublinha. Uma jornalista pergunta: “Aqui trabalha-se bem, lá fora ganha-se dinheiro, é isso?”. O arquiteto responde: “Não ponha dúvidas”. “Com um trabalho sério de programa-base, estudo prévio, anteprojeto, projeto de execução e fiscalização – cinco fases, cinco anos – perde-se dinheiro”, acrescenta.

Num estilo informal e amigável, Souto de Moura revela ter sido convidado para um cargo na Ordem dos Arquitetos. “Uma espécie de mandatário”, abrevia, sem concretizar. “Não me importo, desde que cumpra um tema: moralizar a tabela de honorários. Acho humilhante. É proibido na comunidade europeia ter tabelas fixas, não acho mal, só que os alemães são finos e inventaram uma tabela de mínimos, que é fiscalizada”, diz, a título de bom exemplo.

Há uma nova geração de arquitetos que não consegue mostrar nada. Fez uma obra ou duas e depois veio a crise. E são do melhor que há na Europa. O país está feio não porque haja maus arquitetos, mas porque os arquitetos não conseguem trabalhar mais, não são propriamente heróis. Aceitam fazer a casa para a tia, a madrinha, para o primo e tal. E aquilo faz-se num fim de semana e se calhar são 200 ou 300 contos. Isso é o preço de uma maqueta, de um projeto. É pena”, analisa Souto de Moura.

Os sete projetos agora expostos são:

  • Casa de Moledo, em Caminha (1991),
  • Casa da Serra da Arrábida (1994),
  • Estações do Metro do Porto (2001),
  • Estádio Municipal de Braga (2004),
  • Torre do Edifício Burgo, no Porto (2007),
  • Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais (2008),
  • Edifício Hidroelétrico da Barragem do Tua (2012).

Foram selecionados pelo autor, que não obedeceu a critérios rígidos, mesmo se quase todos contêm um aspeto pioneiro. A Torre de 2007, com 23 andares, foi a primeira que Souto de Moura riscou. Até então só tinha feitos casas com um piso. A Casa da Arrábida foi a primeira em que desenhou janelas. A Casa das Histórias foi o primeiro projeto que assinou a Sul do Douro.

Pegando no título da exposição, Souto de Moura diz que a continuidade se aplica à arquitetura em geral, e não apenas a estes sete exemplos. “Veja-se a permanência do classicismo, por exemplo. Quase não há arquitetura sem colunas. Por termos betão, hoje, podemos tirar o capitel e a base. Se fosse em pedra, era difícil, porque fura. Mas a ideia tripartida da arquitetura clássica, base, fuste capitel, põe-se também na arquitetura moderna.”