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O dia já vai longo e José Luis Guerín quer fazer uma pausa, mas não sem antes dar uma entrevista ao Observador. E porque não fazer ambas? Numa esplanada de Lisboa, o realizador espanhol fala-nos sobre o filme A Academia das Musas, que se estreia esta quinta-feira, 23 de junho, e sobre as cidades portuguesas que lhe conquistaram o coração, Porto e Lisboa. “Não consigo escolher entre as duas”, diz.

O filme conjuga o documentário e a ficção em 92 minutos e conta a história de um professor de Filologia que cria um projeto com as suas alunas chamado — claro está — Academia das Musas. A poesia é o elo que liga estes personagens e a fonte de desconfiança da esposa do Professor, que não concorda com os métodos de ensino do marido.

A A Academia das Musas fez parte do Festival de Locarno, do Festival de Sevilha onde ganhou o prémio de melhor filme, do Lisbon & Estoril Film Festival e ainda do Festival de Tromsø, com o Prémio Dom Quixote como recordação.

De onde vieram estas musas e esta academia?
As musas são ficção. Creio que no filme não há musas: elas são mulheres reais, de carne e osso. Na comunidade literária, as musas existiam de alguma maneira, mas no filme temos apenas um professor, a sua esposa e as suas alunas. Tudo isto surgiu porque me convidaram para fazer cinema dentro de uma sala de aula. Não houve nenhuma imposição para que o resultado fosse um filme. O filme foi-se desenrolando.

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Foi-se desenrolando mas sempre com a mesma motivação?
Os atores e a qualidade dos diálogos motivaram-me. A ideia de a A Academia das Musas ter estudantes pareceu-me inicialmente uma ideia má, porque no século XXI nada nos leva a crer que exista uma escola de musas. No entanto, a qualidade dos diálogos entre as mulheres fez-me acreditar que seria possível. Falavam nos seus próprios termos, do que era o amor, as palavras e a criação. Fizeram-me crer que era possível criar algo.

A sua obra divide-se entre a ficção e o documentário e a A Academia das Musas é mais um exemplo. Onde é que um estilo termina para dar lugar a outro?
Para mim, tem a ver com as relações entre as personagens e as pessoas. Sempre que se faz um filme, constroem-se personagens e isso pode acontecer num documentário. Decide-se filmar esta pessoa e não outra, decide-se colocar esta frase e não outra. No entanto, no cinema documental a relação entre a personagem e a pessoa é distinta. Nos meus filmes, talvez para o público não seja evidente quais são ficção e quais são documentários, mas para o realizador é muito importante determinar as “regras do jogo”. Por isso, não permito que este filme seja apresentado num festival de cinema documental. Parece-me errado. Disse ao elenco que podiam inventar as suas personagens. É essa a magia do cinema. Todos temos fantasias e fantasmas, podemos criar as nossas próprias personagens.

Existe uma ideia de categorizar os filmes? Ou é documentário ou é ficção?
Sim, existe essa ideia que é muito útil para o consumo rápido. Quando se invoca o cinema de género, fala-se imediatamente do cinema norte-americano dos anos 40: muito esplendor, musicais e comédias. É algo passageiro. No cinema documental, não. Há legados, movimentos e criadores muito bons. O documentário tem futuro e ainda há muito por construir e explorar. A fronteira entre a ficção e o documental está cada vez mais presente.

A equipa da A Academia das Musas é pequena. Caso fosse feito por uma grande “máquina”, um filme mais industrializado à maneira de Hollywood não seria o mesmo filme?
Não. Eu não conseguiria capturar interpretações tão íntimas, se tivesse uma equipa de realização repleta de técnicos e com dispositivos mais “pesados”. Em cada filme, pergunta-se sempre qual será a logística e as ferramentas, para poder rentabilizar ao máximo. Gosto muito que cada filme seja uma experiência única, com uma equipa e materiais que não posso repetir noutros casos. É o mais vantajoso da cultura digital, há tantas possibilidades técnicas.

Para um realizador de cinema independente e de autor, trabalhar com poucos recursos significa mais criatividade?
Não necessariamente. Eu habituei-me a uma certa versatilidade e gosto muito de me adaptar. No início da minha carreira tinha medo de ter uma equipa. Para mim, a equipa era um mal necessário, porque não posso fazer os filmes sozinho. Era um pouco paranoico. À medida que fui crescendo, fui aprendendo com o intercâmbio de pessoas. Além dos aspetos técnicos, a equipa é também o que se passa em frente da câmara. É uma coautoria com os personagens que estou a filmar.

Posso dizer que tem um fascínio sobre as mulheres?
Sempre que há a hipótese de escolher trabalhar com homens ou mulheres, prefiro sempre as mulheres. Os meus filmes são quase sempre sobre mulheres porque parece-me sempre mais estimulante. Creio que o desejo não é necessariamente uma coisa má em cinema — e há pessoas que acreditam que é. Acredito que o cinema está muito vinculado ao desejo e à criação de relações. Quando recordo as minhas primeiras experiências enquanto realizador, lembro-me de me interessar pelas atrizes e não pelo trabalho dos realizadores. Nunca falamos disto, porque é muito incorreto, mas chamou-me mais atenção a Claudia Cardinale do que o Luchino Visconti. Até nas minhas primeiras gravações em Super 8, filmava as minhas amigas. Uma das coisas que se diz n’A Academia das Musas é que a tensão sexual é produtiva, gera qualquer coisa.

A Academia das Musas tem sido aclamado pela crítica com unanimidade. Um filme é feito para os críticos e não apenas para o público?
Os críticos fazem parte do público. Não posso fazê-lo apenas para os críticos, porque imobilizaria o processo criativo do filme e porque são vários e não pensam da mesma forma. Seria impossível. O objetivo é a partir de um filme descobrir algo e partilhar essa descoberta com os espetadores. É o que me motiva.

Espero que continue a gostar de Lisboa…
Seguro que si.